Não é Bolaño nem Auster quem quer
Dizem os editores que cada vez recebem mais livros escritos por Inteligência Artificial (IA). Dizem os leitores que cada vez há mais livros que estão nas listas dos best-sellers e que os desiludem. Dizem os que gostam mesmo de ler que se refugiam em nichos literários para evitar sujar os olhos e a mente com o lixo literário que chega em enxurradas às livrarias. Dizem que o melhor é não perder tempo com as novidades e dedicar-se à leitura dos clássicos, principalmente os russos. Dizem que os Prémio Nobel pouco acrescentam à literatura. Dizem muita coisa e até se diz que o melhor é optar pelos livros de estreia de escritores desconhecidos, evitando deste modo as desilusões.
Ora é este último "dizem" o caso no primeiro livro do espanhol Benjamín G. Rosado (1985), intitulado O Voo do Homem e do qual a promoção da editora Seix Barral faz questão de o inscrever na categoria de “narrador como Paul Auster e Roberto Bolaño” no seguimento de ter sido galardoado de forma unânime pelo júri do seu Prémio Biblioteca Breve, pretexto para uma leitura que a editora portuguesa Quetzal partilha, reproduzindo numa das badanas as muitas frases elogiosas sobre este livro.
O romance conta a história de um jovem filólogo, Diego Marín, que viaja até à cidade chilena de Valparaíso e aí “inspira-se” para a escrita de um primeiro livro, o Ciudad Café. A partir dessa entrada, o leitor é incapaz de não avançar com fúria pelas primeiras cento e poucas páginas do livro e continuar as viagens que o protagonista vai empreendendo. Esse romance dentro do romance transforma-se num grande sucesso e, inevitavelmente, surge o bloqueio do segundo livro. Entretanto, perdido entre múltiplos episódios que continuam a motivar a leitura sôfrega, o leitor depara-se com uma missão tão heróica como abnegada de um protagonista que pretende oferecer uma espécie de lição de moral literária. A par dessa caminhada, vai-se lembrando de vez em quando que já leu qualquer coisa parecida noutro romance
Sugere-se que o leitor não conheça a biografia de Rosado antes de estar bem dentro do romance, ou acha que o seu percurso será demasiado peculiar e estranhará tantas ocupações em tão pouco tempo de vida adulta: “Nasceu em Ávila, estudou Comunicação Audiovisual, Estudos Cinematográficos, foi colaborador de várias revistas espanholas – El Cultural, El Mundo, Esquire, Vanity Fair e Harper’s Bazaar -, crítico de música, gestor cultural, professor de Técnicas de Comunicação, ghostwriter e autor de discursos.
Numa entrevista a uma destas revistas, a Vanity Fair, Rosado explicou que O Voo do Homem resulta de uma situação bastante literária: “Só quando tenho a sensação de ter perdido a noção de tudo é que começo a escrever”. Acrescenta que ter enviado o original para concurso foi “como lançar uma garrafa com uma mensagem no seu interior” e que ganhar o prémio lhe parecia “mais irreal do que as histórias que conta no livro”. Quanto ao impulso para se iniciar no mundo da literatura, a explicação é simples: “Estava na redação e li uma notícia sobre o gene responsável pela linguagem e a hipótese de que a voz primitiva dos seres humanos imitava o canto dos pássaros pareceu-me ter um grande potencial literário.”
Quem era leitor do jornalista Rosado em 2025 não estranharia a propensão para o voo literário, afinal as suas colunas no El País eram desse género. A de 24/9 era sobre o músico norte-americano Jacob Koller que dava recitais no Japão num instrumento que o restaurador Mitsunori Yagawa recuperara entre os destroços da bomba atómica. Semanas mais tarde, a 17/11, o texto tinha um título retirado de uma entrevista a um músico austríaco, Georg Friedrich Haas, que suscitava a leitura: “É preferível ser um pervertido que homicida”.
Essa propensão literária prévia que desembocou em O Voo do Homem é também explicada por Rosado nas respostas que deu em várias entrevistas no seu país, como ao podcast literário Rosa Pasa Página, e em que revela como estruturou o seu romance de estreia: “É um livro com muitos livros dentro dele”. Como é o caso do já referido Ciudad Café: “Este romance existia em parte, escrito nos meus 20 anos mas que nunca terminei. Eram umas 50 páginas e em que em vez de ter um piloto que sobrevoa a floresta colombiana era um camionista que percorria o continente americano.”
Não se querendo revelar mais do que é a trama de O Voo do Homem, pode-se dizer que estamos perante uma espécie de narrativa que imita um road movie e no qual as histórias vivem muito em função da geografia: se o local é Valparaíso, tem um ambiente científico; se é Nova Iorque, a deambulação é citadina; se é em Rhode Island, há um mistério (talvez a história menos bem acabada) e, principalmente, um piscar de olhos ao que já está a assustar o presente da literatura: a Inteligência Artificial capaz de “fazer versões de Anna Karénina, de Tolstoi, ao estilo de Murakami.
Será após ler esta parte do romance de Benjamín G. Rosado que algum leitor se poderá questionar sobre o produto mirabolante que este autor estreante escreveu e que, ao recordar a informação final da sua biografia, a de que foi ghost writer (negro literário em espanhol), também poderá perguntar quem é que realmente escreveu O Voo do Homem? Até porque não se pode aceitar que existam nesta estreia os ecos do romance 2666 de Bolaño ou de A Música do Acaso de Paul Auster, porque não é Bolaño ou Auster quem quer.
O VOO DO HOMEM
Benjamín G. Rosado
Quetzal
343 páginas
Lançamentos
REALISMO HISTÉRICO
Os experimentalismos literários não são de agora nem costumam vir de Espanha como tenta ser o caso do romance comentado aqui acima (O Voo do Homem), à exceção de Dom Quixote, onde Cervantes inova como poucos o que se virá a chamar de metalinguagem, entre outras denominações e inovações que transformaram a obra num livro aclamado por quase todos os escritores posteriores. É também o caso da obra gigantesca de David Foster Wallace, A Piada Infinita, aquela em que escritor norte-americano leva à exaustão (1198 páginas) a sua perturbadora viagem literária, sucessivas vezes reiniciada até à versão final, que a Quetzal reedita após primeira publicação em 2012, quatro anos após o suicídio do escritor.
Um dos que melhor definiram o registo de A Piada Infinita foi o crítico literário James Wood, que o denominou de Realismo histérico por conter uma “prosa elaboradamente absurda”, entre outros parâmetros, em que encaixava vários livros de autores como Wallace, Thomas Pynchon e Don DeLillo. A capa bela e inocente contrasta com a narrativa abundante, complexa, emocional qb, e, principalmente, contrária à apatia perante o caos civilizacional situado num futuro não tão longínquo. As últimas linhas à página 1102 continuam irracionais após o ataque dos “chinocas”, como se pode ler: “E quando voltou a si, estava deitado de costas na praia, na areia gelada, o céu estava baixo, chovia e a maré estava lá ao longe.” Seguem-se 96 páginas de notas informativas e de questionamentos.
A PIADA INFINITA
David Foster Wallace
Quetzal
1198 páginas

