Manuel Graça Dias: "um pensador da cidade para as pessoas"

O arquiteto Manuel Graça Dias morreu este domingo, aos 66 anos

O Pavilhão de Portugal na Expo'92 de Sevilha, o Teatro Municipal de Almada ou a sede da Ordem dos Arquitetos em Lisboa - são algumas das obras que ficam como testemunha do trabalho do arquiteto Manuel Graça Dias (1953-2019). Mas seria redutor limitar o seu legado à obra construída. Ele foi um pensador, um professor, um comunicador - um sonhador. "Um pensador da cidade para as pessoas e da arquitetura enquanto disciplina estética" - é assim que o define Graça Fonseca, ministra da Cultura.

"Um excelente profissional e um excelente comunicador", é como o recorda José Manuel Pedreirinho, bastonário da Ordem dos Arquitetos, acrescentando que Graça Dias teve "um papel importantíssimo na divulgação de muitos aspetos da arquitetura, quer pelos textos que escrevia, com grande capacidade de comunicação e de chegar às pessoas, mesmo aos não arquitetos, um aspeto raro nesta profissão, que se notabilizou no seu papel como professor, que tinha capacidade e comunicação e ligação aos alunos bastante grande".

"Com uma visão humanista e um grande sentido de missão, Manuel Graça Dias era um espírito inquieto e um provocador nato que, com generosidade, se assumiu como figura de proa na dinamização da cultura arquitetónica", diz em comunicado a Trienal de Arquitetura de Lisboa. Era um homem com um "indisfarçável entusiasmo" pela "paixão de uma vida", a arquitetura, como fez questão de dizer o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

"Dificilmente poderia imaginar alguém cuja entrega à arquitetura fosse mais longe, de caráter tão espectral. Entre projetos com o Egas, na Contemporânea, no ensino, atividade editorial, autor de programas de televisão, rádio, projetos curatoriais, etc., etc,... O Manel foi um arquiteto como dificilmente encontraremos outro, um pensador crítico, que exerceu, ensinou e divulgou a profissão que amou profundamente", escreveu numa nota de despedida o arquiteto José Mateus.

O presidente do Conselho Internacional dos Arquitetos de Língua Portuguesa (CIALP) sublinhou a importância da obra e a capacidade de comunicação do arquiteto. "A arquitetura era uma coisa fechada e ele teve um papel central ao trazê-la para o grande público, como cultura de consumo, o que foi essencial para a arquitetura e para a própria classe", afirmou Rui Leão. "Era uma figura incontornável porque tinha capacidade de comunicar com todos", um "professor extraordinário, "com capacidade para promover a liberdade de cada um".

De aluno a professor

Manuel Carlos Sanches da Graça Dias nasceu em Lisboa a 11 de abril de 1953. Um dos seus professores de liceu foi o pintor António Quadros. Na Escola Superior de Belas Artes foi aluno do escultor Lagoa Henriques e também do arquiteto Manuel Vicente, com quem começou a trabalhar, em Macau, depois de se formar, em 1978.

"As aulas de Manuel Vicente, para mim, foram sempre muito reconciliadoras com o que eu "estava à espera", em Arquitetura, mas ainda não me tinha sido proporcionado! Mandava-nos ver coisas - a Cova do Vapor, por exemplo --, observar, fazer fotografias. Depois, projetavam-se os slides na aula e comentavam-se. Foi muito, muito excitante! Mas as aulas não eram só isso, eram aulas sobre muitas coisas, sobre Arte, sobre Arquitetura, mas também sobre a vida, sobre a relação apaixonada da vida com a Arquitetura. Por tudo isso, muito lhe devo", contou numa entrevista.

"Sou muito crítico do ensino que se pratica hoje nos Liceus (...) Ser 'bom aluno' e 'cumpridor' não quer dizer nada, porque geralmente esse estatuto é conquistado quando se é pouco criativo e quando não se questiona muito o 'saber' que o mainstream valoriza", explicou.

Mais tarde, seria ele também professor, na Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa (1985-1996) e na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (1997-2015), e ainda no Departamento de Arquitetura da Universidade Autónoma de Lisboa (desde 1998). O seu objetivo era pôr os alunos a pensar. Testemunhos de ex-alunos garantem-nos que conseguiu: "Todos nós, perante ele, ficávamos seres estranhos mas possíveis, seres que começavam", recordam os arquitetos Daniela Sá e João Carmo Simões.

Em 1979 recuperou, em associação com António Marques Miguel e António de Campos Barbosa Magalhães, uma casa em Lisboa (Edifício na Rua da Senhora do Monte, nº46) que recebe a Menção honrosa do Prémios Valmor e Municipal de Arquitectura 1983.

