Nascido em Viena, a 29 de maio de 1894, Josef von Sternberg morreu em Los Angeles, a 22 de dezembro de 1969. A sua filmografia persiste como um verdadeiro continente à parte na história do cinema. Mesmo quando pensamos nesse capítulo lendário dos primeiros anos do cinema sonoro que são os sete filmes em que dirigiu Marlene Dietrich — o primeiro, O Anjo Azul (1937), na Alemanha, os restantes em Hollywood, até O Diabo É uma Mulher (1935) —, dir-se-ia que não há “tema” nem “estilo” que possa abarcar as histórias, as singularidades e também os enigmas do seu trabalho. A partir de quinta-feira, com a estreia de A Saga de Anatahan (1953), em cópia restaurada, teremos mais um exemplo, por certo dos mais extremos, desse “mistério-Sternberg” cujo fascínio transcende épocas e estéticas. É verdade: 73 anos depois da data da sua produção, a derradeira realização de Sternberg só agora tem estreia comercial entre nós, para já no Cinema Ideal, em Lisboa. O filme não é desconhecido em Portugal, nomeadamente através da programação da Cinemateca (que, em 1984, dedicou uma retrospectiva a Sternberg). O certo é que, um pouco por toda a parte, tem persistido como uma absoluta raridade, condição que terá começado com o discreto impacto que teve na secção competitiva do Festival de Veneza de 1953. .Este é, por isso, mais um acontecimento em que importa sublinhar a fundamental contribuição que algumas distribuidoras (e exibidores) independentes têm dado para a preservação e enriquecimento de uma genuína memória cinéfila, propósito ausente das leis dominantes do marketing, além do mais lamentavelmente menosprezado pelas opções populistas do espaço televisivo. Trata-se, neste caso, de um lançamento com chancela da Midas Filmes que, desde 2012, com a reposição da cópia restaurada de Vertigo (1958), de Alfred Hitchcock, tem sido uma das entidades a manter uma atenção regular ao património cinematográfico, incluindo no território específico do DVD (que passou a ser ignorado pelas lógicas digitais de difusão). Aliás, o filme de Sternberg é o primeiro de um tríptico de reposições/estreias de verão, que a Midas irá completar com Soy Cuba (1964), de Mikhail Kalatozov, e A Piscina (1969), de Jacques Deray (nos dias 13 e 20 de agosto, respectivamente). Nome: von Sternberg Vale a pena recordar as palavras com que o autor, usando a sua própria voz, apresenta o filme no trailer original: “O meu nome é von Sternberg. Sou realizador de filmes. Há uns dois anos, um pequeno parágrafo no New York Times chamou-me a atenção. Tudo o que dizia é que a nossa Marinha tinha levado de volta para o Japão um grupo de homens que se tinha aguentado durante seis anos depois do fim da guerra. Há muito que desejava fazer um filme no Japão, por isso apanhei um avião, dei meia volta ao mundo e gastei um ano para vos contar esta história incrível de um esquadrão de homens, isolados, numa ilha da selva, no meio no imenso Pacífico, que enfrentou um inimigo para o qual não estava preparado.” .Com esta “viragem” japonesa, poderíamos, talvez, pensar que Sternberg estava a prolongar um certo gosto por cenários mais ou menos exóticos, transversal à produção de Hollywood da época. Aliás, o seu título anterior, Macau (1952), com Robert Mitchum e Jane Russell, uma aventura com contaminações de filme “noir”, não seria estranho a tal conjuntura, como o não era The Shangai Gesture/Aconteceu em Xangai (1941), um claro “desenvolvimento” das ambiências etéreas dos filmes com Marlene, agora “substituída” por Gene Tierney. Tudo isso fará algum sentido (industrial ou, se assim quisermos, psicanalítico), mas talvez seja mais importante sublinhar o facto de A Saga de Anatahan se distinguir como um Sternberg “vintage”, antes do mais através de uma opção que, afinal, atravessa todos as fases da sua obra. Podemos chamar-lhe um realismo que, de forma paradoxal, dispensa qualquer efeito naturalista. Assim, é um facto que a selva de Anatahan nos surge como um espaço exuberante, por vezes ameaçador, de uma vegetação luxuriante — seja como for, trata-se de um cenário totalmente fabricado, ao ar livre, num imenso parque industrial de Kyoto, onde foram “construídas” várias zonas daquilo que seria uma floresta tropical na zona da Nova Guiné. Sternberg tinha o desejo obsessivo de contar esta história, não exatamente de resistência ao tempo, mas de perda de coordenadas da passagem do tempo. Na sequência de um combate nas águas do Pacífico, em meados de 1944 (cerca de um ano antes da rendição do Japão), os soldados japoneses que se refugiam na ilha de Anatahan acabam por viver vários anos, isolados, convictos de que a guerra continua... Daí também o efeito bizarro, estranhamente envolvente, da narrativa em off (tal como no trailer, a cargo do contido dramatismo da voz do realizador): por um lado, segue uma lógica descritiva, atenta aos detalhes, que na época foi escutada de forma preconceituosa e acusada de “monotonia”; ao mesmo tempo, por outro lado, o seu acompanhamento das ações cria a sensação imponderável de estarmos a assistir a formas de vida que acontecem num cenário alternativo, afinal tocado pela nitidez definitiva da morte — essa morte que nenhuma voz consegue dizer. .Nasce, assim, um lugar (cinematográfico, sem dúvida) em que a dimensão humana vive — e, literalmente, sobrevive — num universo fechado que se vai organizando como uma pequena tribo com as suas regras de socialização. Por perversa evolução, esse mundo passa a existir como ilusória utopia, fora de qualquer mundo. A sensação de estarmos algures no Pacífico, embora alheios a qualquer geografia racional, será fundamental para a emergência da personagem de Keiko, única mulher na ilha de Anatahan, interpretada por Akemi Negishi (1934-2008), atriz que viria a participar em alguns títulos de Akira Kurosawa. Marlene, aliás, Keiko Ao longo das décadas, múltiplas leituras de A Saga de Anatahan reconheceram em Keiko os traços, não necessariamente visíveis, da Marlene Dietrich que Sternberg filmou (e, num certo sentido, inventou) nos filmes que fizeram em conjunto — para nos ficarmos por um exemplo modelar, lembremos a sua personagem de Shangai Lily em O Expresso de Xangai (1932). Keiko será o “objeto” inacessível construído pelo imaginário masculino, mas também o centro de um sistema de poder que, no limite, pontua todos os sobressaltos daquela pequena e tão frágil comunidade. .Avisando-nos do que está em jogo, Sternberg identifica mesmo Keiko como a “Abelha Mãe” da ilha de Anatahan e, por fim, a “única mulher na Terra”. Como definir, então, A Saga de Anatahan? Filme de guerra? Parábola sobre o vício auto-destrutivo da humanidade? Melodrama surreal? Provavelmente, um pouco de tudo isso. Mas também, através disso tudo, uma celebração do cinema como a mais subtil das artes na contemplação dos nossos próprios limites — e dos limites da nossa relação com cada um dos nossos semelhantes. Se A Saga de Anatahan acaba por ser um austero conto moral, poderemos resumir a moral da história recorrendo a algumas palavras do narrador Sternberg: “Uma boa parte das nossas vidas é gasta a tentarmos ganhar a estima dos outros, mas para ganharmos auto-estima é habitual gastarmos muito pouco tempo.” Egoísmo ou ecumenismo? Lirismo ou pragmatismo? Para encontrar alguma resposta, o espectador terá que enfrentar os mistérios do cenário e explorar a ilha em que se refugiou.