Hoje, ao fim da tarde, quando o Sporting entrar em campo para enfrentar a equipa do Bodo-Glimt, será altamente improvável que os analistas convoquem a 98.ª cerimónia dos Óscares de Hollywood para comentar a performance da equipa norueguesa que se transformou na inesperada vedeta da actual fase da Liga dos Campeões. Seja como for, e já que o futebol se tornou a medida compulsiva de muitas formas da actividade humana, lembremos que o país do Bodo-Glimt ficou também como um símbolo sugestivo da cerimónia realizada no domingo em Los Angeles (madrugada de segunda-feira em Portugal). De facto, Valor Sentimental, realizado por Joachim Trier, entrou na história como o primeiro filme da Noruega a arrebatar o Óscar de Melhor Filme Internacional (designação que substituiu a de Melhor Filme Estrangeiro a partir da cerimónia de 2020).Descontando os lugares-comuns do politicamente correcto e os seus desvios paternalistas, convenhamos que a questão do cinema internacional - entenda-se: da internacionalização dos sistemas de produção e difusão dos filmes - está longe de ser uma mera curiosidade. Assumindo pelo segundo ano consecutivo as funções de apresentador dos Óscares, Conan O’Brien assim o recordou numa observação em que, suspendendo o humor, referiu os “tempos assustadores” que estamos a viver, pedindo licença para um apontamento mais sério: “É em momentos como este que os Óscares têm um eco particular. Esta noite estão aqui representados 31 países de seis continentes, e todos os filmes que celebramos são o produto de milhares de pessoas que falam línguas diferentes, trabalhando arduamente para gerar alguma beleza. Prestamos tributo, não apenas ao cinema, mas aos ideais de globalização artística, colaboração, paciência, resiliência e essa que é hoje a mais rara das qualidades - o optimismo.”. Os dois filmes que dominaram a lista final de prémios são o reflexo desse optimismo cristalino, mas também paradoxal, tingido por muitas formas de amargura e desencanto. Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson, distinguido com seis estatuetas douradas, incluindo a de Melhor Filme de 2025, consegue evocar os movimentos radicais da década de 1970 numa narrativa épica que relança a questão dos valores herdados por cada nova geração. Quanto a Sinners/Pecadores, de Ryan Coogler, que valeu a Michael B. Jordan a consagração como melhor actor, refere-se à conjuntura de crise da América de 1932 para observar as convulsões da identidade afro-americana, cruzando matrizes dos géneros musical e de terror. Com um detalhe que está longe de ser secundário: os dois realizadores foram distinguidos nas categorias de argumento, original no caso de Coogler, adaptado para Anderson (vencedor também do Óscar de realização).Notícias da RússiaQuanto à dimensão internacional do cinema, convenhamos que o slogan lançado por Javier Bardem (“Não à guerra, libertem a Palestina”) esteve longe de cumprir o efeito emocional procurado pelo actor espanhol. Foram mesmo palavras que, na sua brusquidão, sem qualquer antecipação ou prolongamento discursivo, nem sequer tiraram partido do contexto - a apresentação do Óscar de Melhor Documentário, na companhia da indiana Priyanka Chopra - em que foram proferidas. Ironicamente, o prémio atribuído nessa categoria teve um impacto muito mais incisivo. Secundarizando o favorito (A Vizinha Perfeita, sobre um caso de violência urbana numa cidadezinha da Florida), o Óscar atribuído a Mr. Nobody Contra Putin conferiu uma dimensão (ainda mais) universal à experiência de Pavel Talankin, professor na zona dos Montes Urais que, depois da invasão da Ucrânia, se viu confrontado com a agressiva propaganda do governo russo na sua escola - a presença de Talankin no palco do Dolby Theatre impôs-se, literalmente, como uma extraordinária prova de verdade.. Algo bizarro foi o facto de Marty Supreme, com nove nomeações, ter ficado a zero - fica por esclarecer se se tratou do efeito da polémica gerada pelas declarações do seu protagonista, Timothée Chalamet, considerando que a ópera e o bailado “já não interessam a ninguém”. Em matéria de anti-clímax, ficou a ausência na cerimónia de Sean Penn, consagrado como melhor actor secundário em Batalha Atrás de Batalha — seja como for, Penn entra na reduzida galeria de actores com três Óscares, fazendo companhia a Ingrid Bergman, Walter Brennan, Daniel Day-Lewis, Frances McDormand, Jack Nicholson e Meryl Streep (Katharine Hepburn continua a ser a única com quatro prémios de interpretação). Isto sem esquecer que a vitória de Jessie Buckley como melhor actriz, em Hamnet, não deixou de ser um momento carregado de emoções, ainda que fosse sentida como uma certeza antecipada.À espera do YouTubeComo sempre, o espaço “in memoriam” distinguiu-se pelo misto tocante de nostalgia e celebração. A evocação dos profissionais de cinema falecidos ao longo do último ano começou mesmo de forma pouco habitual com Billy Crystal (nove vezes apresentador dos Óscares, actualmente com 78 anos), a evocar Rob Reiner. Testemunhos pessoais foram também apresentados por Rachel McAdams e Barbra Streisand, evocando Diane Keaton e Robert Redford, respectivamente.O impacto dessas apresentações não foi estranho a uma sóbria realização televisiva, ainda que pontuada por momentos de hesitação no uso das câmaras móveis colocadas na plateia e, sobretudo, por falhas de alguns microfones. Enfim, fica a ideia ou, pelo menos, a ironia segundo a qual algo mudará (embora não se saiba o quê) daqui a três anos. Ou seja: a 99.ª e a 100.ª edição dos prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ainda nos chegarão através da televisão “tradicional”, até que em 2019 as cerimónias dos Óscares passarão a ser transmitidos pelo YouTube - teremos, talvez, de reavaliar os nossos conceitos de internacionalização.. Batalha Atrás de Batalha x 6Embora Sinners/Pecadores tivesse quebrado o recorde de nomeações (16), nenhum filme se aproximou dos mais premiados de sempre. Ou seja: Ben-Hur (1959), Titanic (1997) e O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei (2013), todos com onze Óscares. Quatro filmes conseguiram mais do que uma estatueta dourada:BATALHA ATRÁS DE BATALHA (6): filme, realização, actor secundário, argumento adaptado, montagem e casting.SINNERS/PECADORES (4): actor, argumento original, fotografia e música.FRANKENSTEIN (3): cenografia, guarda-roupa e caracterização.GUERREIRAS DO K-POP (2): longa-metragem de animação e canção.Três factos destacam-se entre as originalidades desta cerimónia:— atribuído pela primeira vez, o Óscar de melhor casting foi para Cassandra Kulukundis (Batalha Atrás de Batalha).— Autumn Durald Arkapaw (Sinners/Pecadores) foi a primeira mulher a receber o Óscar de melhor fotografia.— The Singers e Two People Exchanging Saliva repartiram o triunfo de melhor curta-metragem de acção real; a atribuição de Óscares “ex-aequo” só acontecera seis vezes, a última das quais em 2013, com o triunfo de 00:30 A Hora Negra e 007: Skyfall na categoria de melhor montagem sonora..Os Óscares deste tempo de poucos espectadores.Os prémios BAFTA a pensar nos Óscares