"Noite e Nevoeiro": para não esquecer os horrores do nazismo

O célebre filme de Alain Resnais acaba de ser lançado numa edição DVD com chancela da Alambique. Traz como extra o documentário Face aos Fantasmas, de Jean-Louis Comolli, a analisar o próprio Noite e Nevoeiro.

É um olhar fundamental dedicado a uma das páginas mais negras da história mundial: o nazismo. Regressar ao egrégio Noite e Nevoeiro (1956) significa pois tomar a posição do não esquecimento, face a uma atualidade que cada vez mais se alimenta do pavio curto de cada dia, deixando a memória na estante dos livros. Estamos a falar de um filme documental com apenas 32 minutos de duração, que, pela justeza e pudor lírico, revolucionou a abordagem do terror do Holocausto, permitindo abrir a discussão sobre a própria dificuldade de se lidar com as suas imagens. Mais importante ainda, a obra de Alain Resnais assimila essa mesma reflexão: qual a distância certa a tomar em relação às imagens?

Realizado dez anos após a libertação dos campos de concentração nazis, na sequência de um pedido do Comité de História da Segunda Guerra Mundial, Noite e Nevoeiro acabou por ser tudo menos um trabalho de encomenda. Resnais estabeleceu, desde o princípio, que a questão formal no seu cinema (então ainda a dar os primeiros passos) era indispensável para apurar a questão moral em si. Daí que esta curta-metragem, negando as fórmulas convencionais e demarcando-se de tudo o que tinha sido feito até aí, seja uma visão ímpar, tanto em termos de rigor do pensamento de fundo, como na qualidade de objeto documental. Além disso, o tema da memória já estava no ADN da filmografia de Resnais, e seria, por excelência, a sua matéria-prima, concretizando-se posteriormente em títulos como Toute la mémoire du monde (1957), Hiroshima, Meu Amor (1959) e Muriel ou o Tempo de Um Regresso (1963). Do mesmo modo, em nenhum destes a memória é instrumento de uma linguagem cinematográfica convencional; bem pelo contrário.

Em Noite e Nevoeiro, com essa liberdade e firmeza artística, o cineasta francês cruzou planos filmados a cores em Auschwitz, antigo cenário do horror - naquela altura já transformado numa paisagem verde e serena -, com imagens de arquivo, algumas dos deportados. Em voz off é lido, por Michel Bouquet, um texto de comentário escrito pelo poeta Jean Cayrol, ele próprio um ex-prisioneiro de Maathausen que relatara a sua experiência em Poèmes de la nuit et du brouillard (1945). Já a banda sonora do compositor Hanns Eisler surge como um marcante revestimento. E o que resultou desta conjugação de esforços e intelectos traduz-se no "filme impossível" de que nos fala o crítico Jacques Doniol-Valcroze, citado na contracapa do DVD agora lançado, ou como notou François Truffaut - um dos grandes admiradores de Noite e Nevoeiro -, numa experiência da qual se sai "devastado, confuso", pela sua força de meditação.

Este assombro com o filme de Alain Resnais é também aquilo que move o documentário que vem como extra do DVD: Face aos Fantasmas (2009), de Jean-Louis Comolli, é uma análise de Noite e Nevoeiro feita pela historiadora Sylvie Lindeperg, que o estudou durante 20 anos. Aqui é explorada a própria origem e percurso do filme, com os seus intervenientes, bem como a atitude de Resnais face à missão que tinha em mãos (ouvem-se excertos de gravações da sua voz a explicar o processo de trabalho e a revelar os sentimentos que o assaltaram nessa época). Dentro de um registo muito sóbrio, Lindeperg explana sobre todas as qualidades desta obra-prima, nomeadamente o porquê de a sua força histórica estar ligada de um modo muito racional ao seu lirismo. Resnais quis arriscar uma nova escrita, e foi o cineasta que levou o sentido da memória ao seu ponto de vertigem.

Exclusivos