Para que serve um filme? Não no sentido banalmente político e panfletário a que alguma lógica “informativa” passou a obrigar qualquer discurso artístico. Para que serve? Ou ainda: como é que esse filme nos dá a ver (e escutar) algo que talvez não tivesse mobilizado a nossa atenção? Digamos que O Bolo do Presidente é, justamente, um filme que serve para satisfazer um programa de conhecimento e pedagogia. Ou seja: uma história do Iraque centrada numa menina que quer fazer um bolo... para o Presidente Saddam Hussein.Lamia (Baneen Ahmad Nayyef) é essa menina de nove anos que, na sequência de um sorteio na sua escola, recebe a tarefa (em boa verdade, é uma ordem que o professor formula com palavras agressivas) de confecionar um bolo para celebrar o aniversário de Saddam Hussein - trata-se, aliás, de uma mobilização nacional imposta pelo regime. Vivendo com a avó e o seu galo (de nome Hindi), em regime de grande austeridade, Lamia tem de fazer das fraquezas forças, procurando na cidade os ingredientes para fazer o seu bolo...Tudo se passa algures na década de 1990, já depois da invasão do Kuwait pelo exército iraquiano, no período em que a população do Iraque, sobretudo os mais pobres, sofre de modo muito direto os efeitos das sanções decididas pelo Conselho de Segurança da ONU. O que vemos começa por ter qualquer coisa de documental e, nessa medida, genuíno, bem diferente das imagens formatadas com que tendem a ser resumidos os anos finais da ditadura de Saddam Hussein.Nesta perspetiva, há uma poesia paradoxal, muito amarga, na amostragem das condições de vida de Lamia. A sua frágil aldeia (um aglomerado de barracas feitas de canas) situa-se numa região visualmente exuberante, os chamados Pântanos da Mesopotâmia, cujos equilíbrios naturais foram fortemente abalados pelas políticas de Saddam Hussein. Ao mesmo tempo, a odisseia de Lamia, aplicando as estratégias mais engenhosas para adquirir os ovos e a farinha de que necessita, vai-se desenvolvendo como um conto moral do absurdo - como sobreviver num contexto tão marcado por tantas formas de manipulação e corrupção?Lamia é uma heroína comovente, envolvida num dramático ziguezague: por um lado, não pode deixar de ser afetada pela crueza do mundo em que vive; por outro lado, nunca desiste da sua missão escolar. O desencanto e a singeleza da realização de Haan Hadi valeram a O Bolo do Presidente a Câmara de Ouro (melhor primeira obra) do Festival de Cannes de 2025; agora, surge na chamada short list dos candidatos a uma nomeação para o Óscar de melhor filme internacional - quer isto dizer que a sua missão humanista está a ser cumprida. J.L..Scarlett Johansson, realizadora: uma verdadeira revelação .'Mata-te, Amor'. Muitos gritos e pouco cinema