Na corda bamba do inadmissivelmente sentimentalão e a sobriedade romântica genuína. Nobody Has to Know guina mais para a segunda hipótese, mesmo quando não dispensa majestosos planos de pôr-do-sol numa paisagem de sonho do imaginário escocês outonal, cãezinhos fofos e sotaques britânicos ainda mais fofinhos. Boa surpresa do cinema belga, neste caso em língua inglesa e inteiramente rodado na ilha de Lewis, na Escócia..A ação passa-se na comunidade presbiteriana de Lewis, onde Phil, um belga com um segredo integra-se sem partilhar o gosto pelas cerimónias religiosas. Nessa ilha do norte da Escócia, parece viver uma vida de reclusão e contenta-se em sobreviver através de um salário recorrente do trabalho agrícola numa quinta de uma família da qual faz parte a distinta Millie, uma senhora solteira cuja fama na vila não é das mais populares. A sua alcunha é a Rainha do Gelo e parece ter um fraco por Phil..Num belo domingo, a notícia cai de rompante: Phil tem um AVC e Millie descobre que o belga acaba por escapar com vida deste infortúnio. Porém, a consequência é um estado de amnésia que o faz esquecer de tudo. Ocasião para Millie arriscar e contar-lhe uma mentira: que antes do AVC tinham uma relação. Com relutância, ambos se aproximam e percebem que têm uma atração forte..Phil parece um homem renovado e no rosto de Millie parece também acender-se uma nova luz. Um amor que parece fazer lembrar a máxima "mais vale tarde do que nunca". Um romance que Millie tenta manter escondido de todos nesta pequena comunidade. Mais tarde, vamos perceber quais as razões para este belga tatuado ter querido refugiar-se neste local distante na costa escocesa..Inundado de um clima afetuoso, Um Amor na Escócia mostra-nos uma possibilidade de bonomia sincera na criação de uma história de amor entre adultos maduros sem grandes "frissons". Um bálsamo nos dias que correm, sobretudo por ser portador de uma serenidade tranquila e de acreditar que é possível seduzir uma plateia com uma história de amor construída através de pequenos detalhes, entre um olhar discreto e um desviar de olhos ainda mais discreto. Uma história de amor sem histerismos desnecessários, apenas com personagens que parecem conter um vazio autêntico e em sintonia com uma paisagem captada com um raro sentido de beleza natural. Temos uma relação verdadeiramente de sintonia e osmose entre a força de uma terra bruta e telúrica com a alma de personagens que não precisam de dizer ou fazer muito para as compreender. Para isso, há uma aliança entre a fotografia que incita uma nostalgia de rarefação do imaginário do "remoto" com a música proposta (e é garantido que os temas de Damien Jurado e Spain têm a calma certa para os efeitos dramáticos pretendidos)..No meio dos feitos estéticos, aposta ganha no underacting dos atores, sobretudo da irlandesa Michelle Fairley, presença de uma elegância e delicadeza tão eficaz, atriz que contraste bem com o tipo de representação do próprio Bouli Lanners, autor que à quinta longa tem de começar a ser levado mais a sério..dnot@dn.pt