António Filipe Pimentel vai reformar-se, mas continuará como consultor do Museu Calouste Gulbenkian. Já não estará na direção do Museu quando abrir ao público, no dia 18 de abril, na galeria do edifício sede, a última exposição da sua responsabilidade, Arte e Moda na Coleção Gulbenkian. Com curadoria do espanhol Eloy Martínez de la Pera, reunirá 100 obras de arte da coleção do Museu e cerca de 140 peças de vestuário de grandes criadores de moda, nacionais e internacionais, como Dior, Balenciaga, Yves Saint-Laurent, Versace, Jean-Paul Gaultier, Vivienne Westwood, Alexander McQueen, dupla Alves/Gonçalves, José António Tenente, Maria Gambina, Nuno Gama ou Nuno Baltazar.Que balanço que faz destes cinco anos na direção do Museu Calouste Gulbenkian?Não foram anos fáceis, mas é um balanço positivo. Eu tenho pensado nisso, porque sou muito institucionalista. E acho que quando a pessoa chega a uma instituição, deve ter sempre a humildade de pensar que é a última pessoa a chegar a uma instituição que foi feita por outros. Sempre disse isso, aliás, tanto no Museu Nacional de Arte Antiga como aqui. Disse isso na primeira reunião que tive com a equipa. Portanto, a pessoa chega e recebe uma herança. E essa herança deve ser transmitida, preservada e acrescentada, se possível. E eu penso que consegui preservar e transmitir acrescentada.E porque é que diz que às vezes não foi fácil?Porque foram anos complicados. Acompanhámos a covid, depois tínhamos também o processo de junção dos dois museus que tiveram de ser separados e reconstituídos. Houve que reconstituir a equipa, etc. Foram anos complicados, mas agora começa a perceber-se que o resultado é bom.A sua antecessora, Penelope Curtis, era diretora do Museu e do Centro de Arte Moderna, e depois houve essa separação. Considera então que foi uma boa decisão?Foi uma boa decisão. Tinha sido uma decisão do anterior Conselho de Administração que a reverteu. E penso que bem, são dois museus que são complementares e que podem trabalhar em conjunto, mas, na verdade, dificilmente se juntam, porque é uma coleção internacional, que é a coleção de arte antiga, e uma coleção essencialmente portuguesa, que é a coleção de arte moderna. Portanto, não é fácil juntar os dois. É um projeto que não funcionou muito bem e que foi bom terem separado. Mas houve que separar equipas que tinham começado a trabalhar juntas e, portanto, houve que reconstituir os dois museus com uma equipa que foi dividida ao meio. Ou seja, ficámos com um deficit de recursos humanos que temos estado a colmatar, a pouco a pouco.Já está a passar a pasta ao novo diretor que o vai substituir, Xavier Saloman. O que é que ele poderá trazer ao Museu?Ele vai trazer uma série de coisas. Para já, chega num ponto de viragem, o que é ótimo. Depois está cá já a trabalhar, o que é excelente também, o trabalho fica bem entregue. E depois ele vai trazer, para além do seu know-how, porque é um homem muito conhecedor e com uma notável carreira, as suas próprias redes internacionais. Aliás, a instituição tem esse caminho determinado da internacionalização, que é muito importante, até ao nível da equipa. Com Jessica Hallett, Maxence Garde e agora o Xavier Salomon temos três elementos de origem internacional na equipa, o que é ótimo. Sendo o museu uma coleção internacional de referência, é natural que os conservadores também venham de outro lado, e não simplesmente de Portugal, embora também tenhamos muito bons conservadores portugueses. Portanto, ele vai trazer a sua energia, a sua força criativa, a sua experiência. .Xavier Salomon vai abrir muitas portas, graças às suas conexões internacionais.António Filipe Pimentel. Quando fala em internacionalização do museu do que fala em concreto?Estamos a falar da construção de redes internacionais para parcerias de todo o tipo, de investigação desde logo, e para parcerias de exposição também, ou seja, trazer obras de fora com outra facilidade e não simplesmente como tem sido até aqui. Nós fomos muito emprestadores e pouco recetores, e temos de ser mais o contrário, mas isso passa pela atividade do museu. Xavier Salomon vai abrir muitas portas, graças às suas conexões internacionais, tem muito mais do que eu tenho, eu tenho bastantes, mas ele tem muito mais com certeza. Ele