Quem viu Megalopolis (2024), de Francis Ford Coppola, sabe que se trata de uma prodigiosa aventura cinematográfica, impossível de encaixar em qualquer modelo corrente de produção. Não admira que Megadoc, documentário de Mike Figgis sobre a rodagem de Megalopolis, seja um acontecimento singular, ágil e emocionante, para lá das convenções dos chamados making of sobre os bastidores dos filmes — são dois objectos “mega” que, agora, podem ser descobertos na plataforma Filmin.Convidado pelo próprio Coppola, Figgis não deixa de enfrentar os discursos catastrofistas que acompanharam a gestação de Megalopolis. Por causa do orçamento (120 milhões de dólares) que Coppola reuniu graças à venda de propriedades ligadas à sua atividade de produtor vinícola. E ainda porque alguma imprensa dos EUA tentou descrever os problemas de entendimento do produtor/realizador com o setor de efeitos especiais como um caos sem solução.Caos é, afinal, uma palavra que Coppola não teme — as memórias de Apocalypse Now (1979) ou Do Fundo do Coração (1981) acompanham-no mesmo como fantasmas queridos. A ameaça caótica não é um impasse, antes o rastilho de um confronto que pode trazer ao filme a sua irredutível identidade. Tal dinâmica torna-se especialmente sensível na relação com os atores: Adam Driver, Jon Voight, Aubrey Plaza, Shia LaBeouf, Dustin Hoffman, etc. Todos lembram como é difícil trabalhar com Coppola (LaBeouf manteve mesmo com ele um confronto desgastante), ao mesmo tempo que todos (incluindo LaBeouf) reconhecem o seu fulgor criativo.A visão de Coppola vai-se consolidando através de duas fundamentais linhas de força. Primeiro, a liberdade com que encara a função do argumento no momento da rodagem: no argumento estão os diálogos e as linhas dramáticas que sustentam todo o projeto, mas filmar é também uma discussão aberta (ele usa mesmo a palavra “performance”) sobre as respetivas componentes. Depois, e por mais artificiosa que seja a conceção cenográfica de um filme (Megalopolis é um exemplo extremo), os efeitos especiais analógicos, não digitais, são sempre uma prioridade.O cinema nasce dessa paixão pelos elementos materiais de que se faz um filme. Infelizmente, as legendas traduzem o verbo “shoot”, não pelo correto “filmar”, optando pelo “gravar” das novelas — deveria haver o devido cuidado para não aproximar um filme genial como Megalopolis da linguagem mercantil que a mediocridade televisiva nos quer impor..'Pelo Adam". Como filmar uma criança?