Como celebrar os 100 anos do primeiro filme de Alfred Hitchcock (Number 13, de 1922)? Nas mãos de Mark Cousins, o assinalar da data não poderia constituir-se a enésima análise da obra do cineasta com base nos temas morais e humor inglês que já muitos críticos e estudiosos observaram, com sabedoria suculenta, mas reiterada ad infinitum. O documentário O Meu Nome é Alfred Hitchcock surge, portanto, na qualidade de comprimido para aliviar o empanzinamento teórico: uma revisitação das imagens do seu cinema à luz de conceitos pouco imediatos a uma leitura erudita, como "fuga" ou "desejo". Afinal, este é o mestre por trás daqueles planos com Cary Grant todo janota na Côte D"Azur (Ladrão de Casaca) ou a correr desenfreadamente num campo de milho (Intriga Internacional), ou ainda o de Grace Kelly a fazer menção de beijar James Stewart como quem vai beijar a câmara (Janela Indiscreta)..Cousins, realizador de maravilhas como A História do Cinema: Uma Odisseia e As Mulheres Fazem Cinema, que também escreveu uma carta ao cineasta de Citizen Kane em Os Olhos de Orson Welles, quis aproximar-nos do sortilégio espirituoso do "homem do espetáculo". E para isso usou a sua voz - ou a voz de um ator, Alistair McGowan, que imita Hitchcock até ao detalhe da respiração - como guia dentro de uma catedral de imagens que nos espelham a nós de muitas maneiras. Não é por acaso que Cousins intercala os clássicos com uma mão-cheia de planos captados por si nas ruas, quais apontamentos contemporâneos a reforçar o facto de esta ser uma operação de cinefilia que não se aloja no fetichismo do passado. É para os espectadores de hoje e é um prazer sem culpa..À conversa com o DN, via Zoom, a partir da sua casa em Edimburgo, o documentarista irlandês recordou a experiência da solidão pandémica e como Hitchcock o salvou do aborrecimento..Toda a gente tem noções sobre o cinema de Alfred Hitchcock. Mas o Mark encontrou uma nova via para explorar as suas imagens, uma nova forma de ler o seu universo, enfim, novas ideias para encenar um passeio agradável por entre as hitchcockianas "surpresas visuais". Como é que chegou a esta estrutura de ideias? Tenho de dizer que adoro toda a formulação da sua pergunta. Na verdade, a estrutura é para mim a coisa mais importante na produção cinematográfica. A estrutura vem sempre em primeiro lugar. Portanto, quando decidi fazer um filme sobre Hitchcock, pensei desde logo que tinha de tentar dizer algo novo, em vez de andar à volta dos temas já muito abordados. E o que é que ainda não foi abordado? Peguei então neste pedaço de papel velho [Cousins exibe-o para a câmara do computador] e escrevi aqui "solidão", ali "tempo", mais à frente "satisfação", etc. Ideias que não estão muito associadas a Hitchcock. Outro ponto essencial é que comecei a fazer isto no início da pandemia, numa altura em que todos pensávamos mais ou menos na solidão e naquilo que nos faz sentir realizados nas nossas vidas. Nesse sentido, optei por procurar exclusivamente este género de temas nos filmes dele. E quando procuras, encontras. Encontrei também um Hitchcock mais humano do que aquilo que conhecia antes, talvez tomado pelo medo e melancolia universais daquele tempo ainda recente. No fim de contas, diria que a covid nos fez colocar novas questões..Foi vital para a natureza do projeto ter a "voz" de Hitchcock? Sim, foi. Interessa-me sempre o aspeto da voz. Em qualquer um dos meus projetos, a pergunta de origem é: quem está a falar, a partir de onde, quando e porquê. Então pensei que seria um exercício curioso se Hitchcock falasse a partir dos dias de hoje, depois de já estar morto... Eu tenho um filme sobre Orson Welles em que falo com Orson Welles, e achei que desta feita podia ir mais longe trocando o "tu" pelo "eu" de Hitchcock - foi bastante divertido e lúdico, a combinar com o espírito do próprio Hitchcock, alguém que, como se sabe, era muito brincalhão. Quis apenas fazer algo engraçado em que me imagino dentro da cabeça dele, impondo uma única regra: não usar as suas palavras. Ou seja, não fui ver entrevistas para ir buscar coisas que ele disse, comecei sim numa página em branco, imaginando que ele está a falar para nós, os espectadores de hoje. Se fosse vivo, ele seria o herói do TikTok! (risos).Mas para escrever cada palavra dita pelo nosso "anfitrião", tentou colocar-se na pele dele, de uma maneira intuitiva, ou criou essa distância lúdica? Como disse, não fui ver nenhuma entrevista dele, até porque as ouvi todas ao longo dos anos. Queria apenas ter qualquer coisa para me divertir durante o confinamento nesta sala onde me encontro, que é a minha suite de montagem. Chegava de manhã, olhava para as imagens dos filmes e escrevia o que imaginava