Naaz Shaikh e Sumi Baghel: histórias de Mumbai.
Naaz Shaikh e Sumi Baghel: histórias de Mumbai.

O Canto das Árvores Esquecidas'. A delicada construção de uma intimidade

Premiada na secção Orizzonti do Festival de Veneza, Anuparna Roy é uma cineasta indiana que vale a pena descobrir: a sua primeira longa-metragem, 'O Canto das Árvores Esquecidas', chega às salas.
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Os nomes de Satyajit Ray (1921-1992), Mrinal Sen (1923-2018) ou Guru Dutt (1925-1964) recordam-nos que a multifacetada herança do cinema clássico passa também, de forma decisiva, pela produção da Índia. Ao mesmo tempo, não podemos deixar de reconhecer que a nossa relação com essa produção se tornou, no mínimo, irregular. Algo mudou (para melhor) depois do impacto, no Festival de Cannes, das duas primeiras longas-metragens da realizadora Payal Kapadia: Noite Incerta, distinguida com L’Oeil d’Or (melhor documentário) da edição de 2021, e Tudo o que Imaginamos como Luz, Grande Prémio em 2024. Agora, é a vez de descobrirmos outra cineasta estreante, Anuparna Roy (nascida na cidade de Purulia, Bengala Ocidental, em 1994), através de O Canto das Árvores Esquecidas, prémio de realização na secção Orizzonti de Veneza/2025.

Estamos perante a observação metódica de um universo habitado por duas mulheres (o que, com maior ou menor justificação, nos faz evocar o trio feminino de Tudo o que Imaginamos como Luz). Thooya (Naaz Shaikh) e Shweta (Sumi Baghel) partilham um apartamento de Mumbai - uma situação meramente funcional que vai evoluir para uma delicada intimidade. A primeira é uma imigrante que se prostitui, secretamente, ao mesmo tempo que alimenta o sonho, aparentemente utópico, de construir uma carreira de atriz; Thooya aluga um quarto a Shweta que, por sua vez, cumpre as rotinas, por vezes abusivas, do trabalho de telefonista de um call center - a sua relação, de início circunstancial, irá adquirir subtis elementos confessionais.

O Canto das Árvores Esquecidas possui qualquer coisa de objeto minimalista, até mesmo na sua duração (77 minutos), hoje em dia muito pouco frequente. Se nos sentimos envolvidos pela mise en scène de Anuparna Roy, não é apenas pelos contrastes sociais que se vão tornando explícitos, sobretudo através do comportamento autoritário de algumas personagens masculinas, mas também pelo modo cenográfico (cinematográfico, justamente) como nos vai sendo revelado o espaço afetivo que Thooya e Shweta acabam por construir.

Há mesmo uma cena exemplar dessa evolução, filmada com a sóbria duração de um plano fixo em que as duas jovens se entregam à limpeza da casa. Separadas por uma parede, “inventam” um diálogo telefónico, conscientemente teatralizado, que acaba por se transfigurar num momento de intensa cumplicidade - esta é, afinal, uma história de mútua descoberta.

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