"Não posso meter num filme tudo o que vejo na Reboleira porque ninguém acreditava"  

Do bairro lisboeta para o grande ecrã, O Fim do Mundo, de Basil da Cunha, chega às salas com o coração em chamas e o crioulo na ponta da língua. O DN conversou com o realizador luso-suíço.

Chama-se O Fim do Mundo, mas traz uma réstia de esperança. Vencedor do Prémio de Melhor Longa-metragem Portuguesa no IndieLisboa, depois de ter passado por Locarno, o filme de Basil da Cunha, lusodescendente que vive entre Portugal e a Suíça, não pede licença para entrar no pequeno mundo da Reboleira - o realizador já é da casa. Aqui, a ficção confunde-se muitas vezes com a realidade, porque, para Basil, o caos da vida está acima de tudo. E, no entanto, a câmara que segue os passos de Spira (Michel David Pires Spencer), um jovem de regresso ao bairro após oito anos numa casa de correção, tem a doçura do cinema que procura na rugosidade das pessoas a matéria de uma elegia. O fim deste mundo é o perigo do "fim" da Reboleira. Mas antes do naufrágio, Basil diz-nos que quer filmar tudo e todos, observando as zonas de conflito à sua volta, tal como o protagonista.

A Reboleira tem sido o microcosmos do seu cinema, não apenas desde a longa-metragem anterior, Até Ver a Luz [2013], mas já nas curtas que fez para trás. Porque é que escolheu este bairro como "tema" contínuo da filmografia que tem vindo a construir?
Não escolhi. Foi a Reboleira que me escolheu. Caí lá de paraquedas, há mais ou menos 12 anos. Estava na Suíça, vim para Portugal, tinha de arranjar um sítio para ficar com a minha namorada, e como as rendas eram mais baixas ali, decidimos pela Reboleira. Acontece que, como na Suíça também já filmava as pessoas que me rodeavam, amigos e família, um meio social que queria pôr na tela por sentir que estavam mal representados (imigrantes portugueses, albaneses, turcos, etc.), quando cheguei cá o processo foi o mesmo. À partida, não vinha com a intenção de filmar, mas depois de ser recebido de braços abertos, e percebendo rapidamente o olhar que a sociedade portuguesa tinha sobre essa comunidade, estando eu a conhecê-la melhor a cada dia - porque o bairro é como uma aldeia -, comecei a fazer parte daquilo. E o que via à minha volta era incrível! Só no dia em que cheguei vi mais coisas a acontecer do que em três meses na Suíça! Desde um tipo a entrar com um cavalo num café para pedir uma míni, um anão a carregar um armário com três vezes o tamanho dele... Tenho de ser sincero: mesmo como realizador, não posso meter num filme tudo o que vejo porque ninguém acreditava. É um misto de Kusturica e Fellini. Tem poesia e magia. E eu vejo cinema em cada esquina, em cada rosto; cada pessoa tem mil e uma histórias, que sei ser impossível contá-las todas.

Como é que se criou o vínculo de trabalho a longo prazo com essas pessoas?
Os nossos filmes sempre foram muito artesanais. Éramos quatro ou cinco e inventámos a nossa própria maneira de fazer as coisas, com muita liberdade e improviso. Mas o vínculo criou-se porque, de filme para filme, o leque de atores foi-se alargando, e os que vêm dos primeiros filmes estão a enquadrar os mais jovens. Ou seja, acabo por ter uma trupe ao estilo do Cassavetes, porque eles são cúmplices e também realizadores dentro do filme. Neste momento tenho todas as gerações, e, além de sermos muito unidos, são atores fantásticos! O rumo que uma cena pode tomar durante a rodagem é inacreditável... Veja-se, isto não é um plano de carreira, simplesmente seria absurdo prescindir destas histórias. Acho que ainda vou fazer muitos filmes com eles.

Nas conversas captadas no filme, a certa altura fala-se da ideia de paraíso e dos sonhos de quem ali vive. Este é um tipo de diálogo muito característico dos seus filmes...
Eu acho que a Reboleira é um paraíso. E se formos a ver bem, é um mundo. Conheço poucas pessoas que querem sair dali. Ainda há pouco o Alexandre da Costa [um dos atores de O Fim do Mundo] contava que nasceu lá, a casa dele foi destruída, mora agora no Casal da Mira, e por ele queria morrer na Reboleira... É uma liberdade e um à-vontade que não se tem em mais nenhum sítio. Escreves "Café" numa parede e aquilo é um café, escreves "Barbeiro" e é um salão de barbeiro. Um Sunset ali dá 10 a zero ao Bairro Alto... A forma como o espaço é construído, a entreajuda na comunidade, o facto de todos saberem a história uns dos outros... cada pessoa é aquilo que os outros sabem que ela é.