fez a carreira toda lá fora, em Londres, Itália, Roma e Nova Iorque, domina o mundo com muito maior facilidade.Está prevista alguma nova exposição até à reabertura do Museu?Está prevista uma grande exposição, estamos a prepará-la, vai abrir ao público no dia 18 de abril, sobre Gulbenkian e a moda, com curadoria de Eloy Martínez de la Pera, e estou convencido que vai ser um blockbuster. Pela primeira vez faz-se uma exposição sobre moda e arte em Portugal. E tira partido de a coleção Gulbenkian estar desmontada para poder usar grandes peças na exposição. Vamos ter mais de 100 peças de vestuário dos grandes criadores do mundo, de coleções internacionais, quase todos, e também do MUDE, e um ou outro do Museu do Traje, mas o MUDE é um grande parceiro. E vamos ter as nossas obras em ligação com elas.Será a última exposição da sua iniciativa?Exatamente, é um projeto meu, um grande projeto que dura há cinco anos. Vamos ter peças excecionais. Entretanto, a exposição tem-se andado a arrastar, e agora chegou o momento de ser feita. Chama-se Arte e Moda na Coleção Gulbenkian. O senhor Gulbenkian era uma pessoa muito atenta à moda. Todos os grandes criadores terão peças aqui, Dior, Balenciaga, Yves Saint-Laurent, Versace, Jean-Paul Gaultier, Vivienne Westwood ou Alexander McQueen.. Peças que são de coleções privadas e de museu. O catálogo vai ser uma obra-prima também, vai ter fotografias excecionas. O catálogo vai estar pronto a tempo da exposição e vai ser distribuído nos grandes museus do mundo, em português e em inglês. Portanto, destina-se ao mercado internacional também.E como surgiu a ideia de fazer uma exposição em torno da moda?Em primeiro lugar, é importante que o museu crie pontos para a criação contemporânea embora mantendo-se como é. E veio daí a ideia de trazer a moda para o museu. Depois, eu tinha visto exposições maravilhosas que Eloy Martínez de la Pera fez sobre a moda, conheci-o e convidei-o para fazer este projeto, porque achei que fazia todo o sentido que o museu tivesse essa aproximação à criação contemporânea. Aliás, haverá uma outra exposição quando o Museu reabrir, da Teresa Pavão, artista contemporânea. Chama-se Gabinete de Curiosidades e terá peças dela no Museu, peças de cerâmica, numa articulação entre o contemporâneo e o antigo. Para que se perceba que a arte antiga é a fonte da criação contemporânea. Não existe cesura entre uma coisa e a outra. O museu voltará a trabalhar só com as coisas da sua área epistemológica normal, mas entretanto são duas exposições que balizam a própria reabertura do Museu. .Estamos a preparar uma grande exposição sobre Gulbenkian e a moda, com curadoria de Eloy Martínez de la Pera, e estou convencido que vai ser um blockbuster.António Filipe de Pimentel. Quando saiu do Museu Nacional da Arte Antiga (MNAA) escreveu um livro de balanço. Vai fazer o mesmo aqui?Não, não o vou fazer, não vale a pena, porque aqui a coisa foi pacífica. Lá não foi e, portanto, importava que ficasse esse testemunho histórico do que aconteceu para a história do museu, aqui não, não vou fazer nada.Vai acabar o livro que tem a meio?Vou acabar, um livro interrompido há 15 anos. É uma biografia da Bárbara de Bragança, Rainha de Espanha. Eu estava a fazê-lo quando fui para o Museu Grão Vasco. Entretanto, ia repegar no livro quando fui convidado para o Museu Nacional de Arte Antiga, e não deu mais. Agora é um dos projetos que eu tenho.Foi diretor do Museu Grão Vasco, em Viseu, diretor do MNAA e por último do Museu Calouste Gulbenkian. Gostou de ser diretor de museus?Gostei muito. É um trabalho muito interessante, porque é um trabalho que junta o lado académico ao lado prático, que é um lado que eu gosto. A vida tem que ter o lado prático e o lado teórico. Gosto do lado contemplativo, mas gosto do lado ativo. E os museus têm uma capacidade de realizar e de contacto com a obra de arte que é diferente da universidade. A universidade é um polo de conhecimento fundamental, mas os museus são o ponto de democratização desse conhecimento, são o ponto de passagem. Esse é um lado que me seduz e que eu gostei muito de cumprir. .Quando saiu do MNAA foi criada pouco depois a Museu e Monumentos de Portugal (MMP). É um bom modelo de gestão dos museus?Agora estou distante dessa realidade, mas