Nina Guseva: "Fiquei na Rússia para captar a nova realidade"

Não compreende os compatriotas que comemoram o Dia da Vitória em plena guerra, mas quer continuar a testemunhar o que se passa, tal como quando filmou as manifestações de O Caso, documentário disponível na plataforma Filmin.

Quando a moscovita Nina Guseva nasceu, em 1988, os seus compatriotas viviam em tempos de transparência (glasnost) e de reestruturação (perestroika). Não pôde sentir a libertação do fim da União Soviética, mas testemunhou, ainda que no "mundo fechado do teatro", o fecho gradual da sociedade russa. Guseva trocou os palcos pela realização e, em O Caso, documenta o processo do jovem Konstantin Kotov - condenado a quatro anos de prisão pelo crime de participar em "vários protestos" pacíficos em defesa de eleições livres -, da incansável advogada Maria Eismont, e da intervenção de Vladimir Putin.

O que a levou a enveredar pelo documentário?
Estava a trabalhar no teatro há uns sete anos e queria fazer algo mais real, acho. Senti que no teatro não tenho a oportunidade de saber o que é a vida real. O teatro é um sistema muito fechado, posso ler peças e interpretar personagens diferentes mas tudo acontece e fica lá dentro. Mesmo quando uma pessoa se prepara para um papel não há tempo nem motivação para ir para a rua ver a vida. Compreendi que muitos dos meus interesses e desejos por explorar não estavam a ser satisfeitos. Foi por isso que dei o passo de fazer documentários e entrei na escola de documentários de Moscovo.

Maria Eismont era uma jornalista que escrevia sobre o sistema judicial, direitos humanos e prisões antes de se tornar advogada. Ela é um modelo para si?
Sim, acho que sim. Ela é fanática em relação ao seu trabalho e tentei segui-la o tempo todo, mas compreendi que não era possível. É tão duro viver com aqueles horários. Ela trabalha sete dias por semana, 24 horas por dia. Quando não está com os clientes está a escrever documentos. Claro, admiro-a imenso. Embora o meu trabalho com ela tenha terminado, continuo a manter contacto. É um exemplo de como se pode viver e permanecer na Rússia atual, de como se pode fazer algo que ajude este país, talvez não agora, mas no futuro.

"Apesar de o mundo inteiro pensar que não há protestos, isso não é verdade. Houve manifestações em Moscovo e maiores ainda em São Petersburgo."

O que nos pode dizer sobre o trabalho de Maria Eismont na atualidade?
Tem muitos casos novos devido aos protestos contra a guerra. Apesar de o mundo inteiro pensar que não há protestos, isso não é verdade. Houve manifestações em Moscovo e maiores ainda em São Petersburgo. Muitas pessoas foram detidas e Maria está a ajudar estas pessoas, além dos clientes que já estavam presos e com os quais se mantém em contacto, porque essa é uma parte muito importante do trabalho, ter esse contacto na prisão, esse apoio é fundamental. E também está a ajudar refugiados.

Como surgiu a oportunidade de fazer este filme?
O meu primeiro documentário era sobre uma atriz. No seguimento achei que precisava de explorar lugares desconhecidos e encontrar um tema obscuro que me motivasse a sair da zona de conforto. Andava a viajar pelo país e a tentar encontrar uma coisa, um tema que desconhecesse de facto. Não tive muito sucesso, não encontrei nada de concreto. Quando regressei comecei a ler sobre o trabalho da Maria Eismont, sobre as prisões russas e os direitos humanos e comecei a segui-la no Facebook. Fiquei interessada nos casos de que ela falava e pensei que podia tratar deste assunto com o qual não estou familiarizada. Comecei a acompanhá-la quando só tinha dois casos, mas passado um mês aconteceram as manifestações de agosto de 2019 em Moscovo e posso dizer que tive muita sorte como realizadora porque surgiram muitos casos novos e, entre estes, o de Konstantin Kotov.