que ele poderia ter a dizer sobre essas imagens. Se tentarmos escrever algo criativo, sobretudo pensando em Hitchcock, ouvimos uma voz dentro da nossa cabeça. Acho que fui simplesmente um estenógrafo..E como é que descobriu o ator ideal para lhe dar voz corpórea? Isso foi muito difícil. No passado, houve muita gente famosa que imitou Hitchcock e conseguiu atingir quase o ponto certo. Mas eu almejava algo ainda melhor... E tenho a sorte de ser amigo do ator Simon Callow. Perguntei-lhe quem é que poderia dar voz a Hitchcock e ele respondeu-me que "o melhor ouvido in the business é o Alistair McGowan". Eu conhecia-o da televisão, ele é muito famoso aqui como comediante. Então falámos com o seu agente, para ver se consideraria esta proposta, enviei-lhe uma parte do argumento e esperei dias, depois semanas, até que recebi um voice-mail no telemóvel... Era Hitchcock a falar comigo. (pausa).Qual foi a sua reação? "Uau! Isto é perfeito!" [Cousins tenta imitar a cavidade vocal de Hitchcock] Enfim, toda a situação era perfeita. Limitei-me a escrever um e-mail ao meu produtor a dizer que tínhamos encontrado o nosso Hitchcock..Nos seus documentários há sempre um qualquer tom pessoal. Estou a pensar justamente num filme que já aqui referiu, Os Olhos de Orson Welles [2018]. Mas desta vez transferiu o tom pessoal para o próprio Hitchcock. Isso leva-me a perguntar se considera que a personalidade de um realizador é inseparável do seu cinema? Às vezes, sim. Por exemplo, a personalidade de um realizador como Brian De Palma é tangível no seu cinema. Mas também conhecemos realizadores que são muito diferentes dos seus filmes. Ocorre-me o David Lynch, assim de repente, que é um tipo amável e gentil no trato, mas depois há todo aquele medo e terror que atravessam os seus filmes. No caso de Hitchcock, há um total alinhamento entre a pessoa e os filmes, lá está, pelo facto de ser brincalhão, de estar sempre a fazer piadas... Veja-se, é este tipo de masala [mistura de temperos] que se encontra em Hitchcock: precisamente no momento em que nos coloca à beira do medo, de súbito puxa-nos para trás com uma brincadeira visual. Esta atitude fílmica é a cara dele..No fundo, O Meu Nome é Alfred Hitchcock poderá ser uma espécie de Janela Indiscreta com vista para toda a obra dele? Não tinha pensado nisso! Absolutamente. É uma narração voyeurista. É olhar pela objetiva dele para o seu cinema e para a sua vida, tentando perceber qual é a sensação... Nunca ninguém me tinha feito essa observação, mas é uma ideia super interessante. Isso leva-me também a pensar que, quando faço um filme, sobre qualquer assunto, estou a tentar entrar nesse assunto de alguma forma, neste caso, a mergulhar no universo de um realizador através de uma abertura. Portanto, a metáfora do Janela Indiscreta é muito boa..Por falar em obra, e agora mudando o ângulo da conversa para a sua obra documental, será demasiado romântico olhar para os documentários que o Mark faz como trabalhos de amor, inclusive cinéfilo, no sentido puro da expressão? Sem dúvida, há mesmo muito amor. Até o filme que fiz antes, sobre o fascismo, Marcha Sobre Roma, que se estreou há umas semanas nas vossas salas, deve ser visto como um ato de amor. Sabe, todas as escolas de arte e de cinema ensinam aos alunos que o seu trabalho, quando saírem dali, terá que ver com a autoexpressão, "tens algo a dizer ao mundo, tira-o cá para fora", blá blá blá. Eu acho isso tudo uma treta. Acho aliás que é ao contrário. Não preciso de partilhar nada meu, porque o mundo real já é fascinante por si só. O que faço é olhar para fora, levar a minha câmara para a rua e captar algo que possa ter que ver com o fascismo, com Hitchcock ou com qualquer outro tema ou realizador. Eu vou para o exterior, observo e depois moldo. Se os meus filmes são otimistas - e acho que o são muitas vezes - é porque o que existe na rua é interessante..Qual é a primeira memória que tem de Hitchcock? Tinha oito anos, estava em Belfast, onde cresci na década de 1970, durante a guerra [The Troubles], e vi o Psico. Naturalmente, era muito novo para ver um filme destes, mas já tinha visto outros filmes de terror, que na verdade me confortavam perante o medo da guerra: quando vemos filmes de terror, o medo é complexo e tem um sistema de segurança. Mas o que vi em Psico ia para além disso. Pensei "OK, isto é assustador, mas também é arte, é forma". Depois, quando me tornei adulto e realizador, conheci a Janet Leigh, ficámos amigos, e até vimos juntos o Psico e a cena do chuveiro em câmara lenta!.Uma experiência e tanto... Basicamente, foi este filme que me pôs ciente do que é arte. Porque me fez sentir a estrutura - a palavra com que começámos a conversa..dnot@dn.pt