Vale mesmo a pena descobrir a Trilogia de Oslo, do cineasta norueguês Dag Johan Haugerud (n. 1964). A sua agilidade narrativa não obriga ao cumprimento de qualquer ordem na descoberta dos respetivos títulos, na certeza de que qualquer um deles segue um grupo de personagens enredadas em múltiplos (des)entendimentos afetivos. Começámos por Sex, estreado a semana passada, e continuamos agora com Dreams, a partir de hoje disponível nas salas - para 4 de dezembro está agendado o lançamento de Love.Sublinhemos a ironia dos títulos, apostando num cruzamento de transparência realista e divagação poética. Apesar da confissão da cena de abertura, Sex não era tanto sobre as performances sexuais dos seus protagonistas, apresentando-se antes como o cruzamento de múltiplos diálogos sobre uma sexualidade que, afinal, desafiava as certezas das personagens (masculinas e femininas). Algo de semelhante se poderá dizer a propósito de Dreams: os sonhos de Johanne (Ella Øverbye) projetam-na - e projetam o próprio filme - em cenários imaginados ou imaginários, mas não se trata de celebrar a “fuga” existencial que tais cenários podem, ou poderiam, representar. À maneira de um verdadeiro conto moral (uma vez mais, vêm à memória os diálogos filosóficos do cinema do francês Eric Rohmer), este é um filme sobre uma verdadeira prova de real: da vertigem sonhada à matéria palpável da vida vivida.A vida numa nuvemJohanne é uma personagem que, por assim dizer, apela ao sonho - a sua intérprete, Ella Øverbye, possui mesmo a singular qualidade de uma atriz que seduz o olhar da câmara sem nunca deixar de manter uma distância emocional, no mínimo, enigmática. Ela é a narradora do filme e as suas palavras em off possuem essa qualidade invulgar de um discurso que avança em transparência, multiplicando os segredos que transporta.Vale a pena citar as palavras de abertura: “A minha vida está numa nuvem. Bem, nem toda. O meu corpo não. Mas tudo o resto, o que vejo, penso e sinto, está tudo numa nuvem. É uma sensação muito estranha sentir o corpo e a alma separados. Dá uma sensação de fragilidade, como se a minha vida estivesse à deriva.” São palavras de uma sonhadora. O certo é que ela sabe que nós, espetadores, estamos do lado de cá. E continua: “Acham isso estranho? Eu levo sempre tudo à letra.”Que significa, então, “levar tudo à letra”? Simplificando, sobretudo não tentando resumir as muitas nuances das palavras e das situações que Haugerud nos apresenta, convém identificar o “motor” dramático de tudo o que vai acontecer e que, muito cedo, Johanne partilha connosco. Assim, logo na primeira aula com a nova professora de francês, Johanna (Selome Emnetu), a nossa narradora descobre-se invadida pelo calor solitário de uma paixão sem fronteiras. De tal modo que, mais tarde, será mesmo levada a pensar que a simples diferença da letra final dos nomes - um “e” no seu caso, um “a” no nome da professora - não poderá deixar de ser uma boa premonição. . Sabendo nós que o mundo politicamente correto em que nos querem fazer viver (e morrer) menospreza a infinita complexidade dos humanos e das suas relações, talvez seja útil informar o leitor/espetador mais precipitado que Dreams não é um sermão “purificador” sobre um amor lésbico, nem um ensaio “político” sobre os códigos interiores ao espaço escolar. Há sinais (muito discretos) de uma coisa e outra nos efeitos da história de Johanne/Johanna noutras personagens, mas, tal como o anterior Sex, este é um filme sobre as singularidades dos desejos humanos. Ou sobre o misto de crença e irrisão que um desejo pode transportar.Sonhar e escreverJohanne começa por sonhar um amor apaixonado antes mesmo de encontrar o seu “objeto”, o que, inevitavelmente, lhe empresta uma ambiguidade a que ela, depois de conhecer Johanna, tenta resistir. Ao mesmo tempo (e é esse um belo golpe dramático do argumento de Haugerud), a dimensão sonhada da paixão de Johanne adquire uma vida muito concreta a partir do momento em que ela decide transformá-la em “coisa” escrita.Ora, a escrita circula, quer dizer, vai gerando uma pequeníssima comunidade de leitores que identificam a sua verdade e também o sonho que a alimenta - podemos mesmo dizer: a sua verdade sonhada. O que, bem entendido, baralha ainda mais tudo aquilo que Johanne sonhou (e, num certo sentido, nós sonhámos com ela). Observe-se, a esse propósito, a contida beleza do longo diálogo com a avó, Kristin (Ane Dahl Torp), depois de esta ter lido o “romance” vivido e sonhado, quer dizer, escrito pela sua neta. Talvez seja essa a interrogação moral deste filme tão especial: será que o romance ainda nos garante as atribulações de algum romantismo?.'As Estações'. Arqueologia e lendas do Alentejo.'Urchin'. Realismo e tragédia nas ruas de Londres