O Pavilhão de Portugal na Expo'92

Em 1989 ganhou com Egas José Vieira o concurso para o pavilhão portugues na Expo'92, em Sevilha. "Esse pavilhão, apesar do seu ar e dos painéis sandwich com chapa metálica por fora, era completamente artesanal. Até porque tinha de ser desmontável para depois vir para Portugal, de acordo com os pressupostos do concurso, apesar de se ter abandonado essa ideia porque o custo da desmontagem e transporte superava o da construção de raiz", explicou mais tarde numa entrevista.

"Não sendo parecido com nada daquilo que se fazia em Portugal, tentámos ligar-nos ao sítio. Quando fomos ao terreno nem os arruamentos estavam feitos, mas sabíamos o que estava previsto e a partir daí inventámos uma história. Criámos a diagonal que permitia atravessar o terreno, compondo uma praça que dava ao público contacto com a exposição e com o que se pretendia mostrar no interior", contou. Edifício desmontável com cinco pisos e planta elíptica, foi pensado para ser trazido para Portugal após a feira mas acabou por ficar em Sevilha pois o orçamento para a desmontagem e transporte superava o da construção de raiz. Cedido pelo valor de 1 peseta ao Instituto de Fomento de Andaluzia em 1996, foi integrado no Parque Científico-Tecnológico da Ilha da Cartuxa.

Como explicou o arquiteto: "Pretendíamos que o edifício fosse ele próprio um statement e teve algum sucesso, foi muito visitado. Mas o pós-Expo foi muito mau e o nosso pavilhão foi assassinado, vendido por uma peseta a uma empresa qualquer que lhe regularizou as janelas, tirou as escadas rolantes e pintou tudo de branco."

Um arquiteto da cidade

Em 1990 Graça Dias fundou o ateliê Contemporânea, em Lisboa, com Egas José Vieira. Tal como sublinha o Ministério da Cultura, na nota de pesar, este atelier constituiu "uma das mais influentes assinaturas da arquitetura contemporânea em edifícios públicos que revelam uma preocupação sobre a passagem do tempo enquanto elemento constitutivo de uma relação atenta aos usos diferenciados e às transformações estéticas, sociais e urbanísticas das cidades".

Ao longo dos anos, diz o comunicado, Manuel Graça Dias "foi acompanhando a evolução das cidades através de projetos que propunham reorganizações do espaço público, adaptando, concebendo ou estruturando os seus projetos como pontos de diálogo com a possibilidade de a vivência destes ser, ao mesmo tempo, estética e funcional."

Exemplos disto são os projetos da loja de Ana Salazar, na rua do Carmo, em Lisboa; a remodelação do Clube T, no Espelho d'Água, em Belém, a pizzaria Casanova, em Lisboa, ou, mais recentemente, a renovação da sede da Ordem dos Arquitetos nos Banhos de São Paulo, em Lisboa.

Numa entrevista a Ana Sousa Dias, no programa Por Outro Lado, da RTP1, falava, entre outras coisas, de como o metropolitano, pensado para facilitar a mobilidades das pessoas, pode contribuir para que tenhamos "uma relação autista com a cidade": "Entro em São Sebastião da Pedreira e saio na Baixa-Chiado, o que há pelo meio é um buraco negro", diz. Lembrando ainda: "A cidade tem de fornecer conforto, é para isso que as cidades existem, para as pessoas viverem melhor juntas." Incomodava-o que nos esquecêssemos tantas vezes disto.

Ficou famoso o seu projeto, realizado em 1999 e nunca concretizado, para a reconversão dos estaleiros da Lisnave, em Cacilhas. "Uma elegante elipse desenha, sobre a água, um tabuleiro distributivo e panorâmico que 'abraça' o novo sítio e o 'segura' para o lado de Almada, entrelaçando-se, a norte e a sul, no emaranhado da cidade", escreveu Graça Dias sobre este projeto. "Torres enormes ao sol da manhã, torres brilhantes ao sol da tarde, torres de perfis esbeltos, orientadas sobre aquele xadrez vago que antes fora suporte de armazéns e docas, torres violentas como os violentos e enormes navios que encheram a Margueira."

A Contemporânea foi responsável pela conceção do Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, um "Teatro Azul" no meio da selva urbana da cidade. E, mais recentemente, pela remodelação do Teatro Luís de Camões, em Belém, que agora se chama Lu.Ca.

O corpo do arquiteto Manuel Graça Dias, que morreu no domingo à noite em Lisboa com 66 anos, está na Basílica da Estrela na capital, a partir das 18:00 desta segunda-feira. O funeral do arquiteto realiza-se na terça-feira, às 15:30, da basílica para o cemitério dos Olivais, também em Lisboa.

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