Marte ali tão perto

Chega hoje ao streaming Passageiro Acidental, do brasileiro Joe Penna, drama sobre três astronautas a caminho de Marte. Três? Afinal, havia outro. Oxigénio para todos é que talvez não....

Uma missão a Marte num futuro próximo. A nave é pequena e a tripulação mínima, uma comandante, um cientista e uma médica. Primeiro assistimos ao aparato da partida: muitos botões, comunicação e turbulência. Depois vamos percebendo detalhes da viagem: dois anos com ida e volta para um objetivo de estudar o planeta vermelho. A câmara não sai de dentro da nave e só de vislumbre, pelas escotilhas, vemos o espaço. Mas cedo soa um alarme: sem querer, um técnico da empresa aeroespacial ficou preso dentro de um pequeno confinamento da nave e surge ferido, um passageiro extra, alguém que é visto como uma ameaça. A dada altura, mesmo percebendo que esse passageiro é um estudante de Engenharia Espacial e uma joia de moço, surge uma questão de sobrevivência: será que o oxigénio no interior daquelas apertadas cabinas chega para quatro seres humanos?

Joe Penna, realizador brasileiro radicado nos EUA, parece querer estar a especializar-se em thrillers sobre a superação do ser humano em territórios hostis. Primeiro, em Ártico (2018), colocou Mads Mikkelsen, sozinho no Ártico a tentar sobreviver após um acidente de aviação, agora é a luta de uma tripulação sozinha no espaço a desesperar com a matemática da falta de oxigénio. Um cineasta que encontrou o seu nicho mas que aqui dá-se mal com o confinamento - de alguma forma nunca sentimos de perto a ameaça da morte nesta nave onde as personagens são algo sensaboronas: a comandante de Toni Colette, por detrás da sua dureza aparente, acaba por não ter nada de especial na sua humanidade e a médica destemida de Anna Kendrick idem aspas. Aliás, Kendrick é daquele género de atrizes-funcionárias que nunca eleva um filme.

Se a partir do primeiro quarto de hora já percebemos que este Stowaway vai pela via da ficção científica para adultos, sem monstros e com o afamado realismo científico da moda, também cedo percebemos que nunca empolga. Fica-se sempre perante uma tímida aproximação aos trunfos de um Gravidade, de Alfonso Cuarón, onde aí sim a vulnerabilidade humana era bem encadeada. Joe Penna não tem mãos para criar uma tensão genuína e joga tudo numa claustrofobia correta pontuada pela música ainda mais previsível - quem vir o filme com as legendas para surdos pode ler "música de suspense", "música de melancolia", ou seja, tudo imensamente ilustrativo e à tabela. Não convence, não aquece, não entusiasma, mesmo quando o dilema moral proposto pelo argumento mostra uma potencial reflexão sobre o sacrifício humano.

Na sua estratégia de produção americana, a Netflix tem aqui um exemplo da sua pequena escala. Ironia das ironias, talvez pelo seu jogos de câmara e pelo simbolismo da atmosfera espacial, Passageiro Acidental pedia um grande ecrã. Provavelmente por isso, sente-se que não entramos realmente nesta nave apertadinha. Falta alma a esta claustrofobia correta, aliás falta mesmo oxigénio. Isso e um clímax final com uma resolução emocional mais forte...

dnot@dn.pt

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