Luísa Cunha (1949-2026)
Luísa Cunha (1949-2026)Foto: Galeria Miguel Nabinho

Morreu a artista Luísa Cunha, uma das pioneiras em Portugal do uso do som e da voz na arte contemporânea

Nascida em 1949, em Lisboa, onde residia, a artista tinha sido internada domingo à noite no Hospital de São José.
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A artista plástica Luísa Cunha, de 77 anos, premiada em 2021 com o Grande Prémio Fundação EDP Arte, morreu esta segunda-feira, 6 de julho, no Hospital de São José, em Lisboa, vítima de doença oncológica, disse à agência Lusa fonte próxima da família da artista, que era representada pela Galeria Miguel Nabinho.

Nascida em 1949, em Lisboa, onde residia, a artista tinha sido internada domingo à noite naquela unidade hospitalar, onde veio a morrer ao final da manhã de hoje, "após uma luta contra o cancro nos últimos anos", segundo a mesma fonte.

Nos últimos três meses, até este domingo, a obra de Luísa Cunha esteve exposta na bienal Anozero, de Coimbra, com uma instalação na Estufa Fria do Jardim Botânico, e com a sua voz no Mosteiro de Santa Clara-a-Nova.

"Artista do som"

A artista prosseguiu a sua atividade artística até recentemente, com a última exposição na Galeria Miguel Nabinho, Senha Z 672, a ser inaugurada em 20 de setembro de 2025.

"A Luísa foi uma artista em Portugal singular. Ela é a artista do som. Ainda agora estava a rever as peças de som que ela fez e os textos. Era ela, normalmente, quem dizia os textos. E este trabalho é tão simples e tão pertinente que até arrepia", diz ao DN o seu galerista de sempre, Miguel Nabinho.

Para Nabinho, Luísa Cunha "talvez tenha sido das artistas portuguesas que mais caminho abriu para as possibilidades de produção artística em Portugal. Não estou a minimizar os outros media, a pintura, o desenho, há artistas que abriram imenso caminho. Mas no som não há praticamente nada feito em Portugal. E ela desenvolveu o som na arte contemporânea em Portugal, e assim possibilitou que artistas de novas gerações possam olhar para mais uma possibilidade para exercer o seu processo criativo. E nisso ela é absolutamente única", sublinha Miguel Nabinho, que era também amigo da artista.

O galerista diz que Luísa Cunha "era uma pessoa muito divertida, muito simples no trato, amiga de qualquer pessoa, qualquer pessoa que se abeirasse dela era tratada sempre de uma forma maravilhosa. E era completamente apaixonada pelo seu trabalho. Ela fazia o trabalho para as pessoas, ela adorava que as pessoas gostassem do trabalho dela", diz Miguel Nabinho sobre a artista.

"A interação com o público, para ela, era mesmo muito importante. E não era preciso que fosse um curador. Podia ser uma pessoa que estava a montar a exposição e que mostrava a curiosidade", acrescenta.

Luísa Cunha licenciou-se em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e, em 1994, frequentou o curso de Escultura no AR.CO – Centro de Arte e Comunicação Visual. Foi professora de alemão e inglês, atividade que conciliava com a sua prática artística, que começou tinha já quase 40 anos de idade.

"Há muitos artistas que mantêm outras profissões para ganhar dinheiro e muitas vezes o trabalho artístico ressente-se. Não foi o caso da Luísa. A Luísa continuou o seu trabalho, que não tinha diretamente a ver com as artes plásticas, mas manteve a produção artística sempre da forma mais pungente e pertinente que há", afirma Miguel Nabinho.

A artista venceu o Grande Prémio Fundação EDP Arte em 2021, com o júri a destacar a forma como Luísa Cunha trabalha o espaço e o som a partir da linguagem verbal, "a originalidade, ousadia experimental, multidisciplinaridade, e pioneirismo no uso de novas linguagens" e a influência da artista nas gerações mais jovens.

