'O Padrinho - Parte III'. A redenção de um grande filme mal-amado

Guia para enfrentar o agora batizado O Padrinho de Mario Puzo. Epílogo: A Morte de Michael Corleone, versão reeditada de Coppola, disponível nos clubes de vídeo virtuais.

Não é a primeira vez que Francis Ford Coppola volta a mexer num filme seu, mas O Padrinho Parte III devia estar-lhe atravessado. Foi lançado em 1990 e unanimemente considerado inferior aos dois Padrinhos anteriores - em boa verdade é um filme sem o olimpo majestoso dos primeiros. Mas décadas depois percebe-se que a má vontade era exagerada e que o episódio de Sofia Coppola, filha do realizador, escolhida à última hora para substituir Winona Ryder como filha de Michael Corleone, veio acentuar tudo. Além do mais, chegava nesse ano outro filme sobre a máfia que teve outro impacto, o genial Tudo Bons Rapazes, de Martin Scorsese.

Em dezembro passado, um pouco sem ninguém estar à espera, Coppola colocou em poucos cinemas nos EUA e no Reino Unido e logo a seguir no mercado de home cinema esta sua nova visão. Chama-se O Padrinho de Mario Puzo. Epílogo: A Morte de Michael Corleone, em inglês: The Godfather Coda: The Death of Michael Corleone.

Tem menos sete minutos, um começo diferente, um final alterado e algumas cenas arrumadas de outra forma. São mudanças que dão ao filme um outro propósito e uma respiração mais enxuta. Quem o alugar agora nos videoclubes virtuais das operadoras apanha também uma introdução gravada de Coppola em que o realizador sintetiza a sua intenção.

"Quando eu e o Mario Puzo escrevemos o terceiro filme demos-lhe o título de O Padrinho. Epílogo: A Morte de Michael Corleone. Graças à generosidade da Paramount em nos deixar revistar este projeto, reeditei-o e dei-lhe o que, na verdade, não é um título novo, mas sim o original. Em termos musicais, uma coda é uma espécie de epílogo, um resumo, e era isso que queríamos que o filme fosse... O filme ganhou uma nova vida. Acho que proporciona uma experiência completamente diferente que, de facto, atua como coda dos dois primeiros filmes, um resumo, uma espécie de esclarecimento do que significam", palavras do realizador. Palavras que sublinham esse carácter de súmula dos dois primeiros Padrinhos.

Agora, sim, percebe-se que esta terceira parte era, de alguma forma, um remake velado do espírito dos primeiros filmes. A cena da primeira festa está filmada em jeito de assombração da celebração que nos introduz Marlon Brando no primeiro tomo. Mas nesta nova montagem de Coppola salienta-se a intenção de diálogo com os outros filmes, muitas vezes em jeito de reviver o fecho de ciclo uma saga familiar e um karma do clã Corleone - a personagem do sobrinho bastardo, o filho de Sonny, aqui interpretado por um poderoso Andy Garcia, evoca na perfeição o próprio Sonny. A terceira parte nunca foi feita para ser vista como algo "suplementar", faz mesmo todo o sentido do mundo chamá-la de epílogo, de coda. E essa aproximação ao universo musical cai que nem ginjas num objeto que evoca ainda uma outra arte, a da ópera. Torna-se óbvio - agora ainda mais - o ritmo e todas as simbologias com o cerne das tragédias da ópera clássica. Quando os Corleone vão ver a ópera Cavalleria Rusticana a fusão torna-se explícita e o sentido operático da narrativa ganha uma osmose trágica e fatalista inabalável. Nesse sentido, a ambição do filme é embalada por essa pulsão explicitamente musical, sobretudo na partitura de Carmine Coppola.

Outra das boas surpresas desta revisitação passa pela fluência. Se a memória nos dizia que um dos problemas deste fecho da trilogia de Puzo era o ritmo, agora, nos ligeiros desbastes, há uma aceleração dos eventos que o tornam menos pesadão. A própria opção de arrancar o filme logo com o diálogo entre o arcebispo e Michael Corleone leva o espectador diretamente ao cerne daquilo que o filme sublinha: a opção de Michael querer ser visto como um homem de negócios legais e legítimos. É um arranque perfeito e com uma gravidade dramática afiada.

Também o final, sem querer revelar a sua diferença em relação à anterior versão, contribui para dar um desfecho à saga mais filosofal e menos óbvio, podendo-se até falar em ironia. Talvez por isso este epílogo venha a matar em definitivo a terceira parte. A partir de agora, o filme de 1990 deixa de contar, esta versão melhorada é a que vai contar.

