A tradição dos filmes históricos, ditos de “reconstituição histórica”, continua viva no interior do cinema contemporâneo. De forma ambígua, sem dúvida. Isto porque a maior parte das produções que se apresentam como ecos da história humana, próxima ou primitiva, resulta de produções concebidas para exibição direta nos pequenos ecrãs e nas plataformas de streaming. Daí que a revisitação cinematográfica das memórias convulsivas de uma figura histórica como Gilles de Rais seja, no mínimo, uma aventura narrativa que justifica a nossa atenção - assim acontece com O Massacre de Gilles de Rais, primeira longa-metragem de Juan Branco.A figura de Gilles de Rais arrasta os seus próprios fantasmas. Nascido em 1405, distinguiu-se como chefe militar durante a Guerra dos Cem Anos, terá sido companheiro de armas de Joana d’Arc, tendo sido executado em 1440, depois de julgado e condenado como violador e assassino de crianças. Por vezes apontado como inspiração do conto O Barba Azul, de Charles Perrault, a sua culpabilidade foi, a partir da segunda metade do século XX, contestada por alguns estudiosos, argumentando que teria sido alvo de uma conspiração urdida pelo Duque da Bretanha e o Bispo de Nantes. Em qualquer caso, isso não impede que exista todo um imaginário popular em que surge rotulado como o primeiro serial killer da história da humanidade.Que fazer com tais memórias? Que fazer em termos cinematográficos? Que reconstituição é possível face à história de Gilles de Rais? A primeira resposta é linear e inequívoca: Juan Branco recusa os equívocos formais e morais (não poucas vezes moralistas) da própria noção de reconstituição. Os sinais de tal resistência surgem muito cedo e envolvem-nos pela sua ironia. Assim, no final do genérico, é citado o facto de o filme ter usado os arquivos do julgamento de Gilles de Rais traduzidos por Georges Bataille, referido com “infame escritor”. Isto ao mesmo tempo que escutamos na banda sonora uma versão de Try a Little Tenderness, joia do cancioneiro made in USA popularizada pela gravação de Otis Redding, datada de 1966.Digamos que estamos perante um cinema fora de moda, saborosamente fora de moda, ligado a formas ambíguas de artificialismo enraizadas em algumas experimentações das décadas de 1960/70. Numa entrevista a Pierre Audebert (culturopoing.com), o próprio Juan Branco evocou a referência tutelar de Pier Paolo Pasolini. Talvez pudéssemos acrescentar, embora correndo o risco de passar ao lado das intenções do realizador, a crueza formal de Marguerite Duras, sobretudo no despojamento da palavra, tratada não exatamente como matéria de transmissão, mas monumento existencial. . Uma coisa é certa: os dois magníficos protagonistas do filme - Inês Pires Tavares e João Arrais - surgem enredados no desafio de se exporem como atores que representam atores, ou melhor, “locutores” contemporâneos do julgamento de Gilles de Rais, já que tudo acontece através de cenários, guarda-roupa e poses do nosso presente. Aquilo que contemplamos é uma discussão estética, não exatamente sobre a verdade histórica, antes sobre os mecanismos de produção histórica de verdade: O Massacre de Gilles de Rais existe, em última instância, como um ensaio sobre as crenças formadas (ou decompostas) pelo espetador através da experiência singular que é a visão (e a escuta) de um objeto a que damos o nome de “filme”.Luz e corSublinhe-se, por isso, a vibração realista da luz e das cores da prodigiosa direção fotográfica de Edmundo Diaz. Trata-se de um realismo que, em cumplicidade com a encenação de Juan Branco, sustenta e, de alguma maneira, celebra a ambígua aliança de passado e presente, esse renovado milagre que o cinema faz acontecer.Produzido por Paulo Branco (pai do realizador), O Massacre de Gilles de Rais pode ser descoberto, para já, em Lisboa, em sessões especiais agendadas para o Cinema Nimas: hoje (21h30), dia 22 (19h00) e dia 25 (21h30), todas seguidas de conversas com o realizador e os dois atores principais - o filme será será exibido com legendas, nas duas primeiras sessões em francês, na terceira em inglês .'Projeto Hail Mary'. Avé Maria do cinema.A Pequena Amélie'. Amélie à procura da sua identidade