O pesadelo grotesco de Pattinson e Dafoe

Dois homens entregues a um pesadelo numa ilha rodeada de mar negro e de maldições com gaivotas. Assim é O Farol, o tal filme que acabou por não dar nomeação ao Óscar a um superlativo Willem Dafoe.

O barulho das ondas, aves ruidosas, o sopro do vento. O Farol, uma das sensações da edição da Quinzena dos Realizadores de Cannes 2019, leva-nos para o mais claustrofóbico preto & branco dos últimos anos (aliás, nomeado ao Óscar de melhor fotografia). Mistura de terror, comédia existencialista e conto de velhos marinheiros, é a história de dois faroleiros atirados para uma dimensão dostoievskiana de um pesadelo sobre monstros interiores.

Dois homens numa ilha monocromática que têm de conviver num ambiente de ameaça da natureza. Lá fora, a tempestade avança, mas à noite, na convivência masculina, surgem histórias de um passado negro e uma ameaça lendária que cresce no meio de uma praga ou maldição misteriosa. Isto perante muito álcool e revelações sobrenaturais que podem remeter para sereias de mitos populares da New England do século XIX.

Apesar da perfeição dos enquadramentos e de um sentido visual sempre empolado, o filme pertence sempre aos atores. Willem Dafoe é o faloreiro veterano, um tagarelas cruel, enquanto Pattinson é alguém com um passado na civilização e obrigado a aqui a trabalhos mais duros. Dois atores que parecem possuídos por uma fúria vertiginosa.Interpretações contagiantes que vão buscar inspiração a um teatro mais brutalista, sendo essa uma das marcas deste argumento, algures a precipitar um tempo de respiração cénica. Não deixa de ser um escândalo Dafoe não ter sido aqui nomeado (a justiça foi colmatada com o prémio nos Independent Spirit Awards) para o Óscar de melhor ator secundário e fica provado de uma vez por todas que Robert Pattinson é um ator de mão cheia quando bem dirigido.

Depois de The Witch (nunca estreado nos cinemas portugueses), Roger Eggers assume-se como uma das grandes esperanças de um novíssimo cinema americano. Um cineasta capaz de criar ambientes e atmosferas novas. Por muito que por vezes seja exasperante a torrencial carga alegórica de O Farol, Eggers é sempre perito em deixar o espetador à beira de uma inquietação. Poder-se-á mesmo falar em precipício. É muito raro um filme ter esta coragem de nos querer levar à loucura. Entre gaivotas ferozes e um mar negro, este festival de grotesco tem uma ironia muito interior: é um elogio à argúcia da palavra. Nesse aspeto, é tudo menos um objeto programado para servir uma função de "thriller" arrumado. Se a loucura dos homens é um vislumbre de fantasia, está aqui o seu filme-tese.

O Farol esteve para não ter direito a estreia portuguesa e só está agora nos cinemas devido à insistência de um exibidor. As distribuidoras cada vez mais arriscam pouco...

*** Bom

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