"O editor português de Tintin enviou a Hergé alimentos durante a ocupação alemã de França"

Noventa e dois anos após ter começado a ser publicado no Petit Vingtième, é hoje apresentado em Portugal o álbum de banda desenhada mais polémico do belga Hergé: Tintin no País dos Sovietes. Aquele onde Tintin ganha a mecha de cabelos ao vento. Outras novidades em banda desenhada: O Corvo de Luís Louro e O Último Espadão, inspirado em E.P. Jacobs

É a terceira edição mundial colorida de Tintin no País dos Sovietes aquela que os leitores portugueses têm a partir de agora direito a ler, pois até ao momento só foi autorizada em dois países (Holanda e Dinamaca) além de França. A primeira edição em livro aconteceu em 1930, em 1981 foi publicada uma edição fac-simile, em 1999 passou a integrar a coleção dos álbuns de Tintin, mas só em 2017 é que teve uma versão a cores.

Em entrevista, o responsável da editora Casterman para a área da banda desenhada, Benoît Mouchart, explica as razões de uma complexa história para um livro tão especial, que faz parte de um sucesso que atingiu 230 milhões de álbuns vendidos, foi traduzido em 77 línguas - o português foi a primeira tradução num país não-francófono -, e que no nosso país já foi impresso dois milhões de vezes.

Benoît Mouchart foi o diretor artístico do Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, que deixou em 2013 para ingressar na Casterman, tendo no seu currículo uma impressionante coleção de títulos sobre esta arte, entre os quais Hergé Íntimo, publicado em 2011.

Entre as revelações sobre Hergé, que tem neste momento uma exposição na Fundação Gulbenkian, em Lisboa - onde será realizada esta tarde a apresentação oficial de Tintin no País dos Sovietes -, está uma bem curiosa a propósito de ser portuguesa a primeira impressão das aventuras do seu principal herói fora do mundo francófono: «Hergé ficou muito feliz com essa situação, tanto que se correspondeu de forma extensa com o editor português. Aliás, este enviou-lhe uma grande quantidade de alimentos não perecíveis durante o período de restrições da ocupação alemã de França".

Esta foi a única aventura de Tintin que Hergé manteve a preto e branco. Porque teimou nessa situação?

O trabalho de colorir as aventuras de Tintim foi empreendido por Hergé a pedido da Casterman em 1942, mas o ocupante alemão limitava severamente o papel e não viu com bons olhos a publicação de álbuns tão inócuos como eram na altura Tintim na América ou A ilha Negra. Portanto, Hergé deixou este livro de lado. Depois da Libertação, durante a Guerra Fria, provavelmente não teria ficado muito feliz com o reaparecimento de um livro tão comprometido como este era. O tempo de Soljenitsyne e de um olhar crítico sobre o totalitarismo soviético ainda não havia chegado...

Tintin no País dos Sovietes foi publicado em formato livro em 1930 e só foi reeditado em 1969. Hergé não se revia nas posições políticas desta aventura?

Hergé não era de todo comunista e ao longo dos anos tornou-se adepto de uma certa neutralidade política. Ele considerou este livro um documento que, principalmente, mostra o seu início como jovem autor. Na verdade, descobrimos aqui uma forma gráfica muito redonda, influenciada pela Art Déco e pelos comics americanos de Geo McManus. É uma forma de desenhar que tem consistência própria dentro do livro, e da qual Hergé só vai desistir realmente durante a elaboração do Lótus Azul. Ele não tinha vergonha do que fizera, mas havia uma preferência clara por outras aventuras de Tintin, a começar pela de Tintin no Tibete.

Este olhar próprio de um tempo passado está muito presente em Tintin no País dos Sovietes. Houve adaptações ao texto na reedição de 1969 ou na de 2017?

O texto dos diálogos não foi retocado sob nenhuma forma, antes é um verdadeiro arquivo de como foi o processo desse livro, ficando liberto de qualquer alteração a não ser o acrescento da cor.

"Praticamente todo o mundo foi colonialista. Isso não era um problema então, o branco tinha sido criado para levar a civilização aos outros. Tintin não era racista, mas era um colonialista como toda a gente naquela época."

A passagem do álbum a cores era um passo natural ou resultou de um interesse editorial?

