Museu Calouste Gulbenkian reabre renovado com entrada gratuita.
Museu Calouste Gulbenkian reabre renovado com entrada gratuita.Foto: Leonardo Negrão

Museu Calouste Gulbenkian reabre e recupera o espírito do projeto original

Após cerca de ano e meio encerrado, o museu volta a receber visitantes a partir de amanhã, num espaço mais próximo da configuração original de 1969. A entrada será livre até 26 de julho, num ano em que se comemoram os 70 anos da criação da Fundação.
Publicado a

O Museu Calouste Gulbenkian abriu ao público no edifício projetado pelos arquitetos Ruy d’Athouguia, Pedro Cid e Alberto Pessoa a 2 de outubro de 1969, no ano em que se comemorava o centenário do nascimento do dono da coleção exposta. Entre outubro de 1999 e julho de 2001, o museu esteve encerrado para obras de beneficiação e “reformulações pontuais” na museografia e, quase três décadas depois, em março do ano passado, voltaria a fechar portas para mais uma renovação. Desta vez, o objetivo foi recuperar o modelo e o espírito do projeto original.

A partir deste sábado, 18 de julho, o museu volta a exibir cerca de mil peças do colecionador de origem arménia, Calouste Sarkis Gulbenkian, num espaço onde a luz natural assume maior protagonismo, complementada por um sistema de iluminação renovado. As galerias voltam a estabelecer uma relação visual entre si, os pavimentos e os revestimentos das paredes recuperam a linguagem dos interiores de 1969 e a ligação entre o percurso expositivo e os jardins concebidos pelos arquitetos paisagistas António Viana Barreto e Gonçalo Ribeiro Telles é restabelecida.

“A ideia de regressar ao projeto original surgiu porque os arquitetos tiveram, na altura, ideias extraordinárias e soluções verdadeiramente notáveis. O objetivo foi voltar a valorizar essas opções. Com o passar do tempo, todos nós — conservadores, diretores — pensamos muitas vezes que temos ideias melhores e vamos alterando as coisas. No entanto, frequentemente, as ideias originais acabam por ser as melhores. Regressar a elas é, creio, um ato de humildade por parte de quem trabalha no museu — arquitetos, conservadores e restantes profissionais. E é isso que faz sentido para este edifício”, diz Xavier F. Salomon, diretor do museu desde janeiro deste ano.

Xavier F. Salomon, diretor do museu, junto da escultura 'Diana', de Jean-Antoine Houdin, de 1780.
Xavier F. Salomon, diretor do museu, junto da escultura 'Diana', de Jean-Antoine Houdin, de 1780. Foto: Leonardo Negrão

Para Saloman, que apresentou ontem aos jornalistas o museu renovado, a arquitetura tem importância. “Quando as pessoas visitam um museu, normalmente pensam apenas nas obras que lá estão. Raramente pensam no edifício em si. Em muitos museus, o edifício é apenas um contentor para as coleções. Noutros, como o nosso, o edifício é também uma obra-prima da arquitetura. A nossa missão é preservar as obras de arte, mas também preservar o edifício enquanto obra-prima arquitetónica. Trata-se de um edifício de 1969, pertencente a um momento muito específico da história. Tal como preservamos um edifício da Antiguidade ou do Renascimento, devemos preservar também um edifício de 1969”.

O projeto de remodelação foi feito pelos arquitetos Frédéric Ladonne e Teresa Nunes da Ponte. “Foi um projeto muito feliz, de fusão entre arquitetura e museografia, e o tempo foi construindo algumas renovações que, ao espírito da época, foram alterando a ideia e o conceito original. E estamos numa altura em que se consegue, outra vez, dar muito valor a este conjunto de edifício e museu. Fazia muito sentido voltar a tentar estabelecer algum refrescamento a estes princípios do conceito original”, diz a arquiteta, que acompanhou Xavier F. Salomon na visita guiada.

Teresa Nunes da Ponte, uma das arquitetas responsáveis pels remodelação do museu.
Teresa Nunes da Ponte, uma das arquitetas responsáveis pels remodelação do museu.Foto: Leonardo Negrão

O projeto recuperou, por exemplo, o revestimento de seda das paredes que tinha sido substituído por tinta e, quando se entra nas galerias dedicadas à Europa, volta-se a sentir a alcatifa debaixo dos pés, num tom um pouco mais claro do que o original. “O meu contributo mais pessoal, que as pessoas poderão adorar ou detestar, é a alcatifa, que foi reposta após 25 anos. Tinha sido retirada no início dos anos 2000 e agora voltou a fazer parte do museu. Pessoalmente, acho que é um enorme enriquecimento para o espaço. Haverá quem discorde, e isso é perfeitamente aceitável”, diz Xavier F. Salomon.

Para Teresa Nunes da Ponte, a alcatifa "vem devolver ao espaço a serenidade e calma deste ambiente muito harmonioso que o museu tem. E há a tal divisão que se pretendia, que foi feita inicialmente, de que na Ásia todo o pavimento é em pedra, e na arte europeia passa-se para alcatifa, para as sedas e para as madeiras, para os materiais mais confortáveis".

