Quando um filme anda à deriva, tentando compensar a falta de ideias com a ostentação de um dramatismo balofo, não tenhamos ilusões: são os atores os primeiros a sofrer, confundindo (ou sendo levados a confundir) ostentação gratuita com subtileza expressiva. Assim acontece em Mata-te, Amor (no original Die, My Love), retrato trágico de uma relação homem/mulher em acelerada decomposição.Realizado pela escocesa Lynn Ramsay, o filme baseia-se no romance homónimo da argentina Ariana Harwicz, primeiro de uma Trilogia da Paixão (editada em Portugal com chancela da Elsinore). No centro dos acontecimentos está o par formado por Grace e Jackson (Jennifer Lawrence e Robert Pattinson). Vivendo numa nova casa, com uma criança recém-nascida, em ambiente que parece resultar de uma conjugação harmoniosa com os elementos naturais à sua volta, há neles qualquer coisa de Adão e Eva em pose pós-moderna, desta vez libertos do julgamento divino... Enfim, com as ausências mais ou menos prolongadas de Jackson, as coisas começam a correr mal, a histeria toma conta do quotidiano e a gritaria serve para fingir profundidade...O espetador que conheça o filme Mãe! (2017), de Darren Aronofsky, também com Jennifer Lawrence, neste caso contracenando com Javier Bardem, talvez seja levado a estabelecer alguma relação temática, quanto mais não seja porque em ambos os casos o espaço conjugal vai sendo minado por elementos vindos do exterior. O certo é que o filme de Aronofsky (que suscitou muitas opiniões inconciliáveis) não escondia a sua vontade de funcionar como uma espécie de ópera-bufa apostada em decompor qualquer forma de naturalismo. No caso de Mata-te, Amor, a tentativa de preservar alguma verosimilhança realista vai-se esgotando na exploração de uma representação tão ostensiva quanto gratuita, para mais apoiada numa agitação da câmara de filmar que quer confundir-se com “análise” psicológica.Infelizmente, estamos ao nível da telenovela mais rotineira, neste caso com sofisticados meios de produção e, acima de tudo, dois intérpretes obviamente dotados, compelidos a uma retórica de representação que se esgota ao fim de poucos minutos. No meio de tudo isto surgem dois respeitáveis veteranos, Nick Nolte e Sissy Spacek (como pais de Jackson), que não bastam para corrigir os percalços de uma mise en scène de banal acumulação retórica. Enfim, Lynne Ramsay já provou que sabe tratar grandes desequilíbrios emocionais (lembremos A Viagem de Morvern Callar, 2002), mas desta vez fica-se pela imitação ostensiva das suas obsessões temáticas, sem que daí resulte qualquer compensação cinematográfica. .Scarlett Johansson, realizadora: uma verdadeira revelação