Para quem está em dúvidas se o "problema" de Sofia Coppola continua a incomodar, a resposta é também simples: sim, mas o pai não se atreveu a cortar um segundo da sua interpretação. Se quisermos ser honestos, essa fragilidade de termos alguém sem peso de acting a lidar com os gigantes Al Pacino e Diane Keaton como que funciona como falha de estimação. É seguro que cada vez que a filha de Michael Corleone entra em cena o filme perde peso. Vinte anos depois percebe-se lindamente que não era mito nem exagero a alergia ao registo de Sofia. A agora grande cineasta era um peso morto ou um corpo estranho. O melhor, talvez, é assumir essa fragilidade e não ir para esta revisão com o pé muito atrás...

Certo é que, nestes 158 minutos de cinema de luxo, Coppola e Puzo abordam muitos temas, em especial os sagrados laços familiares. No centro da história continua a estar o terceiro ato da vida de Michael Corleone, agora no final da década de 1970, já sexagenário e com problemas de saúde. A família Corleone está cada vez mais a tentar sair da máfia e a tornar-se um conglomerado financeiro de investimentos legítimos, neste caso através de uma operação de controlo de uma agência de imobiliário ligada ao Vaticano (e aí há uma explícita alusão à morte do Papa João Paulo e ao escândalo com Roberto Calvi, o infame "banqueiro de Deus") , mas o aparecimento de um sanguinário Vincent Corleone, o sobrinho esquecido de Michael, e a sede de outros clãs da Cosa Nostra em querer lucrar com a "legitimidade" dos Corleone voltam a colocar Michael perto de outras guerras, daí a famosa frase: "Quando eu pensava que estava fora, eles voltam a puxar-me para dentro." Aliás, este Padrinho tem uma série de citações que ficaram, como "amigos e dinheiro, como água e azeite", dita pelo próprio Michael, ou quando o próprio se dirige para a filha: "Era capaz de arder no inferno só para te manter protegida."

A grande validade desta nova versão, por muito que o espectador possa ser cético em relação ao próprio ato de mudar o que já foi estreado e canonizado, é voltar a proporcionar o prazer sensorial de mergulhar numa saga com ressonâncias míticas, num conto de maldição e amor que nos ensina como é perigoso morrer por dentro antes de morrer por fora. O fatalismo lírico de Coppola continua a ser perene e faz desta terceira história uma parte intrínseca das primeiras duas. Este Padrinho deixa de ser o patinho feio da trilogia.

PARA ALÉM DE SOFIA COPPOLA

Se no elenco deste terceiro Padrinho todas as más-línguas foram no sentido da penosa interpretação não profissional de Sofia Coppola, o filme demonstra agora o peso do seu elenco. Nestes casos, o tempo é bom conselheiro... Não é possível não deixar de amar o peso dramático de um envelhecido Al Pacino, cujo grande mérito foi o de nunca ir pela via de Marlon Brando - o seu Corleone tornou-se um "animal" muito específico... Depois, há sobretudo um imenso Andy Garcia, aqui no pico da sua energia. Um ator que veio dar um contorno diabólico de Fausto a este sobrinho que voltou a trazer violência ao clã.

Do elenco desta terceira parte destacam-se ainda Diane Keaton, sóbria e certa nas poucas cenas que tem, e um venenoso Eli Wallach, talvez com a sua melhor interpretação de uma carreira em que se conseguiu sempre destacar em papéis secundários.

REGRESSO À MESA DE MONTAGEM

Não foi a primeira vez que Francis Ford Coppola quis melhorar um filme seu. O caso mais conhecido é, porventura, Apocalipse Now. Recentemente, em 2019, os cinemas exibiram Apocalipse Now - Final Cut, também com um novo corte e uma remasterização em 4K, espécie de statement contra aquilo que tinha oferecido em 2001, a versão mais longa, intitulada Apocalipse Now Redux, alvo de algumas reservas.

Também em 2019, certos cinemas americanos estrearam uma nova versão aumentada de Cotton Club, fracasso financeiro estreado há 37 anos. Esta nova versão chamou-se Cotton Club Encore, mas nunca chegou a Portugal. Tratava-se de uma teimosia de Francis Ford Coppola, que nunca geriu bem a pouca aclamação deste drama musical.

Nesta Encore diz-se que há mais Gregory Hines, ator falecido em 2003. Tal como Coppola, outro gigante de Hollywood, tem apostado no "corte de realizador": Ridley Scott. Além da muito controversa versão de 1992 de Blade Runner - Perigo Eminente, há ainda um Blade Runner - Final Cut, de 2007.

Poucos se lembram que Scott também voltou a mudar outro dos seus clássicos, Legend - Lenda da Floresta. O filme de 1985 teve mais vinte minutos numa versão pouco notada de 2002. Acima de tudo, Coppola e Ridley Scott são dois cineastas que lidam mal com o controlo dos grandes estúdios...

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