O museu recuperou a sua “transparência” graças a paredes de inspiração japonesa que parecem flutuar no espaço, rasgadas por frestas que permitem estabelecer relações visuais entre as galerias e substituem os compartimentos fechados criados na remodelação anterior. Foram igualmente eliminadas barreiras visuais com o exterior, restabelecendo a ligação aos jardins e permitindo a entrada de luz natural, cuidadosamente filtrada para garantir a conservação das obras de arte.

O museu renovou iluminação e abriu-se aos jardins do exterior.
O museu renovou iluminação e abriu-se aos jardins do exterior. Foto: Leonardo Negrão

Quase no final do percurso, na galeria onde está exposta a pintura impressionista, recuperou-se a iluminação de teto que existia em 1969 e fragmentou-se o espaço com novas paredes. As esculturas, que anteriormente se exibiam no centro deste espaço, estão agora junto das pinturas e em diálogo com elas.

A sala Lalique, com a coleção de joias e peças do famoso joalheiro francês, foi também renovada, recuperando as vitrines de vidro curvilíneo e o verde nas paredes, a que se juntaram pinturas de Edward Burne-Jones e John Singer Sargent e uma escultura de Joseph Bernard. “Calouste Gulbenkian tinha estes objetos juntos em casa”, sublinha o diretor do museu.

Há algumas alterações na museografia, começando pelo maior destaque dado ao baixo-relevo assírio, que nesta nova configuração ocupa um lugar mais central, na secção dedicada à Mesopotâmia, quase no início do percurso expositivo, que começa com o Antigo Egito.

A coleção de lâmpadas de mesquita é apresentada agora como na versão original, com a antiga vitrine longa a ser substituída por expositores individuais, num espaço com vista para o exterior. “Para mim, a sala mais emocionante é a das lâmpadas de mesquita, que recuperou o aspeto que tinha em 1969. Acho que ficou absolutamente espetacular. O vidro, em diálogo com os jardins, cria um efeito extraordinário e estou muito, muito satisfeito com o resultado”, diz o diretor do museu, revelando que é um dos seus espaços preferidos.

"Também estou muito satisfeito com as galerias das Antiguidades, que ficaram bastante diferentes. O mesmo acontece com a sala Lalique. Foram totalmente renovadas e penso que todas essas galerias ficaram realmente magníficas", acrescenta.

A alcatifa regressou às galerias europeias.
A alcatifa regressou às galerias europeias.Foto: Leonardo Negrão

A apresentação da coleção de numismática foi também reformulada. Segundo Teresa Nunes da Ponte, a principal alteração arquitetónica ocorreu na área dedicada à Antiguidade, onde existia um compartimento reservado à numismática que a equipa sempre suspeitou ter sido acrescentado já na fase final da construção do museu.

«Em termos de arquitetura, há um espaço que está diferente, que é o espaço da Antiguidade. Existia um compartimento dedicado à numismática que nós sempre intuímos que teria sido uma adição muito no fim do projeto e da obra, até porque havia umas paredes de pedra com uma viga falsa por cima, algo que o projeto original não previa. Quando abrimos esse espaço para o integrar no percurso de visita, verificámos, ao retirar as paredes de madeira, que surgiram as paredes de pedra originais, que davam continuidade ao espaço», explica.

A coleção de moedas passa agora a estar plenamente integrada no percurso expositivo e inclui um maior número de peças em exposição. Entre elas encontra-se a moeda com a representação de uma quadriga que inspirou o logótipo da Fundação Calouste Gulbenkian.

Nesta museografia renovada, foram-se também buscar mais peças às reservas da coleção. É o caso, por exemplo, das estampas japonesas (que estarão em rotação para não comprometer a sua preservação) ou o para-sol veneziano.

Para Xavier F. Salomon, o maior desafio desta renovação de cerca de 16 meses foi mesmo o prazo para ter tudo terminado. "Penso que o meu principal contributo foi manter uma direção global para o projeto, assegurando que toda a equipa trabalhasse em conjunto e mantendo a moral de todos elevada. Foi um ano e meio de trabalho, uma verdadeira maratona para conseguir concluir este projeto a tempo do 70.º aniversário. Diria que o meu maior contributo foi manter tudo em andamento e fazer com que acontecesse."

Para celebrar a reabertura no ano em que a Fundação Calouste Gulbenkian celebra 70 anos, a entrada no museu será gratuita neste fim de semama e o horário alargado. No sábado estará aberto até à meia-noite e no domingo até às oito da noite.

A entrada continuará a ser livre durante a semana e até domingo, 26 de julho, mas já com o horário normal, das dez das manhã às seis da tarde, com encerramento à terça-feira.

Museu Calouste Gulbenkian reabre renovado com entrada gratuita.
António Filipe Pimentel: "O Museu Gulbenkian ganhou uma centralidade que não tinha na instituição. Essa foi a minha luta"
Museu Calouste Gulbenkian reabre renovado com entrada gratuita.
Xavier Salomon é o próximo diretor do Museu Gulbenkian
Diário de Notícias
www.dn.pt