Ângela Ferreira junto da obra
 ‘Rádio Voz da Liberdade’ (2022).
Ângela Ferreira junto da obra ‘Rádio Voz da Liberdade’ (2022).Foto: Paulo Spranger

Ângela Ferreira e a sua “missão política” na exposição ‘Here I Stand’ no MAC/CCB

Museu de Arte Contemporânea do Centro Cultural de Belém (MAC/CCB) celebra o terceiro aniversário com inauguração da exposição Here I Stand da artista Ângela Ferreira. Mostra inclui a obra Zip Zap Circus School, uma tenda que será animada pela Escola de Circo do Chapitô.
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Não é uma retrospetiva ou uma exposição antológica do trabalho de Ângela Ferreira, diz Nuria Enguita, diretora do MAC/CCB sobre Here I Stand, mostra de que é curadora. Mas as 25 obras e instalações, criadas entre 1991 e 2026 pela artista que nasceu em Moçambique e estudou na África do Sul antes de se fixar em Portugal, são “obras muito selecionadas para mostrar o seu percurso”, e a maioria não foram expostas no país.

“É a primeira vez em Portugal que eu mostro trabalho que pré-data a minha chegada ao país. Ele existe e vai aparecer no futuro, mas, curiosamente, nunca ninguém me tinha perguntado: ‘O que é que tu fazias lá na África do Sul?”.

Here I Stand começa precisamente com uma dessas obras, pertencente à Coleção de Arte Contemporânea do Estado (CACE) , uma instalação de 1991/1992, Sites and Services, composta por doze fotografias a cores, um desenho a pastel e quatro esculturas de chão. O conjunto de fotografias é a chave para se perceber o resto. Retratam uma área na periferia da Cidade do Cabo, Khayelitsha, na qual foram construídos sanitários em betão, isolados em lotes antes do início da construção das habitações, fruto da política de urbanização da África do Sul no tempo do apartheid, para impedir os negros de vir para as cidades – os townships. “Por um lado era uma ajuda, por outro lado era uma maldade”, diz Ângela Ferreira numa visita antecipada à exposição que abre ao público amanhã no MAC/CCB, e estará patente até 28 de fevereiro de 2027.

As fotos que integram a instalação 'Sites and Services' (1991/1992).
As fotos que integram a instalação 'Sites and Services' (1991/1992).Foto: Paulo Spranger

A par dos blocos de betão, foram construídas boas estradas com iluminação forte, como se usa em recintos desportivos. Não porque quem para lá ia viver tinha carro, mas para facilitar a entrada e circulação das forças policiais. “Roubei quatro tijolos que restavam da obra”, diz a artista. Estão incorporadas numa das quatro esculturas, “minimalistas”.

Ângela Ferreira diz que foi muito influenciada pelo Construtivismo russo, nomeadamente de Naum Gabo (1890-1977). “Uma das minhas grandes referências enquanto jovem na Faculdade de Belas-Artes foi o Construtivismo, por uma razão muito simples: como jovens procurávamos formas de aprender com outros que tivessem desenvolvido práticas artísticas que eram reconhecidas na contemporaneidade de então, mas que eram profundamente políticas. E não era muito comum na altura, no final dos anos 70 e no início dos anos 80”.

A série de quatro obras Realistic Manifesto (2022), título adaptado do manifesto escrito por Gabo e Antoine Pevsner, lido numa exposição do artista em 1920 (e que se ouve em Here I Stand), é ilustrativa dessa influência. Veem-se máquinas, um esquentador, grades de proteção de uma janela (tirada da casa de banho do atelier da artista). “O que eu faço é pegar em objetos usados da minha vivência, de hoje, e trabalhá-los a partir de imagens do Gabo”. Uma das peças é um torno usado na carpintaria que remete diretamente para uma das esculturas de Naum Gabo, que foi um dos pioneiros na utilização de acrílico. “Eu volto muitas vezes a essas minhas origens conceptuais e políticas”, diz a artista.

Ângela Ferreira avisa logo no início da visita que “esta não é uma exposição silenciosa. Há um crepitar de vivência”, diz, com muitas das obras a incorporarem som e imagem.

O título da exposição, Here I Stand, é de um livro de Paul Robeson, artista e ativista afro-americano, publicado em 1958, que defendia que os artistas não podem ser neutros. “The artist must take sides. O artista tem de tomar partido. Não se pode ser artista e não tomar partido”, diz Ângela Ferreira. “É uma coisa que eu comecei a fazer há muitos anos, sem querer, quando me inscrevi na Faculdade de Belas-Artes e aqui estou, na mesma posição. Here I stand”.

Ângela Ferreira não rejeita que a apelidem de artista “ativista”. “Nos anos 80, eu fui ativista. Não fiz mais nada senão pintar murais, trabalhar com grupos de mulheres, trabalhar para sindicatos, a fazer postais, t-shirts, etc. Hoje, a palavra ‘ativismo’ tem outro significado: é usada para descrever o trabalho de artistas cuja prática tem um teor político. Neste sentido, não tenho nada contra o uso da palavra. Tenho uma missão política”.

