"Os lugares onde as pessoas vivem não devem ser parques temáticos"

Onde é um livro bastante diferente do que é habitual no escritor José Luís Peixoto, com sonoridades de romances - ou de conto - e de viagens. Textos na maioria breves a partir de visitas a três localidades: Abrantes, Constância e Sardoal; de onde as descobre com outro olhar.

José Luís Peixoto já experimentou alguns registos literários e desta vez, em Onde, volta a essa busca por uma outra voz. Um livro que se segue ao biográfico Almoço de Domingo, que dominou as tabelas de vendas nacionais durante várias semanas, e em que observa o país por via de um trio de terras bem portuguesas. Explica que as dezenas de textos aqui reunidos resultaram de deslocações aos locais e que muitos deles foram mesmo escritos de corpo presente e outros dos apontamentos tirados nessas terras. O seu desejo era encontrar um elemento que desse significado ao lugar e que captasse a sua essência. Uma experiência que não deve ficar por este volume. É o que garante: "Tenho a intenção de, no futuro, escrever outros livros que, como este, se dediquem a espaços concretos de Portugal, chamando a atenção sobre eles, mas tratando igualmente temas mais amplos."

Este é o típico livro que surpreende os leitores que esperam por um romance e confrontam-se com uma geografia do autor. Porque o escreveu assim?
Naquilo que tenho escrito, o espaço sempre foi um tema que me entusiasmou bastante. Tenho vários livros muito ligados a lugares, tanto os que se referem às minhas origens como, em contraste, outros que se dedicam a lugares remotos, como é o caso da Coreia do Norte ou da Tailândia. Aqui, trata-se de, através da escrita, avançar por Portugal. Refletir um pouco sobre paisagens e culturas portuguesas e, também assim, literalmente alargar horizontes. Embora, como disse, já o viesse a fazer há algum tempo, tendo livros que descrevem a região de Fátima ou de Campo Maior, por exemplo. No que diz respeito a este Onde, a grande diferença é o ênfase bastante direto no espaço. Quanto ao género, não sei bem quais são as expectativas dos leitores, mas sei que não tenho interesse em escrever romances seguidos. Ao longo destes vinte anos de publicações, tenho publicado múltiplos títulos que não são romances, alguns são até difíceis de classificar quanto ao género. Essa é uma característica do que quero fazer, pois pretendo continuar a cultivar múltiplos géneros.

Houve alguma razão emocional que o fez tomar este caminho?
As razões emocionais parecem-me fundamentais na decisão de escrever um livro. Neste caso, trata-se de lugares com os quais sempre tive relação, apesar de, sob vários aspetos, começarem a afastar-se da minha região natal. O concelho de Ponte de Sor é parte da fronteira entre o Alentejo e o Ribatejo. Como tal, tenho muitas memórias ligadas a Abrantes, por exemplo.

Os capítulos têm como ponto de partida três terras: Abrantes, Constância e Sardoal. Poderiam ser outras ou estas 'escolheram' o escritor?
Se fossem outros lugares, certamente o livro seria diferente. Dessa forma, esta região é indispensável a este livro específico. Ao mesmo tempo, pareceu-me que seria muito adequado para se transformar num "primeiro passo" para o que virei a escrever no futuro, se se concretizar este meu projeto.

Os habitantes de cada uma destas terras irão ser surpreendidos por um olhar 'estrangeiro' sobre a sua realidade?
Espero que sim e que estas palavras possam estimular novos olhares até para quem passa todos os dias por aqueles lugares, para quem tem as memórias de uma vida inteira ligadas a eles. Em simultâneo, ficarei muito satisfeito se os textos que constituem este livro criarem ideias acerca destes espaços em pessoas que não os conhecem. Sentirei uma enorme realização se leitores sentirem curiosidade por conhecer os espaços referidos e, realmente, forem lá. Então, os textos ganharão novos significados, voltarão a fundir-se com a paisagem.