Na sequência do prémio, o MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia dedicou-lhe uma exposição retrospetiva em 2023. Intitulada Hello! Are you there?, com curadoria de Isabel Carlos, mostrou uma década de trabalho de Luísa Cunha de 1992 a 2022. Também foi publicado o catálogo Luisa Cunha. Obras / Works 1992–2022, mostrando 108 obras e uma seleção de excertos de textos de diversos autores, vindos a público entre 1997 e 2022, e dois ensaios originais sobre a obra da artista, de Isabel Carlos e de Joshua Decter, curador e historiador de arte norte-americano.

Para Isabel Carlos, "o lugar da Luísa Cunha na história da arte do início do século XXI é incontornável e único. As suas esculturas sonoras são, de facto, um legado de uma profunda criatividade e experimentalidade. Eu chamo-lhes de esculturas, sempre lhes chamei esculturas, porque são muito mais do que obras em som".

A atual diretora do Pavilhão Julião Sarmento, que também já dirigiu o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, destaca "a preocupação que a Luísa Cunha tinha com o modo, com a escolha da coluna, da cor da coluna ou do que fosse o emissor das suas peças sonoras, que são a sua voz. São extraordinárias, pelo minimalismo, o rigor, a eficácia comunicacional. Não é por acaso que ela era licenciada em filologia germânica".

Isabel Carlos considera que a "primeira licenciatura" de Luísa Cunha está muito presente na sua obra. E recorda a primeira vez que viu trabalhos da artista. "Eram duas obras, uma chama-se Drop the Bomb, que é uma mesa com dois emissores pequeninos, redondos, que caem sobre a mesa, e a outra era Nas Casas de Banho da Escola, e lembro-me que estava a visitar a exposição de finalistas da AR.CO daquele ano, com o João Fernandes, e ficámos os dois, 'o que é isto'? Foi o reconhecimento imediato de que estávamos perante qualquer coisa que já era excecional."

Isabel Carlos ficou amiga de Luísa Cunha e viria a trabalhar várias vezes com a artista ao longo dos anos. Luísa Cunha representou Portugal na 34ª Bienal de São Paulo em 2021, e participou na 14.ª Bienal de Sydney, em 2004. Isabel Carlos foi a curadora portuguesa desta última bienal, onde Luísa Cunha apresentou a obra Words for Gardens.

"Quando eu fiz a Bienal de Sydney, assisti à maneira como as pessoas reagiram a esta obra, Words for Gardens, que esteve até ontem na Bienal do Anozero, que é uma belíssima peça. Foi uma obra que foi instalada pela primeira vez e concebida como tal pela Luísa Cunha para o Royal Botanic Gardens, em Sydney, e, de facto, as pessoas ficavam completamente fascinadas com a obra. A obra da Luísa Cunha toca, quem contactou com ela não fica lhe indiferente. Ela fica connosco, por este rigor e ao mesmo tempo pela intimidade e pelo humor maroto".

A obra de Luísa Cunha explorava questões como a "comunicação, entropia comunicacional e o corpo", explica Isabel Carlos. "Há várias obras em que ela se autorrepresenta, mais uma vez, não de um modo 'normal'. Lembro-me de uma obra que ela chamou Altura e Largura, e que é um retângulo encarnado com a largura dela e a altura dela. Ou seja, não é um autorretrato comum".

Luísa Cunha venceu também o Prémio AICA Portugal de Artes Visuais 2022, pela exposição Partitura #4, realizada na Galeria Miguel Nabinho, e pela intervenção no espaço “Gabinete”, no MAAT, com a peça Não, com curadoria de João Pinharanda. 

A sua obra integra importantes coleções públicas e privadas, incluindo a Fundação Calouste Gulbenkian, a Fundação de Serralves, a Coleção António Cachola e a Coleção de Arte Contemporânea do Estado.

Para Isabel Carlos, Luísa Cunha "foi uma artista extraordinária, e, felizmente, a voz dela continuará".

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