Essa posição política manifesta-se na sua investigação sobre o legado colonial em África, primeiro no triângulo de países ligados à sua vida e com os quais mantém ligações – Moçambique, África do Sul, Portugal – e depois Argélia ou a República República Democrática do Congo, fruto de trabalhos que lhe encomendaram. “Posso e devo trabalhar sobre algo local”, afirma.

Sobre passado colonial português e a dificuldade de Portugal em lidar com ele, exibe-se a obra Adventures in Mozambique and the Portuguese Tendency to Forget (2015), com base nos registos sobre o povo maconde dos antropólogos de Jorge Dias (fundador do Museu Nacional de Etnologia) e da sua mulher, Margot Schmidt Dias. Uma missão ambígua em que se questiona a relação do casal com o regime salazarista. A obra consiste num vídeo com imagens captadas em Moçambique por Margot, que alternam com filmes "caseiros" que retratam a então Lourenço Marques. Sobre as imagens, as vozes de João G. Rapazote e de Monika Mukerji reproduzem os relatórios do casal sobre o trabalho em Moçambique, e o diário de Margot Dias.

A abordagem colonial está também presente na obra Indépendance Cha Cha (2014), da coleção Fundação EDP, feita para a Bienal de Lubumbashi, na República Popular do Congo, em 2013, que entre outras componentes tem uma escultura que evoca a arquitetura colonial dos anos 1950 naquela cidade do antigo Congo Belga. E também na série La Voix de l'Algérie Libre et Combattante (Rádio Voz da Liberdade, 2022), a rádio que emitia a partir de Argel e era instrumento da luta anticolonial argelina. A rádio também foi usada por portugueses fugidos do salazarismo, como Manuel Alegre (que viveu exilado em Argel durante uma década). Ângela Ferreira, na sua pesquisa nos arquivos – pesquisa que atravessa o seu trabalho – encontrou um registo radiofónico que é reproduzido numa das obras. “Ouve-se muito 'fanhosamente' o Manuel Alegre a falar e o hino de Portugal”, sublinha. Na Torre do Tombo a artista encontrou transcrições feitas pela PIDE de cada transmissão de portugueses nessa rádio, que também estão expostas. “A pérola deste projeto”, considera Ângela Ferreira.

As transcrições da PIDE do que os exilados portugueses transmitiam na Rádio Voz da Liberdade em Argel.
As transcrições da PIDE do que os exilados portugueses transmitiam na Rádio Voz da Liberdade em Argel.Foto: Paulo Spranger

Em Stone Free (Zama Zama), uma obra de 2026, Ângela Ferreira volta à África do Sul e ao tema das minas. "Há pelo menos seis mil minas abandonadas naquele país", sublinha a artista. São grandes buracos na terra que atraem "mineiros artesanais", conhecidos como zama zama, que arriscam a vida para continuar a minerar depois da saída das grandes empresas. É composta por uma torre mineira suspensa e flutuante em madeira, cabos de aço e dois ecrãs com projeções de vídeo e uma canção de Jimi Hendriz (Stone Free). Para o ecrã maior, o músico português Scúru Fitchádu foi desafiado a fazer um "filme musical" a partir da observação das imagens dos zama zama. A colaboração com músicos tem vindo a ganhar espaço na obra de Ângela Ferreira.

Stone Free (Zama Zama), de 2026.
Stone Free (Zama Zama), de 2026.Foto: Paulo Spranger

Outra obra emblemática do trabalho da artista é 1 Million Roses for Angela Davis (2020). Trata-se de uma homenagem à mulher negra norte-americana símbolo da luta antirracista durante a Guerra Fria, que foi usada tanto pelos Estados Unidos como pela RDA na disputa ideológica de então. Uma escultura inspirada numa prensa aponta para os mecanismos de propaganda política, enquanto num vídeo aparecem imagens de Angela Davies na sua passagem pela RDA e o contraponto norte-americano que a consideravam uma ameaça.

No exterior, na praça que dá entrada para MAC/CCB, está exposta a instalação Zip Zap Circus School. A obra nasceu porque faltava uma sede para um projeto educativo para crianças na Cidade do Cabo denominado Zip Zap. O arquiteto moçambicano Pancho Guedes fez um projeto, que não chegou a ser construído e Ângela Ferreira criou, à escala real, uma parte desse desenho, em madeira e lona sobre rodas. Estes desenhos arquitetónicos e outro material gráfico alusivo a esta instalação está também exposto no interior do museu, num espaço anexo ao da exposição.

A arquitetura está presente na obra artística de Ângela Ferreira pela sua dimensão antropológica, sociológica e política. "Quando olho para um edifício. não olho só para um edifício, eu olho para uma série de coisas complexas sobre o edifício, a história, quem o construiu, o que é que acontece lá dentro. O edifício de um tribunal não é a mesma coisa que o edifício de uma escola ou de um hospital. São conteúdos completamente diferentes. E se formos à forma como é desenhado já do ponto de vista do arquiteto, já tem intencionalidades", diz Ângela Ferreira.

Com a inauguração de Here I Stand o MAC/CCB celebra o seu terceiro aniversário e oferece uma programação especial a partir de hoje, 23 de outubro e até domingo, de entrada gratuita. A instalação Zip Zip Zap Circus School será animada pela Escola de Circo do Chapitô.

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