O francês Olivier Assayas (nascido em Paris, em 1955) é um cineasta realmente multifacetado, além de ter sido um crítico de cinema de invulgar agilidade analítica. No começo da sua filmografia encontramos preciosidades como Desordem (1986) ou L’Enfant de l’Hiver (1989). A partir de certa altura, através de títulos como Personal Shopper (2016), protagonizado por Kristen Stewart, foi arriscando em produções de língua inglesa. Agora, volta a surgir neste domínio, com O Mago do Kremlin, coprodução envolvendo França e EUA cuja revelação ocorreu no último Festival de Veneza.Emmanuel Carrère e o próprio Assayas adaptaram o romance homónimo do italiano Giuliano da Empoli, distinguido com o Grande Prémio da Academia Francesa referente a 2022 (editado entre nós pela Gradiva). O pano de fundo é o fim da União Soviética, com a agitada formação da Federação Russa, e a metódica ascensão política de um funcionário até aí relativamente apagado — o seu nome: Vladimir Putin.Há uma ironia implícita no título: o “mago” não é Putin, mas sim o seu consultor e conselheiro Vadim Baranov, especialista em resolver as mais variadas atribulações através de meios raramente transparentes, não necessariamente pacíficos. Através dos corredores do Kremlin (a expressão metafórica deve ser entendida também como objetivamente descritiva), Baranov é mais do que uma figura da retaguarda, sempre disponível para “limpar” a imagem do seu chefe, o novo Czar. Na prática, funciona como um implacável estratega capaz de gerir o poder com a elegância de um gentleman e a eficácia de um predador.Inspirado na figura de Vladislav Surkov, responsável por diversos cargos nas estruturas de poder que Putin foi consolidando, Baranov é composto por Paul Dano com a frieza de um verdadeiro sedutor. A composição de Putin, a cargo de Jude Law, completa o quadro de uma aliança de poder totalitário que se exprime tanto pela brutalidade de alguns dos seus golpes como pelo culto de uma aparência de cândida serenidade apostada, primeiro que tudo, em desarmar simbolicamente os seus rivais.Poderá ser uma tentação “ler” o filme de Assayas como uma reação “panfletária” à agressão russa contra a Ucrânia. Em boa verdade, vale a pena não reduzir O Mago do Kremlin a uma mera diversificação dos clichés narrativos do espaço televisivo — estamos perante um genuíno objeto de cinema que nos ajuda a compreender o carácter letal de um poder que vai rasurando todas as suas fronteiras..Kill Bill. Beatrix Kiddo renasce num único filme.A herança de Camus, ou somos todos estrangeiros