Chega amanhã às salas escuras o filme italiano O Lugar do Trabalho. A suas singularidades levam-nos a evocar o lugar-comum, afinal bem justificado, segundo o qual “todo o cinema é político”. Mesmo não entrando no labirinto de discussões que tal afirmação pode suscitar, vale a pena recordar que tempos houve em que a expressão “filme político” se impôs como designação adequada, integrada pelo próprio mercado, de múltiplos exemplos da produção de alguns países europeus durante as décadas de 1960/70 — com especial destaque, precisamente, para Itália. Para nos ficarmos por dois títulos sugestivos, ambos de 1971, lembremos A Classe Operária Vai para o Paraíso, de Elio Petri, e Em Nome do Povo Italiano, de Dino Risi. O Lugar do Trabalho é um legítimo herdeiro dessa tradição. Nele se retrata um episódio dramático da vida da ILVA, companhia de aço estatal, fundada em 1905, na cidade de Taranto, no sul de Itália, na região da Apúlia. Assim, em 1995, depois da venda da companhia ao Grupo Rivva, a fábrica de Taranto começou a ser alvo de muitas acusações de má gestão, gerando níveis de poluição que estavam a provocar um índice anormal de casos de cancro na região — tudo isso viria a ser confirmado por um relatório oficial de 2012, tendo a ILVA voltado a ser controlada pelo Estado em 2020. No original, o filme de Michele Riondino (ator em estreia na realização) chama-se Palazzina LAF, o que se poderá traduzir por “Edifício LAF” (acrónimo de “laminador a frio”). Trata-se de um prédio do complexo industrial de Taranto cuja memória infame ficou ligada a uma prática designada por uma expressão inquietante: confinamento no local de trabalho. Em rigor, deveremos dizer aprisionamento, uma vez que, na segunda metade da década de 1990, a ILVA foi marginalizando algumas dezenas dos seus trabalhadores, “confinando-os” nesse prédio, ao mesmo tempo que lhes atribuía tarefas bizarras, algumas irrelevantes para o funcionamento da empresa, outras totalmente absurdas. Dito isto, importa acrescentar que O Lugar do Trabalho está longe de ser um desses produtos na moda em que, através de uma estética maniqueísta de rotineiro telefilme, se evocam determinadas convulsões sociais ou políticas, depois promovidas em entrevistas banais de “talk shows” e afins. Estamos, afinal, perante uma narrativa que não é alheia à herança multifacetada dos realismos que povoam a história do cinema italiano e, em boa verdade, a história de Itália através do cinema — uma saga que vai de Roberto Rossellini a Nanni Moretti, passando por Luchino Visconti, Ermanno Olmi ou os irmãos Taviani. As nossas vidas Retratando uma situação coletiva, a acção de O Lugar do Trabalho apresenta dois polos fundamentais nas personagens do gestor do pessoal da fábrica, Giancarlo Basile, e do operário Caterino Lamanna. O primeiro é uma figura tão fria e impessoal como uma máquina, já que, para garantir determinados índices de rentabilidade, está disposto a anular qualquer elemento que tente resistir à arbitrariedade das suas medidas; o segundo vive marcado por uma ânsia de ascensão (e maior ordenado) que, num misto de ingenuidade e perversão, o torna uma peça facilmente manipulável por Basile. Acumulando as tarefas de realização e coargumentista, Riondino é também o intérprete de Lamanna, num registo de invulgar energia anímica que, subtilmente, vai sugerindo o turbilhão de ideias e sentimentos que o dividem. No papel de Basile, reencontramos o sempre admirável Elio Germano que conhecemos, por exemplo, de títulos de Daniele Luchetti como A Nossa Vida (2010) ou o mais recente Confidência (2024). E escusado será dizer que o trabalho dos atores não é coisa secundária: afinal de contas, numa história atravessada por muitos contrastes ideológicos, eles garantem a irredutibilidade das suas personagens, libertando-as de qualquer cliché vulgarmente panfletário. .IndieLisboa. Uma celebração das independências cinematográficas .Filmes para repensar Portugal