Esta foi uma ideia proposta pela Moulinsart [responsável pelo legado] e que a Casterman aceitou por ser uma oportunidade de mergulhar esta aventura primitiva num banho de juventude, e uma oportunidade de olhar de forma diferente para as imagens que a compõem. O trabalho do colorista Michel Barreau é excecionalmente delicado, daí que se reveja o desenho de Hergé com um olhar especial!

É neste álbum que o repórter Tintin escreve a sua única reportagem. Por que nunca mais enviou para a redação do Petit Vingtième - ou outro jornal - os seus artigos?

Em banda desenhada muita coisa pode acontecer entre os quadradinhos. É a isso que chamamos a magia da elipse... Se Hergé nunca achou por bem mostrar-nos Tintin novamente a redigir reportagens, é porque a verdadeira aposta da sua arte de contar histórias pretendia traduzir movimento e velocidade. E o que se verifica é, a par desse mistério, permitir também ao leitor usar a sua própria imaginação.

Algumas das aventuras de Tintin têm sido consideradas politicamente pouco corretas, designadamente por terem uma visão colonialista ou de segregação racial. Hergé alguma vez comentou - ou aceitou - estas opiniões?

Deixemos falar Hergé, que respondeu desta forma numa entrevista para a RTBF em 1979: "Depois do álbum Tintin no País dos Sovietes, eu queria fazer Tintin na América, para mostrar as duas potências em confronto. Nesse momento, contudo, o editor do jornal Petit Vingtième quase me implorou ao dizer: "Você não pode fazer isso com a nossa bela colónia do Congo, sobre Leopoldo II, os missionários e a nós que lhes levámos a civilização, etc." Então, eu fiz Tintin no Congo sem muito entusiasmo. Se tivesse de reescrever Tintim no Congo hoje, seria muito diferente. Mas tudo evoluiu e mudou, eu também mudei, e o repórter Tintin ficou um espelho da realidade. Isto porque todo o jornalista é uma espécie de espelho que reflete os acontecimentos que vai olhar. Tintim refletia o que a maioria das pessoas pensava sobre esses dias na Rússia bolchevique. Quanto à ideia colonialista, praticamente todo o mundo foi colonialista. Isso não era um problema então, o branco tinha sido criado para levar a civilização aos outros. Tintin não era racista, mas era um colonialista como toda a gente naquela época."

A personagem muito portuguesa de Oliveira da Figueira foi um prémio para os leitores portugueses?

Não posso responder pelo Hergé, mas este excelente comerciante é uma figura muito simpática, mesmo que consiga fazer o nosso herói comprar muitas bugigangas que não necessita!

Há conhecimento da razão por que Hergé criou Oliveira da Figueira e como a caracterizou daquela forma?

Hergé era um humorista e um caricaturista. A bonomia e a simpatia de Oliveira da Figueira são, sem dúvida, traços que este homem do Norte enviou aos para os das margens do Mediterrâneo.

Hergé tinha um personagem favorito, além de Milou, para contracenar com Tintin?

Parece-me que ele sempre referiu a sua afeição pelo capitão Haddock, que parece ser o verdadeiro herói de Tintim e os Pícaros, mas também do inacabado Tintin e a Alph-Art.

Ao vermos estas páginas encontramos quadradinhos que irão ser repetidos noutras histórias como é o caso de quando está com o escafandro (p.69) na aventura O Tesouro de Rackham, o Terrível. Era uma homenagem consciente de Hergé ao seu primeiro livro com Tintin?

Hergé tinha uma memória visual muito grande e, sem qualificar de forma consciente as suas reminiscências, estas eram imagens muito gráficas que vinham em muito do cinema mudo burlesco. Elas voltaram a ser desenhadas porque seriam atraentes para o autor.

Na exposição Hergé, na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, está exposto o diário de Tchang Tchong-jen. O arquivo de Hergé contém outros "tesouros" como este?

Hergé guardou muitos esboços e desenhos originais, mas também o fez com toda a sua riquíssima correspondência. Muitos documentos importantes ​​já estão disponíveis no Museu Hergé, em Louvain-la-Neuve, e também na bela exposição que os portugueses têm a sorte de poder visitar em Lisboa.

Os grandes heróis de banda desenhada têm tido continuações por outros autores - é o caso de Astérix e de Blake e Mortimer. Com Tintin isso não acontecerá?

