O ciclo Lisboa Música Antiga vai trazer novos sonantes da música clássica a Lisboa? O meu principal objetivo é criar um espaço pluralista, onde o verdadeiro protagonismo é dado à estética e à qualidade do artista, da escolha dos programas e dos espaços. Os grandes nomes estão presentes, porque é necessário dar a esta iniciativa um alcance e uma credibilidade que os artistas de renome ajudam a determinar. Dito isto, há nesta série de concertos uma justa alternância entre artistas lendários, artistas portugueses e jovens artistas, maioritariamente portugueses, que farão parte do mesmo cartaz com igual dignidade. Logo no primeiro evento, encontramos verdadeiras lendas como Andreas Scholl (no concerto de abertura a 18 de abril) ou Ton Koopman (a 27 de abril). Os artistas atuarão num espaço muito intimista, se comparado com as grandes salas. Penso que esta seja uma novidade. Alguma vez se viu um concerto de Andreas Scholl atuar a metros do público? Acho que vai ser emocionante. O mesmo se aplica ao maestro Koopman, que não vem a Lisboa como organista desde 1994. Quantos de nós o viram recentemente ao órgão? Um pequeno pormenor: Ton Koopman vem a Lisboa durante um período muito complexo de compromissos profissionais. Aceitou, no entanto, fazer este concerto porque, na sua opinião, aquele instrumento (o órgão Machado e Cerveira da Basílica dos Mártires) merece qualquer esforço..O que define a música barroca? O Barroco configura-se como uma extraordinária civilização da imagem e do som, orientada para atingir e envolver um vasto público, a fim de conquistar o seu consentimento com a força do espanto, da persuasão e da emoção. O dinamismo formal, a exuberância decorativa, o ilusionismo, a integração das artes e a teatralidade são as principais características da sua linguagem. Através de celebrações que se transformam em espetaculares rituais de massas, procurava-se exorcizar o medo do vazio e da morte. As igrejas revestem-se de mármore, de colunas retorcidas, de estuques dourados, de monumentos articulados, de música grandiosa e de coros majestosos..A escolha dos locais dos concertos, nomeadamente igrejas, conventos ou capelas, tem que ver com o tipo de música? É certo que os locais escolhidos estão intrinsecamente ligados ao repertório. Do meu ponto de vista, a beleza deve ser vista através do som para chegar ao coração. No caso específico destes concertos, alguns dos espaços que estarão abertos ao público são verdadeiras maravilhas, como pérolas num colar precioso. Muitas pessoas desconhecem a existência ou nunca tiveram a oportunidade de entrar neles. Por exemplo, conhece a Capela da Bemposta? Ou o Convento dos Cardães? Garanto-lhe que o deixam sem fôlego. Sem esquecer a Basílica dos Mártires, com o seu magnífico órgão monumental, ou a Igreja do Sacramento, sumptuosamente restaurada. Permitam-me que deixe aqui uma palavra de agradecimento às paróquias e congregações que trabalharam arduamente para que estes espaços fossem abertos para este projeto. A Academia Militar, a Associação da Nossa Senhora Consoladora dos Aflitos, e as Paróquias dos Mártires e do Chiado.O preço médio do bilhete é de 15 euros. Como é possível perante tanta qualidade do programa? Tem que ver com mecenas? Pela qualidade que queremos propor, o preço dos bilhetes é muito honesto. Posso tentar explicá-lo da seguinte forma: acredito que a Cultura deve ser uma escolha, profunda e convencida. A melhor política cultural é a do cidadão que determina as suas escolhas. Defendo que uma interação saudável entre o público e o privado é a chave para uma política cultural de alto nível, onde os interesses estéticos, de gestão e sociais podem interagir-se de forma virtuosa. O ciclo de concertos que estamos a abrir esta semana é subsidiado quase na totalidade pelo mecenato privado, pela Fundação La Caixa, pela Stone Capital e pela Generali Tranquilidade seguros. Agradeço a estes visionários que, tal como na época do Renascimento, acreditam firmemente que o que é gerado pela economia pode ser transformado e reintroduzido na sociedade em termos de “valores” e de cultura. Além disso, duas juntas de freguesia, de Arroios e da Misericórdia, também se associaram a este projeto de forma idealista e socialmente responsável pois, mesmo que o preço dos bilhetes seja muito acessível, há sempre quem não tenha possibilidades materiais, educativas ou físicas para se permitir estes momentos. Agradeço a estas instituições o facto de fazerem um esforço para proporcionar momentos de rara beleza a pessoas que normalmente não têm essas possibilidades..Como é que um maestro italiano escolhe Portugal para viver e trabalhar? No fim de contas, foi uma feliz coincidência. Tinha vindo visitar uns amigos músicos, depois de muito vaguear pela Europa. Pareceu-me que havia uma bela simbiose, e osmose, entre o passado e o futuro, onde, no presente, era possível plantar uma semente. Pareceu-me muito poético. E fiquei.A sua orquestra barroca Divino Sospiro está também no programa. Os portugueses gostam de música barroca? Permita-me que fuja à resposta, pois penso que a questão deve ser hoje colocada em termos diferentes. O público português gosta certamente de ter experiências culturais significativas, quer compreender a narrativa que um evento pode desenvolver. Nesse sentido, creio que a música barroca preenche completamente esses requisitos; música cheia de estética e retórica, de uma capacidade narrativa sem paralelo. É famosa a fórmula de Santo Agostinho: “Musica est scientia bene modulandi”. Assim, a música é uma ciência que consiste em saber “modular” os sons de forma harmoniosa. “Bene modulandi” é entrar em consonância com a harmonia celeste, que para Santo Agostinho não é apenas um facto material, mas também espiritual. O que é poderoso, na música, é que isto se aplica tanto àqueles que a praticam, cantando, tocando, como àqueles que a ouvem e vêm os procedimentos da civilização serem postos em prática. Mas, afinal o que conta é o que chega aos nossos ouvidos e, no caso dos nossos concertos, também aos nossos olhos. Na música barroca, isso é mais evidente do que nunca..Quais são os grandes compositores portugueses de música barroca? Alguma obra vai ser tocada? Para mim é impossível enumerar. Um dos méritos da “baroque rennaissance” foi o facto de, para além da redescoberta da prática historicamente informada, ter trazido à luz do dia tantos compositores excecionais esquecidos. Neste sentido, gostaria de prosseguir nessa via. É por isso que poderemos ouvir música inglesa do século XVII, ou as sinfonias de Leonora Duarte, os Salmos de David do Benedetto Marcello, e até as peças para órgão de Sweelink ou Buxtehude. Quanto às minhas preferências, seriam demasiadas para as enumerar. Limito-me a Monteverdi, Giovanni Bononcini, Bach (como não podia deixar de ser), Händel. Mas o meu preferido é Josquin des Prés, um renascentista franco-flamengo