No imaginário lusitano, o Entroncamento está longe de se esgotar numa referência emblemática da circulação dos comboios. Aliada ao facto de na cidade se cruzarem várias linhas ferroviárias, a sua imagem simbólica confunde-se com um labirinto de caminhos em que cada ser humano procura resolver os impasses do seu destino. O filme Entroncamento, de Pedro Cabeleira, não é estranho a tal simbologia. São dele estas palavras de um texto do respetivo dossier de imprensa: “No frio do inverno procurámos a resposta para o que é isto de viver no Entroncamento. E talvez sem nunca a descobrir acabemos em suspenso, com um sabor amargo, tal como a vida daqueles que por lá ficam e daqueles que por lá passaram.”Sem ser um relato autobiográfico, o filme não é estranho às vivências do próprio realizador. Nascido no Entroncamento, em 1992, Pedro Cabeleira recorda que a génese desta sua segunda longa-metragem está ligada a uma redescoberta pessoal da cidade, depois do período de estudos em Lisboa (onde, aliás, realizou Verão Danado, em 2017, a sua primeira longa-metragem). A personagem central, Laura (Ana Vilaça), define-se também como alguém que regressa às origens, procurando no Entroncamento a quietude que lhe permita sarar as feridas de um passado atribulado.Seguindo o ziguezague da protagonista, o filme vai-nos revelando um mundo oculto em que as clivagens sociais alimentam rivalidades de grupos, por vezes gerando formas de violência que Laura não controla. Daí a construção do argumento (assinado por Diogo Figueira e Pedro Cabeleira) como uma sucessão de “quadros” dramáticos cuja neutralidade inicial vai revelando tensões contaminadas por questões de fidelidade ou traição. Nesta perspetiva, pode dizer-se que Entroncamento consegue encontrar uma eficácia narrativa que não é estranha à procura de um realismo dos corpos e dos lugares, transversal a diversas produções portuguesas dos últimos anos.De modo diferente daquilo que acontecia em Verão Danado, não se trata apenas de criar um “ambiente” descarnado, sem verdadeira progressão dramática. As personagens existem para lá dos clichés “sociológicos” que limitam algumas histórias com idênticas componentes temáticas, e tanto mais quanto a direção fotográfica, com assinatura de Leonor Teles, garante a verdade material deste universo sempre assombrado pela possibilidade de brusca decomposição das suas relações internas. J.L..'Memórias do Teatro da Cornucópia'. Quando o cinema é cúmplice do teatro.Para redescobrir Marcel Pagnol