A fotografia dá-se bem com o cinema. Ou melhor, as imagens em movimento conseguem, por vezes, dar-nos a ver (ou rever) as imagens fixas de modo a que compreendamos melhor de onde vêm, quem as fez e que outros mundos nos revelam. Assim é Eu Sou Martin Parr, o filme documental sobre o fotógrafo inglês Martin Parr (1952-2025) que chega amanhã às salas de cinema: uma viagem através de uma obra invulgar capaz de nos ajudar a perceber as raízes, métodos e motivações de toda uma peculiar visão do mundo.Lee Shulman, o realizador, é também um fotógrafo. Aliás, travou conhecimento com Parr durante uma das suas exposições, The House, recuperando fotografias da década de 1970. Aconteceu nos Encontros de Fotografia de Arles, em 2019: o próprio Parr foi felicitar Shulman pelo valor arqueológico e artístico do seu projeto, assim nascendo uma relação que acabou por gerar este filme. Resumindo, tratou-se de celebrar os 70 anos de Parr, não apenas dando conta da multiplicidade do seu trabalho, mas também acompanhando-o numa revisitação de diversos lugares indissociáveis das suas imagens — sem esquecer que a sua herança está repartida por dezenas de livros publicados ao longo de cinco décadas.O regresso a New Brighton, no noroeste da Inglaterra, emerge como símbolo maior da viagem de Parr e Shulman. Foi aí que, entre 1983 e 1985, Parr registou aquele que é, muito provavelmente, o seu mais famoso portfolio, lançado em livro como The Last Resort: Photographs of New Brighton (Promenade Press, 1986). São fotografias da classe média, do mundo de onde o próprio Parr provém, que conseguiram uma dupla proeza: elaborar uma visão crítica das vivências dessa classe durante a governação de Margaret Thatcher e definir uma inconfundível marca visual na fotografia, não apenas britânica, mas europeia. . O efeito de assinatura de Parr é fortíssimo. As suas fotografias do quotidiano privilegiam a banalidade das situações — férias junto ao mar, festas populares, piqueniques, etc. —, num registo de imediato realismo que, através da exuberância das cores e da liberdade dos enquadramentos, vai gerando uma atmosfera bizarra que tende para qualquer coisa de surreal. A agilidade documental da câmara de Shulman é tanto mais envolvente quanto consegue dar conta de toda uma evolução temática e estética de Parr sem recorrer a informações redundantes ou banalmente “teóricas”. Como diz um dos fotógrafos entrevistados por Shulman, Parr consumou em fotografia o que Charlie Chaplin fez no cinema mudo, casando “comédia e tragédia”. . Mitologia e realidadePorventura surpreendente, mesmo para os espetadores que já conheçam alguns aspectos da obra de Parr, será a (re)descoberta da fase inicial em que apenas fotografava a preto e branco. Como o próprio Parr recorda, nas décadas de 1960/70 o preto e branco não era apenas o protótipo do realismo — era também o símbolo da fotografia “séria”, por oposição à “ligeireza” publicitária da cor. Curioso pormenor familiar: a primeira das suas fotografias que Parr recorda é uma imagem do pai, em 1963, a posar para ele num riacho congelado. . “Conhecer pessoas” é, afinal, o mote do labor de Parr — Shulman consegue mesmo registar diversas situações em que podemos observar como muitas das suas fotografias nascem de uma relação simples e direta, nada intrusiva, com personagens que, literalmente, vão a passar na rua... O que poderá ser resumido por algumas clássicas palavras de Martin Parr: “O aspecto fundamental que constantemente exploro é a diferença entre a mitologia dos lugares e a sua realidade.”