A escrita foi acompanhada de alguma investigação sobre as localidades ou estas sobrepuseram-se à opinião do observador?
Levei a cabo bastantes leituras acerca destes lugares, assim como das pessoas que os habitam e habitaram. Tentei usar esse conhecimento de forma subtil. Em alguns momentos, por exemplo, há referências que apenas são reconhecidas por quem já tem algum contacto com os espaços e com as suas histórias. A minha intenção era alcançar uma certa ligeireza, que não seria possível se existisse uma saturação de informações. Ainda assim, acho que há conhecimentos sobre a região que são veiculados nos textos e espero que sejam estimulantes para quem lê.

A escrita foi resultado de deslocações aos locais ou essas referências já existiam nas suas memórias?
Em grande medida, estes textos resultaram de deslocações a todos os lugares mencionados. Uma parte dos textos foi mesmo escrita in loco ou, pelo menos, partiu de anotações que retirei nos locais. Essa era a ideia: ser específico. Nestes textos, sempre que menciono algum elemento concreto, ele existe, está lá. A minha intenção é que, quem se desloque ao local de cada texto encontre exatamente a pedra, a árvore ou qualquer outro elemento que esteja referido naquelas palavras. Mais tarde, quando houver alterações no espaço, fica o testemunho daquilo que cada um destes lugares foi em tempos.

São três as terras escolhidas. Porquê estas?
Por estarem no centro de Portugal, por me parecerem que são o lugar certo para o primeiro passo de um caminho que espero percorrer.

Qual delas se mostrou mais difícil de ser retratada?
Abrantes, Constância e Sardoal são concelhos contíguos, com múltiplas ligações, mas também com um grande número de particularidades próprias. Não posso dizer que um tenha sido mais difícil dos que os outros.

A natureza luta - e consegue - sempre um lugar primordial nos vários textos. É o que se impõe a quem olha para Abrantes, Constância e Sardoal?
Trata-se de uma região com grandes riquezas naturais. Tanto ao nível da floresta, como ao nível das paisagens fluviais, entre outros exemplos possíveis. A natureza é um sinal do que não muda, do que existiu desde o início dos tempos e continua a ser assim. Em simultâneo, é a metáfora mais universal e, por isso, a mais potente. O subtítulo deste livro é: "O exemplo de Abrantes, Constância e Sardoal". Com isso, quero dizer que esses lugares servem de exemplo para falar de temas que são muito mais amplos, que nos tocam a todos. Nesse ponto, a natureza tem um papel determinante.

Até que ponto a urbanização desenfreada do país dificultou alguma destas descrições?
Não trouxe qualquer dificuldade. Pessoalmente, mesmo quando encontro opções arquitetónicas ou urbanísticas que não me agradam - compreendo que as populações locais têm de viver e que, em alguns casos, os seus direitos não se coadunam com as expectativas de quem vem de foram à procura de algo muito específico. Enquanto viajante, creio que não devem impor as nossas expectativas aos lugares que visitamos. Ao mesmo tempo, não concordo que lugares onde vivam pessoas devam ser "parques temáticos" apenas para garantirem uma boa experiência de visita. No nosso país, não faltam exemplos de localidades que tiveram múltiplas presenças ao longo dos séculos. Em grande medida, esse é um sinal da sua riqueza.

Há momentos do passado que deixaram de existir, como as cheias do Tejo em Abrantes. São situações que alteram a perceção do autor ou do habitante?
Embora os textos lidem com múltiplos tempos, esse é um dos constantes questionamentos do livro, também é certo que a âncora desta proposta está firmada no presente. Assim, o maior compromisso é com o que está. Nessa medida, não creio que esse facto altere a perceção. Entre várias outras, é uma das circunstâncias que contribui para a atual situação.

Até que ponto estas três terras foram transparentes ou baças para se deixarem interpretar?
Neste momento, sinto que foram bastante transparentes e, quase literalmente, se ofereceram a essa interpretação com muita generosidade. Um sinal disso foi a enorme simpatia e o bom acolhimento que recebi por parte dos habitantes locais com quem lidei e que muito me ajudaram.

Onde

José Luís Peixoto
Editora Quetzal
143 páginas

Outras novidades literárias: Dois calhamaços ainda a tempo das férias

Os meses de férias são os melhores para se "perder" tempo com livros que noutros ficam sem horas para se os ler. É o caso de duas reedições recentes, tão díspares uma da outra como só ambos os autores seriam capazes de fazer. Numa mão pode acolher-se a coleção de textos de Miguel Esteves Cardoso (MEC) sobre música, na outra a azáfama do dia 16 de julho de 1904, descrito por James Joyce sobre Dublin e o seu protagonista Leopold Bloom.

