Morreu Charlie Watts, o histórico e calmo baterista dos Rolling Stones

Artista de 80 anos tinha anunciado no início do mês que não iria participar na digressão da banda nos Estados Unidos entre setembro e novembro.

O baterista dos Rolling Stones, Charlie Watts (1941-2021), morreu ontem, num hospital de Londres, aos 80 anos, anunciou o seu agente. Bernard Doherty afirmou que Watts morreu "em paz, num hospital de Londres, rodeado pela sua família".

"O Charlie era um marido adorado, pai e avô e também, enquanto membro dos Rolling Stones, um dos grandes bateristas da sua geração. Pedimos gentilmente que a privacidade da família, membros da banda e amigos próximos seja respeitada neste momento difícil", acrescentou Doherty, em comunicado.

Juntamente com o cantor Mick Jagger e o guitarrista Keith Richards, Charlie Watts era um dos membros mais antigos da banda, pela qual passaram nomes como Mick Taylor, Ronnie Wood e Bill Wyman.

A banda tinha anunciado, no começo deste mês, que Watts não iria participar na digressão pelos Estados Unidos entre 26 de setembro e 20 de novembro, por estar a recuperar de "um procedimento médico não especificado", sendo substituído pelo músico Steve Jordan. "Com os ensaios a começar dentro de algumas semanas, isto é, no mínimo, dececionante, mas também é justo afirmar que ninguém previu. Pela primeira vez o meu ritmo tem estado um pouco estranho. Tenho trabalhado duro para estar completamente bem, mas hoje devo aceitar os conselhos especialistas de que isto vai demorar mais um pouco", afirmou na altura.

"Não quero que os fãs dos Rolling Stones fiquem desapontados com mais um adiamento ou cancelamento, depois de todo o sofrimento provocado pela covid-19, pelo que pedi ao meu grande amigo Steve Jordan que me substituísse", acrescentou.

Os Rolling Stones tocaram juntos pela última vez no espetáculo One World: Together At Home, em abril do ano passado, quando realizaram à distância uma versão do seu clássico de 1969, You Can"t Always Get What You Want.

O homem calmo numa banda turbulenta

Charlie Watts, conhecido como o homem calmo de uns Rolling Stones envoltos em escândalos, contrastava com o comportamento dos restantes elementos da banda dentro e fora de palco, tendo vivido durante mais de 50 anos com a sua mulher, Shirley Shepherd, numa zona rural em Devon, um condado no sudoeste de Inglaterra. Já os outros membros ficaram também conhecidos por "divórcios, vício e detenções", como refere o jornal britânico Daily Mirror.

"Nunca correspondi ao estereótipo da estrela de rock. Nos anos 1970, o Bill Wyman e eu decidimos deixar crescer a barba e o esforço deixou-nos exaustos", disse à revista Rolling Stone em 1994 o baterista que ajudou o grupo a alcançar sucesso com êxitos como Jumpin" Jack Flash e (I Can"t Get No) Satisfaction.

O período mais turbulento que o baterista viveu foi na década de 1980, quando teve de se tratar devido a abuso de consumo de álcool e heroína, conseguindo livrar-se do vício com sucesso e rapidez. "Foi algo muito curto para mim. Acabei por parar. Não combinava comigo", afirmou em 2012, numa entrevista ao Mirror.

"Ao longo de cinco décadas de caos, o baterista Charlie Watts tem sido a calma no centro da tempestade dos Rolling Stones, dentro e fora de palco", escreveu o jornal britânico.

Em 2004, Watts foi tratado com sucesso a um cancro na garganta após uma luta de quatro meses contra a doença, incluindo seis meses de radioterapia intensiva.

O jazz antes do rock

Nascido a 2 de junho de 1941 em Londres, Charles Robert Watts descobriu o jazz quando tinha cerca de dez anos, tendo aprendido a tocar bateria sem nenhum treino formal, apenas assistindo aos grandes bateristas de jazz em clubes noturnos de Londres.

Depois de estudar arte, trabalhou como designer gráfico e tocou para várias bandas de jazz antes de ingressar nos The Rolling Stones em 1963.

O jazz nunca ficou para trás, uma vez que liderou durante largos anos uma banda de 32 elementos chamada Charlie Watts Orchestra, mas foi no rock que se notabilizou. Em 2016 foi nomeado o 12.º melhor baterista de todos os tempos pela revista Rolling Stone. Dez anos antes, entrou para o Modern Drummer Hall of Fame, da revista Modern Drummer, ao lado de outros notáveis como Ringo Starr (Beatles) e Keith Moon dos The Who.

david.pereira@dn.pt

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