Museu Calouste Gulbenkian reabre e recupera o espírito do projeto original
O Museu Calouste Gulbenkian abriu ao público no edifício projetado pelos arquitetos Ruy d’Athouguia, Pedro Cid e Alberto Pessoa a 2 de outubro de 1969, no ano em que se comemorava o centenário do nascimento do dono da coleção exposta. Entre outubro de 1999 e julho de 2001, o museu esteve encerrado para obras de beneficiação e “reformulações pontuais” na museografia e, quase três décadas depois, em março do ano passado, voltaria a fechar portas para mais uma renovação. Desta vez, o objetivo foi recuperar o modelo e o espírito do projeto original.
A partir deste sábado, 18 de julho, o museu volta a exibir cerca de mil peças do colecionador de origem arménia, Calouste Sarkis Gulbenkian, num espaço onde a luz natural assume maior protagonismo, complementada por um sistema de iluminação renovado. As galerias voltam a estabelecer uma relação visual entre si, os pavimentos e os revestimentos das paredes recuperam a linguagem dos interiores de 1969 e a ligação entre o percurso expositivo e os jardins concebidos pelos arquitetos paisagistas António Viana Barreto e Gonçalo Ribeiro Telles é restabelecida.
“A ideia de regressar ao projeto original surgiu porque os arquitetos tiveram, na altura, ideias extraordinárias e soluções verdadeiramente notáveis. O objetivo foi voltar a valorizar essas opções. Com o passar do tempo, todos nós — conservadores, diretores — pensamos muitas vezes que temos ideias melhores e vamos alterando as coisas. No entanto, frequentemente, as ideias originais acabam por ser as melhores. Regressar a elas é, creio, um ato de humildade por parte de quem trabalha no museu — arquitetos, conservadores e restantes profissionais. E é isso que faz sentido para este edifício”, diz Xavier F. Salomon, diretor do museu desde janeiro deste ano.
Para Saloman, que apresentou ontem aos jornalistas o museu renovado, a arquitetura tem importância. “Quando as pessoas visitam um museu, normalmente pensam apenas nas obras que lá estão. Raramente pensam no edifício em si. Em muitos museus, o edifício é apenas um contentor para as coleções. Noutros, como o nosso, o edifício é também uma obra-prima da arquitetura. A nossa missão é preservar as obras de arte, mas também preservar o edifício enquanto obra-prima arquitetónica. Trata-se de um edifício de 1969, pertencente a um momento muito específico da história. Tal como preservamos um edifício da Antiguidade ou do Renascimento, devemos preservar também um edifício de 1969”.
O projeto de remodelação foi feito pelos arquitetos Frédéric Ladonne e Teresa Nunes da Ponte. “Foi um projeto muito feliz, de fusão entre arquitetura e museografia, e o tempo foi construindo algumas renovações que, ao espírito da época, foram alterando a ideia e o conceito original. E estamos numa altura em que se consegue, outra vez, dar muito valor a este conjunto de edifício e museu. Fazia muito sentido voltar a tentar estabelecer algum refrescamento a estes princípios do conceito original”, diz a arquiteta, que acompanhou Xavier F. Salomon na visita guiada.
O projeto recuperou, por exemplo, o revestimento de seda das paredes que tinha sido substituído por tinta e, quando se entra nas galerias dedicadas à Europa, volta-se a sentir a alcatifa debaixo dos pés, num tom um pouco mais claro do que o original. “O meu contributo mais pessoal, que as pessoas poderão adorar ou detestar, é a alcatifa, que foi reposta após 25 anos. Tinha sido retirada no início dos anos 2000 e agora voltou a fazer parte do museu. Pessoalmente, acho que é um enorme enriquecimento para o espaço. Haverá quem discorde, e isso é perfeitamente aceitável”, diz Xavier F. Salomon.
Para Teresa Nunes da Ponte, a alcatifa "vem devolver ao espaço a serenidade e calma deste ambiente muito harmonioso que o museu tem. E há a tal divisão que se pretendia, que foi feita inicialmente, de que na Ásia todo o pavimento é em pedra, e na arte europeia passa-se para alcatifa, para as sedas e para as madeiras, para os materiais mais confortáveis".