parece-me que o modelo ainda está para provar. Penso que o modelo é bom, agora do ponto de vista prático parece-me que os museus ainda se sentem muito distanciados da tutela central, daquilo que vou ouvindo.Quando dirigiu o MNAA reivindicava mais autonomia. Com este novo modelo como ficou?Perdeu a autonomia que tinha. Já não tem diretor adjunto, está completamente normalizado com os outros museus. E isso é uma pena, porque é um museu que cumpre em Portugal a função de ser o museu-bandeira que todos os países têm. Nós não temos e isso é uma chatice.Que futuro antecipa para o Museu Nacional de Arte Antiga?Espero que o futuro seja risonho, espero que não seja temível, espero que não venham a funcionalizar os museus todos como está o Museu do Tesouro Real, por exemplo, que é uma espécie de caixa registadora sem programação onde os turistas passam e deixam dinheiro. Espero que não seja esse o modelo que se pretende para os museus públicos. Porque os museus públicos cumprem o papel de serem a âncora da identidade coletiva. A identidade não é predefinida, mas os museus, de facto, tendem a consagrar aquilo que de melhor foi feito pelas gerações passadas. .Espero que não venham a funcionalizar os museus todos como está o Museu do Tesouro Real, por exemplo, que é uma espécie de caixa registadora sem programação onde os turistas passam e deixam dinheiro.António Filipe Pimentel.Qual seria o modelo ideal de gestão dos museus nacionais?Há museus e museus. O Museu Nacional de Arte Antiga tem uma escala que é ímpar em Portugal. Tem uma escala grande. Essa escala dá-lhe a possibilidade de ter autonomia. Se tiver um corpo de funcionários capaz, porque agora já não tem, o problema é esse. Na minha altura ainda tinha, ainda era capaz de ser autónomo. Porque a autonomia traz uma sobrecarga burocrática terrível que as pessoas não imaginam. Os museus pequenos precisam de uma estrutura que os apoie, e que será, então, a Museu e Monumentos, penso que é um bom modelo, porque é um modelo de empresa pública, tem outra agilidade para contratar pessoas, etc. Aparentemente, parece ser um bom modelo. E o Museu Nacional de Arte Antiga deve ter autonomia, como tem a Biblioteca Nacional, a Torre do Tombo, ou a Orquestra Sinfónica nacional.O MNAA deveria estar fora da MMP?Deveria estar fora da Museu e Monumentos de Portugal, creio eu, se posso opinar sobre uma estrutura da qual já não tenho nada a ver.Como avalia o trabalho da Ministra da Cultura deste Governo?Não tenho opinião sobre a senhora ministra, é uma pessoa tão discreta que, na verdade, não tenho opinião. Têm sido feitas algumas coisas interessantes, até ao nível, por exemplo, da Coleção de Arte Contemporânea do Estado. Esta coisa de ir para a Fundação Ellipse é importante. Foram feitas algumas aquisições importantes também. Por exemplo, a compra do modelo da estátua equestre de D. José I para o Museu Machado de Castro de Coimbra. Os museus regionais também parece que estão fora do radar, não se compram peças nenhumas para aqueles museus. Portanto, fiquei muito contente com isso. De resto, não sei. Faço parte até de um Conselho de Curadores da Museus e Monumentos de Portugal que nunca tomou posse nem nunca reuniu. Fui nomeado pelo doutor Pedro Adão e Silva, veja só, já vamos em três ministros e não tomou posse e não fizemos nada. Portanto, a minha relação com a Museus e Monumentos é distante do quadro político atual. .Faço parte de um Conselho de Curadores da Museus e Monumentos que nunca tomou posse nem nunca reuniu. Fui nomeado pelo doutor Pedro Adão e Silva, já vamos em três ministros e não tomou posse e não fizemos nada.António Filipe Pimentel.Quando esteve no MNAA, houve a aquisição de um quadro do Domingos Sequeira, Adoração dos Magos, através de crowdfunding em 2015. Foi uma coisa que nunca se tinha feito...E nunca se voltou a fazer. Foi uma energia criativa que podia para o futuro ser continuada.O que o levou a escolher essa via?A ideia andou durante quatro anos na minha secretária, porque quando cheguei ao museu, tinha como herança do meu antecessor a compra daquele quadro, porque havia a possibilidade de o comprar. O problema é que nós entretanto entrámos rapidamente na derrapagem financeira, no quadro do constrangimento da troika. A partir daí