Pouco mais de uma semana depois da estreia do novo filme de animação dos Mínimos — Mínimos & Monstros, com realização de Pierre Coffin —. a saga dos ruidosos bonequinhos amarelos parece ter chegado a um impasse comercial. Não que os 87 milhões de dólares contabilizados na primeira semana nas salas dos EUA seja um valor desprezível (em Portugal, o filme foi visto por 60 mil espectadores, contas redondas, gerando uma receita bruta de 407 mil euros). O certo é que face aos números dos títulos anteriores, algo se está a alterar na relação desta franchise com o seu público fiel ou potencial. Lembremos apenas que o filme inaugural — Mínimos (2015), co-assinado por Coffin e Kyle Balda — rendeu nas salas americanas 115 milhões de dólares apenas no primeiro fim de semana de exibição, acabando por somar mais de mil milhões no mercado global.Não há, neste como em qualquer outro caso, qualquer relação determinista entre as qualidades criativas de um filme e a sua performance nas bilheteiras. O que está em jogo é de outra natureza. A saber: a crise global do cinema, isto é, da relação filmes/espetadores, tornou-se uma questão de tal modo urgente que aponta para uma pergunta perturbante: o fim das estruturas clássicas de produção, desde logo no cinema de Hollywood, a par da emergência de múltiplos circuitos de difusão (incluindo, claro, as plataformas de streaming), são fatores conjugados que estão a decompor lentamente a própria possibilidade de o cinema continuar a existir como fenómeno popular?Acontece que Mínimos & Monstros se apresenta como um objeto tanto mais motivador para enfrentar tais dúvidas quanto se trata de um filme sobre o cinema e, mais do que isso, sobre o cinema de Hollywood. Dir-se-ia que os Mínimos querem salvar Hollywood: na sua dimensão mais radical, esta é mesmo uma história de redescoberta e revalorização da história dos filmes e do seu património de muitas histórias. .Porquê? Porque, desta vez, os incansáveis Mínimos são apresentados como personagens que tiveram um invulgar impacto em toda a história do cinema. Tudo acontece, aliás, a partir de um museu da 7ª Arte em que a guia de serviço se esforça por explicar a um grupo de visitantes, sobretudo crianças, a odisseia dos Mínimos desde os tempos primitivos da indústria cinematográfica. Dos pioneiros como os irmãos Lumière ou Georges Méliès até ao criador de Star Wars, George Lucas, passando por referências tão emblemáticas como O Mundo a Seus Pés (1941), E.T., o Extraterrestre (1982) ou Matrix (1999), estamos perante um verdadeiro compêndio cinéfilo — os Mínimos surgem mesmo como personagens fascinadas pelos poderes de comunicação do cinema, a ponto de se envolverem numa avalanche de confusões que inclui a produção de um filme de terror para o qual têm o poder de convocar verdadeiros... monstros!Para lá da sofisticação dos desenhos e da sábia construção de personagens (com um brilhante elenco de vozes que inclui, entre outros, intérpretes “oscarizados” como Allison Janey, Christoph Waltz e Jeff Bridges, além do próprio Pierre Coffin), eis um filme que procura uma audiência popular que, afinal, talvez esteja a desaparecer. Ou seja, um público que conheça (ou sinta curiosidade em conhecer e apreciar) a pluralidade da história do cinema. Tendo em conta que Mínimos & Monstros é um dos mais belos desenhos animados dos últimos anos, resta saber se a sua discreta performance é, ou pode ser, motivo de alguma reflexão para a maior parte dos agentes do mercado.