Hergé foi bem claro em várias entrevistas sobre não querer que Tintin lhe sobreviva sob a forma de novas histórias. Esta é a posição que o herdeiro tem mantido desde então. No entanto, juridicamente, nada o poderia impedir se assim o decidisse, afinal a responsabilidade do criador sobre a sua obra foi transferida para os seus herdeiros. São eles os detentores dos direitos autorais e não o editor e são quem tem o direito e a decisão de continuar ou não o trabalho de Hergé. No entanto, essa questão não está na ordem do dia.

Alguma vez será terminado o álbum Alph-Art que ficou incompleto?

Hergé não teria gostado. Posso garantir que não foi até agora contactado qualquer autor para realizar esse trabalho.

Hergé

Edições ASA

144 páginas

Tintin na Gulbenkian

A edição a cores de Tintin no País dos Sovietes é hoje apresentada em Lisboa, pelas 18.00, na Fundação Calouste Gulbenkian - onde está a exposição Hergé. A sessão é conduzida por Nuno Galopim e conta com a participação de Guilherme d"Oliveira Martins, Eurico de Barros e Nuno Saraiva.

Outras novidades em banda desenhada

É um dos grandes autores resistentes da banda desenhada portuguesa e está agora com um novo álbum, de um dos seus protagonistas fundamentais, o Corvo. O herói de Luís Louro já é um dos personagens da galeria dos que marcam Lisboa, figura que se movimenta pelos bairros mais tradicionais da capital e faz justiça através de atos pouco habituais. É o quinto álbum, O Corvo - Inimigos Íntimos, desta série e desta vez a narrativa regride ao seu passado, radiografando a personalidade de uma juventude problemática, tão em paralelo com os habitantes na vida de quem se tem vido a intrometer de forma descarada. Sabe-se que ninguém fica impune ao seu julgamento e, desta vez, nem o próprio se mantém distante de um conjunto de memórias de que se precisa de livrar e que a imagem de Freud pendurada na parede da sua casa indicia tormentos.

Há uma culpada neste processo, que desapareceu de um dia para o outro e que o Corvo pretende fazer reaparecer para deslindar traumas. O psiquiatra de Viena ajuda-o enquanto o Corvo persegue o politicamente correto dos tempos em curso e a responsável pelos danos psicológicos da adolescência o faz ver outras realidades. O vigilante não interrompe as suas atividades noturnas, confirmando que o herói que preenche a noite de Lisboa muito pouco tem a ver com o homem que é de dia. Nada que não se verifique em todos os grandes heróis da banda desenhada, principalmente nos comics.

Nota: este álbum não deve ser lido sem ter por perto a reedição recente e especial de Alice na Cidade das Maravilhas, quanto mais não seja para o leitor encontrar um paralelo com outra figura lisboeta.

Luís Louro

Editora Ala dos Livros

64 páginas

A trilogia O Segredo do Espadão criada por Edgar Pierre Jacobs tem agora o seu ponto final na sequela pós-morte, intitulada O Último Espadão, feita por alguns dos continuadores das aventuras de Blake e Mortimer. O Espadão foi, sem dúvida, um dos grandes momentos da obra do autor, que tem vindo a ser recuperada na sequência de se dar seguimento em novos episódios aos álbuns originais. Ninguém dirá que este é um objeto estranho, afinal lá todos os momentos que caracterizavam a ação nas histórias de Blake e Mortimer e meticulosamente inseridos nesta recriação posterior e o leitor aceita-as sem dificuldade. Seja ao nível da paginação própria de Jacobs; no desenho, muitas vezes uma réplica gráfica muito bem sucedida, bem como na elaboração dos diálogos típicos entre os personagens originais, adaptados de forma correta os cenários tradicionais de álbuns anteriores, e mesmo na recuperação de vilões que nunca podem faltar.

Os autores deste novo álbum fazem parte de um trio que tem sido capaz de ressuscitar o espírito que existia no trabalho original de Jacobs, composto pelo argumentista Jean Van Hamme e os desenhadores Teun Berserik e Peter Van Dongen, como se provou em anteriores títulos em que já colaboraram. Não falham na criação da ambiência da época ou na elaboração de uma história que poderia desperdiçar o estilo de Jacobs, e são capazes de convencer o fã da dupla que não estão a ler um "sucedâneo". Mesmo que exista neste álbum um piscar de olhos às questões de orientação sexual tão na agenda atual (p.10) e um convite à prostituição (p.47) que Jacobs nunca teria colocado num seu argumento, a história não deixa de ser convincente.

Hamme, Berserik e Dongen

Edições ASA

64 páginas

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