Realizadora e actriz: Chantal Akerman em Je, Tu, Il, Elle (1974).
Realizadora e actriz: Chantal Akerman em Je, Tu, Il, Elle (1974).

Na intimidade de Chantal Akerman

A obra fascinante da realizadora belga Chantal Akerman volta ao mercado cinematográfico — são dez filmes que, a partir de quinta-feira, poderão ser vistos em sala ou numa plataforma de 'streaming'.
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Eis uma notícia gratificante: os filmes da cineasta belga Chantal Akerman (1950-2015) estão de volta ao circuito das salas — e não só! O evento faz-nos recordar que a difusão cinematográfica passou a existir numa estranha “esquizofrenia” entre diversas crises de frequência das salas, precisamente, e o crescimento exponencial das plataformas de streaming. Ora, porque não cruzar uma coisa e outra, apostando na colocação simultânea de alguns filmes no streaming e nas salas?

Não sendo uma opção inédita, a sua raridade justifica um destaque muito especial. Trata-se de uma proposta da distribuidora Nitrato Filmes, no Cinema Trindade (Porto), em aliança com a plataforma Filmin. A partir de quinta-feira, nada mais nada menos que uma dezena de filmes de Akerman poderão ser (re)descobertos na referida sala e nos nossos ecrãs caseiros.

Curiosamente, Portugal foi um dos primeiros países a acolher a sua obra enquanto símbolo exemplar de um certo cinema de raiz europeia apostado em reinventar a herança das “novas vagas” da década de 1960. Aconteceu no Festival de Cinema da Figueira da Foz, em 1975, quando Akerman tinha realizado apenas duas longas-metragens, em todo o caso suficientes para nela reconhecermos uma autora com um universo singular: Je, Tu, Il, Elle (1974), crónica intimista em que assumia também um dos papéis principais, e Jeanne Dielman (1975), retrato de uma solidão feminina cujas particularidades não excluíam, antes favoreciam, um apelo genuinamente universal.

Para as gerações mais jovens de espetadores, Jeanne Dielman adquiriu uma nova dimensão quando, em 2022, surgiu em primeiro lugar da lista dos “melhores filmes de sempre”, resultante de uma votação internacional da crítica promovida, de dez em dez anos, pela revista britânica Sight and Sound (destronando Vertigo, de Alfred Hitchcock). A sua importância histórica e simbólica é tanto maior quanto o retrato da personagem-título, interpretada por Delphine Seyrig, nos é apresentado através de uma encenação austera que, paradoxalmente, produz um certo efeito “documental”. Não admira, por isso, que alguns dos trabalhos seguintes de Akerman se aproximem das leis do documentário: News from Home (1976), tendo como base as cartas trocadas com a mãe, D’Est (1993), refletindo sobre a Europa depois da Queda do Muro de Berlim, ou ainda No Home Movie (2015), filme final, reabrindo o diálogo com a mãe.

Talvez por isso, encontramos em Hotel Monterey (1972), num cenário novaiorquino com o seu quê de marginal, uma vacilação envolvente entre os artifícios da ficção e tudo aquilo que faz a evidência (muitas vezes equívoca) do documentário. Mesmo quando se aproximou de regras mais típicas da comédia, Akerman arquitetou verdadeiras galerias de personagens cujos contrastes dão origem a deliciosos testemunhos sociais — é o caso de Toute une Nuit (1982), crónica de uma noite vivida em Bruxelas, Golden Eighties (1986), integrando a alegria do musical, e Histoires d’Amérique (1989), tocante celebração do humor de raiz judaica.

Les Rendez-vous d’Anna (1978), com Aurore Clément a compor uma personagem que podemos reconhecer como uma assumida projeção da realizadora, baralha os géneros para percorrer uma Europa em que se sentem as múltiplas heranças da guerra — são filmes que constituem uma preciosa herança temática e estética, agora disponíveis no ecrã que quisermos escolher.

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