levei quatro anos a pensar no que fazia, tentando manter em lume brando o proprietário do quadro, dizendo-lhe que havíamos de o comprar, e comecei a pensar que fazer uma operação daquelas era a melhor solução. E o Domingos Sequeira tinha três virtudes: por um lado, era um pintor suficientemente conhecido para que o nome não caísse em saco roto, ou seja, as pessoas pelo menos o nome conheciam, e depois o quadro tinha um valor que era um valor aceitável. Era um valor suficientemente alto para se perceber porque é que o Estado não o comprava, mas, simultaneamente, era um valor atingível. Depois, tratou-se de conseguir o ponto certo. E o ponto certo foi quando o museu estava suficientemente conhecido, quando nós tínhamos a opinião pública completamente centrada no museu. E foi o sucesso que foi. Fizemos a ComingOut antes [exposição de 31 réplicas de grandes obras da coleção do MNAA que foram expostas em várias ruas do Chiado, Bairro Alto e Príncipe Real] de outubro a janeiro, e depois, em novembro, avançámos para a campanha do Sequeira em plena ComingOut. E foi o sucesso que foi. E a adesão surpreendeu-o? A adesão surpreendeu-me, mas a campanha foi muito bem urdida, aquela ideia de confrontar as pessoas com o facto de que com um cêntimo podem patrocinar um pixel, porque um cêntimo é impossível de depositar, e as pessoas depositavam um euro, logo, um euro era mais do que um pixel. E, depois, ninguém pode dizer que não pode contribuir, ou que é muito dinheiro, porque quem é que não tem um cêntimo para dar para uma obra que é para o Museu Nacional? E as pessoas galvanizaram-se por causa disso. E foi muito divertida a campanha. Entretanto, desde então, não só as pessoas ficaram a conhecer a obra do Domingos Sequeira, como ficaram a conhecer aquela pintura. O Museu cumpriu a sua missão, que é dar a conhecer as obras de arte e preservar o património português.E permitiu a aquisição do quadro do Domingos Sequeira e de outras obras...A campanha fez exatamente o que era a missão central do Museu, além de ter conseguido, graças ao remanescente, comprar o Retrato de D. João V e a Batalha do Cabo Matapão, e ainda dar o último impulso à compra do Álvaro Pires de Évora. Porque não ganhámos só 600 mil euros, mas arrecadámos 749 mil euros, com o impulso generoso das pessoas. No final toda a gente quis cortar a meta e foi ótimo. .Tenho um livro escrito, que se chama A Invenção do Lugar Certo, sobre a compra do Sequeira pelo Museu Nacional de Arte Antiga. Não vou publicar tão cedo, porque é uma história que tem o seu lado luminoso, mas também tem o seu lado sombrio.António Filipe Pimentel. Olhando para trás, o que o marcou mais ao longo da sua carreira?Talvez tenha sido em Coimbra, a parte da candidatura da Universidade a Património Mundial. Eu fui o coordenador científico do dossiê e penso que isso é uma obra marcante. Entretanto, no Museu Nacional de Arte Antiga, a compra do Domingos Sequeira, com tudo o que significou, porque foi o ponto de chegada de um processo que foi meticulosamente feito. Eu tenho aliás um livro escrito - não será publicado tão cedo -, que se chama A Invenção do Lugar Certo, que é exatamente a história da compra do Sequeira pelo Museu Nacional de Arte Antiga. Não vou publicar tão cedo, porque é uma história que tem o seu lado luminoso, mas também tem o seu lado sombrio. Escrevi-o durante a covid, exatamente para ficar com memória fresca do processo, porque senão acabava por se perder. Aliás, havia muitos detalhes de que eu já não lembrava, mas ficou escrito. Tem até dois finais, mas nenhum dos finais é muito alegre, portanto está suspenso.Mas pretende publicá-lo?Talvez um dia, não sei, talvez publique, mas não para já. Quanto a este museu, o facto de o Museu ser hoje central na vida da instituição, acho que é verdadeiramente o saldo da minha passagem aqui. O Museu tem uma centralidade que não tinha, e que está espelhada no facto de o estarmos a renovar fisicamente. Na verdade é isso, essa foi a minha luta aqui, e acho que o Museu ganhou essa centralidade. Aliás, o facto de o Xavier Salomon vir para cá é a prova disso mesmo.Porque estava mais na sombra do Centro de Arte Moderna?Estava na sombra do Centro de Arte Moderna e na sombra da própria instituição, o museu era o ornamento. A instituição criou-se a partir do museu, o Museu é a pedra angular da Fundação, que é uma coisa diferente, e a Fundação hoje já percebe isso. E a própria equipa também está mais integrada no Museu. Nós trabalhamos com a Fundação e precisamos da Fundação e a Fundação precisa de nós. Esse é o saldo positivo da minha passagem.