O ciclo Lisboa Música Antiga tem nova edição a partir de 14 de maio. O que se vai poder ouvir nesse dia no Convento dos Cardaes? O concerto de abertura deste ciclo da Lisboa Música Antiga começa com a presença de uma personalidade incontornável da interpretação, um verdadeiro apóstolo da viola da gamba. Estou a falar de Paolo Pandolfo que, em comunhão com Amèlie Chemin, vai apresentar um fascinante programa. Propõem uma viagem pelo repertório para duo de violas da gamba, um dos instrumentos mais fascinantes da música europeia, atravessando três séculos de música europeia, a partir das cortes de Inglaterra, França e Alemanha. Um universo sonoro feito de ressonâncias delicadas, contrastes subtis e extraordinária liberdade expressivaDos seguintes concertos no mesmo espaço, algum que queira destacar como especialmente revelador da magia da música barroca? Cada um dos concertos que vamos propor é por si um espelho da estética e teatro que determina a essência da música barroca. Se de um lado, dia 15 de Maio, o Nova era Vocal Ensemble voltará a propor um programa dedicado à família Bach, que já recebeu grande sucesso no passado mês de Novembro (razão pela qual voltamos a propor o mesmo), no dia 16 o Ensemble 258, que se apresenta pela primeira vez no LMA, propõe um programa centrado na música barroca devocional, cheio de riqueza: íntima, luminosa, teatral e profundamente humana. Com obras de Marc-Antoine Charpentier, Henry du Mont, Henry Purcell, José de Torres, Sebastián Durón e outros compositores menos frequentemente escutados hoje, O programa Mistica Rosa convida-nos a redescobrir repertórios de rara beleza. Outro programa imperdível será o de dia 22 de Maio. Evangelina Mascardi é, na minha modesta opinião, o mais incrível alaudista dos últimos 20 anos. Uma artista absolutamente imperdível. Estará pela primeira vez em Lisboa com um programa a solo dedicado a Sylvius Leopold Weiss e Johann Sebastian Bach. Uma viagem obrigatória ao mundo do alaúde, que passa por dois compositores de referência para este instrumento e a intérprete mais conceituada do momento. Além do Convento dos Cardais, também a Igreja do Loreto acolhe um concerto. E pela Divino Sospiro, a sua orquestra barroca sedeada em Portugal. O que podemos esperar desse Passio Iberico? Ficamos realmente orgulhoso a gratos de poder incluir a colaboração da Igreja do Loreto no núcleo de instituições e locais de espanto que compõem o Lisboa Música Antiga. O programa que vamos propor é nós muito querido; A Paixão de Cristo inspirou algumas das páginas mais intensas da história da música. Neste concerto, essa tradição ganha voz através da expressividade dramática do repertório ibérico, da qual as Siete palabras de Cristo en la Cruz de Francisco Garcia Fajer são expressão genial, assombrosa e de grande intensidade espiritual. O Festival termina no Teatro São Luiz, com um concerto dedicado a Handel, dia 6 de junho. A música barroca passar do espaço sagrado para o profano é um desafio? O Ciclo fecha com uma enormíssima chave de ouro. Em primeiro lugar oficializamos a colaboração entre o Teatro Municipal São Luiz, a Divino Sospiro e o Lisboa Música Antiga. Uma parceria que nos honra de maneira particular, pois é a primeira vez que a nossa orquestra vai atuar na sala Luís Miguel Cintra, uma das salas de estar mais nobres da cidade. a segunda razão é, possivelmente, ainda mais espantosa; Vamos apresentar uma das obras mais originais e surpreendentes de Georg Friederich Händel: L'Allegro, Il Penseroso ed Il Moderato que, imagine, terá no próximo dia 6 de Junho a sua estreia em Portugal! Ainda é possível apresentar obra-primas de compositores universais que nunca foram ouvidas pelo nosso público. Surpreendente, não é? Inspirada na poesia de John Milton (um dos maiores poetas ingleses de sempre), é uma das criações mais originais e poéticas de Georg Friedrich Handel. Com uma escrita de grande riqueza orquestral e uma evocação constante da natureza, é uma obra singular. Um verdadeiro concerto poético. Este concerto terá a participação, além da orquestra Divino Sospiro, do Nova Era Vocal Ensemble e de cinco extraordinários solistas de renome internacional. A passagem do Sacro para o profano, não é um desafio mas sim uma necessidade e uma especularidade. Fazem parte, os dois, daquela máquina de eloquência e magnificência que é o barroco. Que convite faz a quem nunca ouviu um concerto de música barroca? Que argumento tem para atrair novos públicos? O Barroco, especialmente musical, é o Grande Teatro do Mundo que conquista as almas com a força do espanto, da persuasão e da emoção, música cheia de estética e retórica, de uma capacidade narrativa sem paralelo. A música do Barroco tem o poder de entrar em profundidade nos ouvintes, nas pessoas. No século XVII e XVIII, através dessas celebrações que se transformam em espetaculares rituais de massas, a sociedade procurava-se exorcizar o medo do vazio e da morte. Parece-me particularmente significativo, visto os tempos que estamos a viver.