Numa das suas curtas-metragens, Nuvem Negra [2014], há uma discussão, até bastante filosófica, sobre o fim do mundo. É daí que vem o título deste filme?
Ainda ninguém me tinha perguntado isso! É mesmo daí que nasce o título, e foi o ponto de partida para o filme.

Um filme que parece assentar na lógica do "deixá-los ser". Como se, para lá da narrativa ficcional, a câmara se detivesse simplesmente sobre uma dinâmica espontânea. Até que ponto o improviso entra aqui?
Para já, não há ensaios e ninguém lê o guião. Para poder filmar o caos - porque é isso que as minhas rodagens são -, faço questão de que a vida tenha mais importância do que o cinema. Se alguém está a jogar às cartas numa cena, continuam a jogar depois de eu parar de filmar... No fundo, nós perdemos sempre para a realidade. Mas para filmar o sal da vida também é preciso ser um bocadinho germânico na disciplina. É como o jazz. Parecendo que não, por detrás da improvisação do jazz há um trabalho imenso, basta pensar no Sun Ra.

E neste caso, o crioulo também tem esse "sal da vida".
Exato, o crioulo permite dizer numa só frase três ou quatro coisas. A poesia está na própria língua.

Por comparação com o Até Ver a Luz, este filme tem uma estrutura mais desenhada, quase a conter o simbolismo do que é nascer e morrer na Reboleira...
Precisamente. Eu queria meter tanta coisa e precisava de um fio condutor... Achei que começar com o simbolismo de um batizado e acabar com um funeral era algo que segurava as pontas do filme.

E depois há um certo momento em que filma os rostos dos atores, um a um, a olhar diretamente para câmara, deixando no espectador a sensação de uma despedida em relação àquelas pessoas...
No momento em que filmei os rostos, foi exatamente isso que senti e que pensei. Porque, antes da pandemia, todas as semanas havia casas a desaparecer no bairro. Ia três semanas à Suíça e quando chegava já não dava com a porta onde uma velhota vendia frango... Isso assustou-me. A urgência de filmar veio daí, e o plano dos rostos é talvez o plano mais importante para mim, porque pensei "é a última vez que posso pôr todas estas pessoas lado a lado", e cada cara conta uma história, cada cara é a possibilidade de outro filme isolado. Ou seja, se eu não conseguir fazer mais nenhum filme ali, ao menos há um plano de homenagem. O que tem um duplo sentido, porque, para os espectadores que se envolveram pela ficção, e entretanto se esqueceram de que aquelas são pessoas reais, isto serve também para os relembrar. Como quem diz: "Tu olhaste para eles, eles agora olham para ti." Mas no fim de contas importa lembrar que, afinal, este não vai ser o último filme. A pandemia deu-nos mais um tempo e vamos voltar à carga.

Durante a rodagem, as tais histórias individuais vão-se insinuando?
Sim, e inclusive ficam registadas. Houve muita coisa que filmei e ficou de fora. Por exemplo, as fofoqueiras que se vê a certa altura, filmei imensas cenas geniais com elas! A minha intenção agora é fazer um filme-coral - que até é um tipo de cinema pouco explorado - porque se tornou necessário mediante todo o material que tenho, das várias gerações. Além disso, as mulheres são os verdadeiros heróis deste bairro. Muitas delas vão pôr os filhos à creche às seis da manhã, depois têm dois ou três trabalhos e, ao chegar a casa à noite, ainda vão fazer a comida para os miúdos... Sinto falta de explorar essa dimensão da vida ali.

Para quem cresceu na Suíça, ao ouvi-lo falar, não se nota sotaque nenhum. Qual foi a sua relação com a língua portuguesa desde criança, sendo lusodescendente?
O meu pai é português, de Aveiro, saiu de Portugal na época do Estado Novo, porque era contra o regime, e a minha mãe é suíça. Quando a conheceu, ele ensinou-lhe a falar português... E eu sempre falei português em casa, era a língua doméstica. O francês aprendia na escola. Depois, desde pequeno que venho passar o mês de agosto a Portugal, como qualquer filho de emigrante. Quando vim há 12 anos para a Reboleira estive quase sete sem voltar à Suíça, com exceção das semanas em que lá ia dar aulas...

Aulas de quê?
Cinema. Sou professor na Universidade de Genebra. E ia lá cerca de duas semanas e voltava. Mas não há uma regularidade fixa entre as estadas cá e lá.

Como é que a pandemia mexeu com a realidade que lhe é próxima?
Mais do que o cinema, importa-me sobretudo a desigualdade que se revelou ainda mais na sociedade portuguesa, nomeadamente expondo a fragilidade dos moradores de bairros como o da Reboleira. Reforçou-se também aquela repressão que já existia por parte da polícia - alguma, de facto, racista -, mas isso é o quotidiano... Por outro lado, ver a reação dos moradores na entreajuda, com a entrega de comida aos que tinham menos possibilidades, foi lindo.

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