MEC para reabrir a memória

Num tempo em que nos principais suplementos culturais portugueses se leem textos obtusos, ignorantes e vaidosos sobre música, é um alívio poder ler o volume que reúne dois livros de MEC sobre o mesmo assunto: Escrítica Pop e O Ovo e o Novo. Muitos deles foram escritos também durante uma época em que as revistas estrangeiras da especialidade - principalmente, inglesas - buscavam todas as semanas a "the next big thing" para pôr na capa, desovando textos com todo o tipo de bandas, muitas não tão relevantes assim e que por essa razão se perderam entretanto.

O primeiro texto, a do O Ovo e o Novo, é uma viagem pela música gravada na década de 1970. 119 páginas tão destruidoras como uma benesse para quem a viveu. Por um lado, oferece-se a recordação desse boom do rock - e de outras modalidades - e por outro a confirmação de como o tempo passou sobre a grande criatividade desses anos. O autor faz uma introdução, depois percorre ano a ano, género a género, músicos a músicos, até fechar a caminhada. Muitos dos nomes que vão pululando por essas páginas estão (quase) esquecidos, enquanto outros ainda sobrevivem ao processo atual da existência desse universo que, mais do que muitas revoluções, fez mudar mentalidades e libertar o ouvinte de regras atávicas.

Entre o que se lê, surgirá frequentemente a pergunta sobre a atualidade do que se escreveu há muito, até procurar as gaffes do escriba, nada que incomode o leitor que se interessa pelo tema desenvolvido em mais de seiscentas páginas. Aliás, MEC desfez e esclareceu em recente entrevista a propósito do lançamento deste(s) livro(s) o que achava e o que pensava, bem como aquilo em que esteve certo ou errado, leitura que desmistifica essa procura pelo pântano em que o passado se afoga.

O início é delimitador: "A década de 70 é um "U" (...) e os pontos altos são os anos 1970 e 1980." Feita a fronteira, vêm os estilos: Jazz + rock, heavy metal, entre outros. Depois, duas categorias: os sobreviventes e os náufragos. Logo surgem os ex-Beatles, "uma lástima" após algum início prometedor. O fulgor dos Genesis que percorre a década, o esgotamento dos Pink Floyd pós Dark Side of the Moon. As bandas orquestrais, como os pretensiosos Yes, e a escassez de interpretação dos Emerson, Lake & Palmer. O comercialismo de Elton John pós Madman Across the Water, a ilusão de Bruce Springsteen. Elogios a Leonard Cohen e Joni Mitchell contrapõem-se aos náufragos. Depois, há o benefício de se avivarem memórias, muitas, sobre os King Crimson, Jethro Tull, Jefferson Airplane, Neil Young, Simon and Garfunkel, Lou Reed, Stevie Wonder, Sandy Denny... e para os das franjas, o punk, o reggae, a música eletrónica, bem como a vitória do single sobre o álbum a fechar a década.

Segue-se a parte Escrítica Pop, que tem por subtítulo Um quarto da quarta década do rock: 1980-1982. Começa com um mea culpa: "É claro que já me arrependi de tudo aquilo que aqui escrevi. É claro que já não gosto de nenhuma das bandas das quais disse gostar muito, e que vim a apreciar todas as outras que jurei odiar até à morte." Uma reunião de textos escritos por várias publicações e agora reunidas... A ler.

Escrítica Pop

Miguel Esteves Cardoso
Bertrand Editora
637 páginas

Outra música, a do sr. Ulisses

Do romance gigante, impenetrável qb, mais comprado do que lido, mais frequentemente mal traduzido, pouco vale a pena acrescentar por haver tão pouco a dizer após a recente enxurrada de artigos a celebrar os cem anos da publicação de Ulisses. A necessidade de tempo para a sua leitura justifica a sugestão de a ele voltar neste verão, designadamente com a reedição em capa dura da ótima tradução de Jorge Vaz de Carvalho. A ler, finalmente.

Ulisses

James Joyce
Editora Relógio D"Água
751 páginas

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