O museu recuperou a sua “transparência” graças a paredes de inspiração japonesa que parecem flutuar no espaço, rasgadas por frestas que permitem estabelecer relações visuais entre as galerias e substituem os compartimentos fechados criados na remodelação anterior. Foram igualmente eliminadas barreiras visuais com o exterior, restabelecendo a ligação aos jardins e permitindo a entrada de luz natural, cuidadosamente filtrada para garantir a conservação das obras de arte.
Quase no final do percurso, na galeria onde está exposta a pintura impressionista, recuperou-se a iluminação de teto que existia em 1969 e fragmentou-se o espaço com novas paredes. As esculturas, que anteriormente se exibiam no centro deste espaço, estão agora junto das pinturas e em diálogo com elas.
A sala Lalique, com a coleção de joias e peças do famoso joalheiro francês, foi também renovada, recuperando as vitrines de vidro curvilíneo e o verde nas paredes, a que se juntaram pinturas de Edward Burne-Jones e John Singer Sargent e uma escultura de Joseph Bernard. “Calouste Gulbenkian tinha estes objetos juntos em casa”, sublinha o diretor do museu.
Há algumas alterações na museografia, começando pelo maior destaque dado ao baixo-relevo assírio, que nesta nova configuração ocupa um lugar mais central, na secção dedicada à Mesopotâmia, quase no início do percurso expositivo, que começa com o Antigo Egito.
A coleção de lâmpadas de mesquita é apresentada agora como na versão original, com a antiga vitrine longa a ser substituída por expositores individuais, num espaço com vista para o exterior. “Para mim, a sala mais emocionante é a das lâmpadas de mesquita, que recuperou o aspeto que tinha em 1969. Acho que ficou absolutamente espetacular. O vidro, em diálogo com os jardins, cria um efeito extraordinário e estou muito, muito satisfeito com o resultado”, diz o diretor do museu, revelando que é um dos seus espaços preferidos.
"Também estou muito satisfeito com as galerias das Antiguidades, que ficaram bastante diferentes. O mesmo acontece com a sala Lalique. Foram totalmente renovadas e penso que todas essas galerias ficaram realmente magníficas", acrescenta.
A apresentação da coleção de numismática foi também reformulada. Segundo Teresa Nunes da Ponte, a principal alteração arquitetónica ocorreu na área dedicada à Antiguidade, onde existia um compartimento reservado à numismática que a equipa sempre suspeitou ter sido acrescentado já na fase final da construção do museu.
«Em termos de arquitetura, há um espaço que está diferente, que é o espaço da Antiguidade. Existia um compartimento dedicado à numismática que nós sempre intuímos que teria sido uma adição muito no fim do projeto e da obra, até porque havia umas paredes de pedra com uma viga falsa por cima, algo que o projeto original não previa. Quando abrimos esse espaço para o integrar no percurso de visita, verificámos, ao retirar as paredes de madeira, que surgiram as paredes de pedra originais, que davam continuidade ao espaço», explica.
A coleção de moedas passa agora a estar plenamente integrada no percurso expositivo e inclui um maior número de peças em exposição. Entre elas encontra-se a moeda com a representação de uma quadriga que inspirou o logótipo da Fundação Calouste Gulbenkian.
Nesta museografia renovada, foram-se também buscar mais peças às reservas da coleção. É o caso, por exemplo, das estampas japonesas (que estarão em rotação para não comprometer a sua preservação) ou o para-sol veneziano.
Para Xavier F. Salomon, o maior desafio desta renovação de cerca de 16 meses foi mesmo o prazo para ter tudo terminado. "Penso que o meu principal contributo foi manter uma direção global para o projeto, assegurando que toda a equipa trabalhasse em conjunto e mantendo a moral de todos elevada. Foi um ano e meio de trabalho, uma verdadeira maratona para conseguir concluir este projeto a tempo do 70.º aniversário. Diria que o meu maior contributo foi manter tudo em andamento e fazer com que acontecesse."
Para celebrar a reabertura no ano em que a Fundação Calouste Gulbenkian celebra 70 anos, a entrada no museu será gratuita neste fim de semama e o horário alargado. No sábado estará aberto até à meia-noite e no domingo até às oito da noite.
A entrada continuará a ser livre durante a semana e até domingo, 26 de julho, mas já com o horário normal, das dez das manhã às seis da tarde, com encerramento à terça-feira.
