Noites sem lei na Cinemateca

Na programação de julho da Cinemateca, a noite é tema de um ciclo dedicado às suas variações no grande ecrã. Há sessões ao ar livre, uma retrospetiva de Jean-Claude Brisseau e o lançamento do 2º volume de Escritos Sobre Cinema, de João Bénard da Costa.

A noite fez sempre parte dos mais ricos e fascinantes imaginários do cinema. Fosse este a preto e branco ou a cores, mudo ou falado. É também um dos seus motivos clássicos, tão obviamente relevante para o género noir como para certas comédias ou musicais. Ao cair dessa cortina gerada pelo movimento da Terra, esbatem-se as certezas diurnas para dar lugar ao incógnito, ao medo, à poesia, à intimidade, ao sonho ou ao espírito boémio. No grande ecrã, os impulsos noturnos e noctívagos misturam-se segundo as leis (ou ausência delas) da escuridão que domina ora a fantasia, ora a melancolia... Eis o que se pode encontrar no ciclo assim intitulado - A Noite -, a partir de hoje em exibição na sala da Rua Barata Salgueiro, em Lisboa.

Uma das primeiras paragens sugestivas desta flânerie pelas esquinas do cinema noturnal está num dos últimos filmes de Robert Bresson, Quatro Noites de Um Sonhador (1971). Aqui, ao adaptar as Noites Brancas de Fiódor Dostoiévski (mais de uma década depois de Luchino Visconti), o cineasta dos "gestos" sublinhou a força onírica da deambulação de um jovem solitário que, ao longo de quatro noites em Paris, se apaixona por uma rapariga que estava prestes a cometer suicídio. Neste olhar sobre a juventude não estamos longe da beleza, por exemplo, de Filhos da Noite (1948), o filme inaugural de Nicholas Ray - outra das grandes propostas do ciclo - que abre com o inesquecível plano de um beijo, e a legenda: "Este rapaz e esta rapariga nunca foram devidamente apresentados ao mundo em que vivemos."

É também no mundo em que vivemos, mais especificamente entre Detroit e Tânger, que se apresentam os vampiros de Jim Jarmusch, no filme Só os Amantes Sobrevivem (2013), com Tilda Swinton e Tom Hiddleston - tendo talvez como único equivalente nos tons de género garrido os Fantasmas de Marte, de John Carpenter, que surge como uma das sessões programadas ao ar livre, na esplanada da Cinemateca. E por falar nisso, será igualmente aproveitando os ares das noites de verão que se poderá (re)descobrir a obra-prima de Charles Laughton A Sombra do Caçador (1955), com a fabulosa e hostil presença de Robert Mitchum na tela, ainda Nova Iorque Fora de Horas (1985), de Martin Scorsese, ou o comovente As Noites de Cabíria (1957), de Federico Fellini, história dramática de uma prostituta (belíssima Giulietta Masina) passível de se pôr em relação de contraste, neste ciclo, com a outra interpretada por Shirley MacLaine em Irma la Douce (1963), aqui a fazer par com Jack Lemmon numa das mais notáveis e atrevidas comédias de Billy Wilder, que transforma o universo noturno parisiense numa farsa em tudo disposta a ser um desafio à censura - como, de facto, foi.

Num programa que apetece percorrer de fio a pavio, desde Marguerite Duras às palavras de Jeanne Moreau para Mastroianni na arquitetura emocional de A Noite (1961), de Antonioni - "Esta noite quis morrer porque já não te amo" -, atenção ainda à raridade do cineasta "maldito" Jean Grémillon, Daïnah La Métisse (1931), estranho e irresistível objeto visual que encena um hipnótico baile de máscaras a bordo de um navio luxuoso; à sessão de Depois da Meia-Noite (1927), de Monta Bell, antecedida pela curta-metragem Que Noite! (1914), de Chaplin, que contará com acompanhamento ao piano por Filipe Raposo; aos "film noir" clássicos como Foragidos da Noite (1950), de Jules Dassin, e Vidas Noturnas (1940), de Raoul Walsh, e os contemporâneos Colateral (2004), de Michael Mann, e Cabaret Maxime (2018), de Bruno de Almeida, este último com o fôlego genuíno de um noturno lisboeta.

Recordando João Bénard da Costa

Para além do ciclo A Noite, outro dos maiores destaques na programação de julho da Cinemateca é a retrospetiva da obra do místico e mítico francês Jean-Claude Brisseau, o realizador das "coisas secretas" que morreu no passado mês de maio, de quem serão mostrados filmes inéditos no circuito português como Céline ou L"ange noir. Já na sessão especial do mês, a ter lugar no dia 12, na esplanada, exibe-se A Desaparecida (1956), de John Ford, para homenagear João Bénard da Costa. Através deste título essencial da cinefilia do histórico diretor da Cinemateca, o brilhantismo da sua prosa será recordado com o lançamento, na mesma ocasião, do segundo volume de Escritos Sobre Cinema.

O programa pode ser consultado em: http://www.cinemateca.pt/CinematecaSite/media/Documentos/julho_2019__2.pdf

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