Durante a filmagem teve de contornar obstáculos? Por exemplo, teve autorização para filmar dentro dos tribunais?
Pode fazer-se um pedido para filmar no tribunal, que pode ser recusado, mas também podem dar autorização para filmar no início e no fim da sessão. Era sempre um desafio, nunca sabia o que ia conseguir obter no final do dia. Quando não me deixavam filmar eu pedia o material do próprio tribunal. Nunca pude filmar dentro das esquadras de polícia ou acompanhar a Maria. Houve muitas horas de espera no exterior. Nunca pude filmar dentro da prisão e é por isso que se vê imagens do iPhone da Maria [com Kotov]. Hoje isso não é possível, os advogados não podem entrar com telemóveis na prisão e, como tal, não podem partilhar com o mundo como estão os clientes. Agora não sabemos como é que aparentam estar, por exemplo, se têm ferimentos. Outro obstáculo é que durante os protestos é perigoso filmar. Por vezes a polícia diz-nos que é proibido filmar, mas não é verdade, podemos fazê-lo nas ruas. Temos de saber os nossos direitos e conseguir falar com a polícia, temos de estar prontos para todas as situações.

O documentário foi projetado no seu país?
Estava no programa do Artdocfest, mas o festival foi cancelado por causa de toda a situação... Fizemos umas pequenas apresentações secretas.

"Viajei neste período, estive em festivais internacionais, e senti-me pior quando não estava na Rússia, senti-me ansiosa. Estamos numa situação muito estranha porque encontramo-nos a meio de algo."

Desde o momento em que começou a filmar o documentário agravou-se o autoritarismo. Os russos não podem dizer a palavra guerra, não têm acesso às redes sociais ocidentais nem a meios de comunicação independentes. Hoje conseguiria fazer o filme?
Na realidade, acho que continua a ser possível realizar documentários independentes sobre o que se está a passar. Temos de ter muito mais cuidado e tentarmos não falar em todo o lado. É possível também porque não o fiz com dinheiro estatal. Comecei o filme sem dinheiro algum, era só eu, a câmara e Maria Eismont. Eu tive o apoio [11 650 euros] na pós-produção do IDFA Bertha Fund, de Amesterdão, mas hoje, devido às sanções, já não é possível. Fazer um documentário é muito mais difícil, mas continua a ser possível, e é por isso que me mantive na Rússia, quero captar todas as mudanças e a nova realidade que enfrentamos.

Está a filmar um documentário de momento?
Não tenho um protagonista em específico, mas estou a filmar o que posso. Estive no Dia da Vitória, no dia 9 de maio, e foi surreal porque está a decorrer uma guerra na Ucrânia e estamos a comemorar o Dia da Vitória. Compreendi que não tenho nada em comum com aquelas pessoas e que não as compreendo. Foi um momento muito intenso.

O realizador Kirill Serebrennikov e a cantora Marya Alyokhina dos Pussy Riot saíram do país, só para dar dois exemplos. Existe uma fuga de cérebros? Como é que as elites culturais moscovitas vivem este momento?
É uma pergunta complicada porque muitas pessoas foram embora, muitos amigos. Não sabemos se irão voltar ou se alguma coisa vai mudar. Apenas posso falar por mim: continuo cá e acho que ficarei até ao momento em que me sentir bem. Quero testemunhar todo este momento. Pode soar estranho, mas para mim, como realizadora, é importante observar. Viajei neste período, estive em festivais internacionais, e senti-me pior quando não estava no país, senti-me muito ansiosa. Estamos numa situação muito estranha porque encontramo-nos a meio de algo. É muito difícil pensar de momento no futuro. Antes de mais quero que esta guerra pare e só depois é que conseguirei perguntar "o que vamos fazer com a cultura russa, o que vamos fazer com as relações, com as sanções?". Só quando a guerra parar é que serei capaz de fazer projetos.

cesar.avo@dn.pt

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