Luísa Costa Gomes assina o libreto e Luís Tinoco é o compositor de Relicário Perpétuo, uma homenagem a Luís Vaz de Camões, que estreia quarta-feira, às 18 horas em Lisboa, no Teatro Camões, no Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas, que é também o dia desse poeta maior da língua portuguesa. É uma ópera em português e tanto a escritora como o compositor aceitaram com entusiasmo, pode dizer-se camoniano, assumir esta produção da OPART/Teatro Nacional de São Carlos, que nasceu de uma encomenda da Estrutura de Missão para as Comemorações do V Centenário do Nascimento de Luís Vaz de Camões (1524/1580). A ópera foi pensada para marcar o encerramento das comemorações.É, de facto, uma ópera em português, mas refletindo a realidade cosmopolita que Portugal criou com os Descobrimentos e na qual Camões viveu, o que faz dela uma ópera plurilingue, onde se podem ouvir vários idiomas inusitados, desde o papiamentu, língua hoje falada nas Antilhas holandesas, e que tem o português na base, ao negrillo, ainda mais surpreendente pela sua origem.“É insólito”, realça Luísa Costa Gomes. E explica: “é uma língua criada pelos monges de Santa Cruz de Coimbra, no século XVII, usada nos chamados vilancicos negros e soa a um crioulo africano. Portanto, é uma língua culta, criada por essa comunidade musical de Santa Cruz. É uma língua musical. Eu fui buscar termos a línguas hoje autónomas, como o catalão e o papiamentu, e outras cultas como esta e a língua literária do tempo de Camões. Interessou-me fundamentalmente essa vertente ainda não muito explorada. Porque a ópera é toda sobre isso. É toda sobre as coisas que ficam no passado ou que são inopinadamente trazidas ao presente como o vilancico. As coisas que são reinventadas e outras que ficam necessariamente perdidas”.O título da ópera oferece pistas, mas ouçamos a autora do texto explicar, em poucas palavras o que se passa neste Relicário Perpétuo: “É muito simples. É um relicário, um museu em construção, que se debate com a angústia de estabelecer o valor de futuro de cada coisa no presente. É um museu que está perpetuamente a reinventar-se, a procurar novas relações com o passado. E para o trazer a um novo contexto cultural, linguístico, social, o que quiser. E dar-lhe um novo sentido”.Tudo se passa numa ilha misteriosa do Oriente, o que nos remete logo para a obra de Camões, sobretudo Os Lusíadas, também para a lírica, mas igualmente para a vida do poeta. Ao contrário dos também geniais Shakespeare, que nunca saiu de Inglaterra, e Cervantes, que até esteve na Batalha de Lepanto mas era um homem do Mediterrâneo, Camões conheceu mundo: o olho perdeu em Marrocos; o manuscrito d’Os Lusíadas, diz a lenda, foi salvo de um naufrágio ao largo do Vietname (que não é lenda); Dinamene era a sua paixão chinesa; foi soldado na Índia e no que é hoje a Indonésia; viveu na Ilha de Moçambique.“O protagonista desta ópera é um príncipe da Índia que está a querer estabelecer uma escala de valores, mas não sabe muito bem o que há de guardar e o que há de deitar fora. E toda a ação da peça, se passa à volta desta angústia, deste príncipe que não sabe, que quer guardar tudo e que acha tudo valioso, mas também, ao mesmo tempo, se tudo é valioso, então nada tem valor, porque não se pode guardar tudo. E, portanto, é no fundo esta procura da discriminação transparente, da iluminação que nos permite perceber o que é que no futuro vai fazer sentido para poder guardar no presente. Ou seja, trata-se de mais um paradoxo”, acrescenta Luísa Costa Gomes.Camões, nesta quarta-feira celebrado por uma pátria que preferiu o poeta aos guerreiros para a festa nacional, aparece como personagem, mas, como brinca a autora do libreto, “coitado, falta-lhe um olho, ou está com uma perna deitada abaixo, tem sempre qualquer coisa”. Sobre a música, Luísa Costa Gomes refere a abordagem do compositor ao libreto: “É uma extraordinária qualidade da música do Luís Tinoco, para além de outras, fazer com que a música mantenha a dignidade e a nobreza da figura que nunca é diminuída pela sátira. Não é respeitar como o respeitinho, é respeitar aquilo que em Camões é hoje a meu ver e sempre respeitável, ou seja, o seu génio literário”. E o libreto contempla todos os Camões, o lírico, o dramatúrgico, o epistolar, o épico, etc. e é composto de citações de muitas formas poéticas por ele usadas”. Tanto Luísa Costa Gomes como Luís Tinoco já criaram óperas, no caso da escritora o libreto de White Raven, de Philip Glass, enquanto o compositor assinou Evil Machines, com libreto de Terry Jones, um dos Monty Python, e Paint Me, com libreto de Stephen Plaice. Agora o desafio é a língua portuguesa, mas também, admitem, a redescoberta de Camões, tanto da epopeia como da lírica ou das cartas, ultrapassando dificuldades da primeira abordagem, ainda na escola. “Esta encomenda obrigou-me a ir reler, não só ler o texto que a Luísa criou para o libreto, mas também porque o próprio texto tem citações, e se elas são retiradas, quer seja da lírica, quer seja do teatro, da correspondência do Camões, isso obrigou-me também a expandir o meu conhecimento, que, em muita medida, estava limitado àquilo que é a cartilha do que nos foi dado nos nossos anos de escolaridade. Para mim foi uma oportunidade para descobrir dimensões de Camões que eu ainda não conhecia”.Diz ainda Luís Tinoco, relembrando também a questão das línguas, e do humor, “na realidade, estou a fazer uma ópera em português, mas com uma mistura de derivados da nossa língua. Portanto, é mais um desafio suplementar em cima daquilo que já foi pegar neste texto da Luísa, que é muito desafiante, porque é muito rico, é muito bem-humorado, acho que ela conseguiu fazer uma coisa que me interessou: pegar na herança de Camões, homenageá-lo, respeitá-lo, mas, ao mesmo tempo, trazer também um lado de um humor, de uma certa leveza, que permite sairmos daquilo que seria expectável num encargo tradicional de celebração de uma figura, um grande nome, aquela ideia de se fazer uma abordagem muito formal, de celebração de efeméride”.Segundo o compositor, “o libreto acabou por seguir caminhos pouco previsíveis, e isso, para já, foi muito estimulante. A dificuldade de quando temos um texto que aborda Camões, mas também traz um humor e, às vezes, um certo nonsense para o libreto, é de como é que nós conseguimos fazer isso mantendo a sobriedade, a dignidade e o respeito pela fonte e pelo material original. O humor, às vezes, é uma coisa muito perigosa, porque facilmente pode cair na graçola, na piada. E não é isso que a Luísa faz. Acho que a Luísa faz um humor muito sério, parece uma contradição, mas, na realidade, o humor pode ser uma coisa muito séria. E, portanto, para mim, com a música, o meu desafio no que se refere a esse registo, especificamente, foi conseguir que a música também acompanhasse essa dimensão, complementando-a, expandindo-a, mas também sem deixar que a música resvalasse para o lado fácil.”.Nesta estreia de Relicário Perpétuo, Joana Carneiro dirige os músicos da Orquestra Sinfónica Portuguesa, Nuno Carinhas assume a encenação e em palco vai estar, através da imaginação de Luísa Costa Gomes e Luís Tinoco, o nosso herói Camões, mas também um príncipe, um vizir e até um faquir. Uma hora de divertida homenagem ao poeta é a promessa. .A eterna língua de Camões.Camões, contemporâneo do nosso desencanto