“O Museu vai ser muito mais didático e pedagógico do que era” O Museu está fechado para obras, reabrirá em julho de 2026, como estava previsto?Ainda não sabemos, está em aberto. Provavelmente poderá haver algum atraso, mas logo se vê o que acontece. Para todos os efeitos, se não abrir antes do verão, abre logo a seguir ao verão. Estamos já a terminar as coisas, mas como há fornecimentos exteriores, pode haver algum atraso. Não estamos a assumir responsabilidade ainda em programar data nenhum. Mas já estamos na fase final. As obras são para melhoria da segurança, da climatização, etc., mas também há uma revisão da museografia. Quando o Museu reabrir, o que é que as pessoas vão ver de diferente?As pessoas vão ver um museu renovado, todas as estruturas vão ser renovadas, estavam um bocado délabrées [degradadas]. Vão encontrar o mesmo museu que tinham, mas refrescado, porque desde logo vai haver uma iluminação nova, que vai permitir uma contemplação das obras de arte completamente distinta, vamos adotar o LED como sistema de iluminação, estamos a trabalhar com um luminotécnico francês excelente. Ao nível da museografia, há uma nova sala dedicada à numismática, e há também a apresentação do relevo assírio numa outra posição, porque é uma peça maravilhosa e estava posto num ângulo de saída, não dava para ter ali públicos, fazer uma visita guiada, etc., porque constrangia a passagem para a sala de arte islâmica, e nem sequer era possível ter como highlight do museu. E agora vai ficar centralizado. E depois a sala Lalique, no final, também vai ser toda renovada. De resto, o que acontece é um voltar mais à origem do museu, embora atualizado, uma versão mais próxima da origem do museu, sem coisas espúrias que foram sendo acrescentadas. Havia uma série de elementos que sobreviviam das sucessivas intervenções e que agora vão ser normalizados. O museu vai ser mais bonito, embora continuando a manter as mesmas peças. . Os núcleos mantêm-se? A distribuição dos núcleos mantém-se, todo o percurso é igual. Isso era importante, porque os museus têm esse lado de eterno retorno e as pessoas gostam de voltar a encontrar as obras onde as encontraram.Um dos objetivos é também dar mais informação sobre o colecionador? Porquê essa orientação?Esse é um lado importante. Durante muitos anos, a personalidade de Calouste Gulbenkian acabou por estar muito na sombra da instituição e, na verdade, é uma personalidade extremamente rica e importa que as pessoas percebam porque é que a coleção existe, e a história da coleção. E nós temos um trabalho muito grande do ponto de vista da investigação científica, nomeadamente investigação sobre a figura de Calouste Gulbenkian, que está a dar muitos frutos. E, portanto, vamos refrescar a parte da comunicação do museu. Vai haver textos de parede, tabelas comentadas, etc., e também uma ligação à Bloomberg Connects, a aplicação da Bloomberg que permite que a pessoa abra no telemóvel tudo o que diz respeito ao museu. E a Bloomberg Connects é uma aplicação onde estão todos os grandes museus do mundo, é ótimo nós estarmos lá. Aliás, já estamos lá. Agora é simplesmente a questão de introduzir mais conteúdos. O museu vai ser muito mais didático e pedagógico do que era. E aqui a presença de Calouste Gulbenkian é a chave, porque é que ele constituiu a coleção, porque comprou esta peça, etc. As pessoas muitas vezes chegam aqui e perguntam-nos porque é que não tem isto ou não tem aquilo. Quando, na verdade, deviam perguntar porque tem o que tem. Porque é uma coleção extraordinária, mas não é uma coleção enciclopédica no sentido total do termo. Ele fez opções que tinham que ver com o seu próprio gosto pessoal e até com as disponibilidades do mercado. .José Gardeazabal: “Vejo a minha literatura como um animal de duas pernas, a perna do pensamento e a perna da ironia” .Delfim Sardo: "A única coisa que tenho pena de não ter feito no CCB é um centro de estudos avançados em arte"