Revelado no Festival de Cannes de 2025, onde foi distinguido com o Prémio do Júri, o filme Olhar o Sol (título original: In die Sonne Schauen) surgiu em dezembro passado, em representação da Alemanha, na lista dos candidatos a uma nomeação para o Óscar de Melhor Filme Internacional. Não conseguiu chegar a essa nomeação, estreando-se agora nas salas portuguesas. Ilustra, afinal, um modelo de ficção que, para o melhor e para o pior, sobretudo por efeito de muitas séries televisivas, se tornou frequente no mercado audiovisual (incluindo o streaming, como é óbvio).Digamos, para simplificar, que se trata de uma racionalização ficcional das memórias históricas (de uma personagem, um país, etc.). No caso desta realização de Mascha Schilinski (nascida em Berlim Leste, em 1984), há mesmo uma proposta didática decorrente do facto de a ação ter lugar numa mesma quinta da região de Altmark, repartida por quatro períodos históricos centrados, cada um deles, numa personagem feminina. Ou seja: Alma (Hanna Heckt) na década de 1910; Erika (Lea Drinda) trinta anos mais tarde, sob o inevitável assombramento da guerra; Angelika (Lena Urzendowsky), nos anos 80, pressentindo-se a lenta decomposição de uma Alemanha dividida em duas; enfim, Lenka (Laeni Geiseler), em tempos recentes, refazendo um lugar povoado por muitas memórias, ora transparentes, ora ocultas.Tudo isto tem tanto de sugestivo como, por vezes, de esquemático e redundante. O trailer de Olhar o Sol utiliza, aliás, uma frase promocional sintomática das suas virtudes, e também dos seus limites: “Quatro vidas, quatro eras, um passado.” Em termos dramáticos, ou melhor, na conceção dramatúrgica do filme, isto significa que as personagens, para lá das suas singularidades, existem menos como pessoas e mais como “símbolos” existenciais destinados a construir uma visão unificada do passado - como se todos vivessem apenas para confirmar um significado que os precede.No cerne dos acontecimentos está o poder emocional, por vezes com contornos trágicos, que as memórias cruzadas podem conter. Como se diz, a certa altura: “Estranho como uma coisa que já não existe pode magoar.” Nesta perspetiva, importa sublinhar a qualidade global dos intérpretes, com inevitável destaque para o quarteto central de atrizes, mesmo quando as respetivas personagens ficam reduzidas a meras “mensageiras” do futuro que já não vão viver. Enfim, a qualidade das imagens não faz um filme, mas não podemos ficar alheios à magnífica direção fotográfica de Fabian Gamper. .'Se eu tivesse pernas, dava-te um pontapé'. A vida em grande plano.'Primeira Pessoa do Plural’. Uma aventura em torno da solidão