Luís Represas, que morreu esta quarta-feira, 22 de julho, aos 69 anos, entrou na memória coletiva portuguesa com os Trovante, banda que formou em 1976 com João Gil, João Nuno Represas, Manuel Faria e Artur Costa. Estrearam-se com os álbuns Chão Nosso (1977) e Em Nome da Vida (1979), e para o crítico de música Nuno Galopim, com o grupo houve "a tomada de consciência de que o país profundo, as raízes e as ideias podem ser um caminho para criar uma canção moderna".Surgiram dois anos após o 25 de Abril, ainda durante um processo de normalização da vida política, social e cultural, numa altura que se criava algo que "não existia" no país, que era "uma cultura jovem", sublinha o também diretor-adjunto da Antena 2. .Morreu Luís Represas, aos 69 anos, uma das vozes mais marcantes da música portuguesa.Surgiram pouco depois de bandas de rock emergente portuguesas, como os GNR, UHF, Heróis do Mar ou Táxis, mas com diferenças. "Os Trovante conseguem criar uma ideia de modernidade para a canção popular portuguesa, não na música elétrica, mas nos espaços da canção de raiz popular, chegando igualmente a uma nova geração de ouvintes. Eles alargam aquilo que o boom do rock português estava a fazer, trazem uma ideia de modernidade a um público consumidor de música jovem, mas com outras raízes e outras formas musicais".Na senda da Banda do Casaco, "os Trovante acabam por caminhar, de certa forma, sobre as mesmas heranças, cruzando as personalidades dos músicos que lá estavam, o Luiz é um deles, e escreveram na nossa memória coletiva algumas canções que ainda hoje nos recordamos", diz Nuno Galopim.Poucos portugueses não conhecerão canções como Perdidamente, 125 Azul, Saudade ou Timor, mas a escolher uma como a mais emblemática, Nuno Galopim aponta para esta última. "Escolher uma é difícil e isso não se deve fazer nunca. Mas, pelo peso que teve, político e social, de mobilização da atenção de um povo, Timor, no final da década de 1980, acaba por ser uma canção que entra na nossa memória coletiva, é uma canção dos Trovante, e quis-nos dizer qualquer coisa, alertou-nos, mobilizou-nos, e entrou claramente nas nossas vidas e não mais nos abandonou".Os Trovante acabaram por separar-se em 1992 e Luís Represas prosseguiria uma carreira a solo. Para Nuno Galopim, "não se pode ignorar a sua assinatura vocal, que é única e distintiva, e que moldou as suas canções".Com o fim do grupo, o músico procurou outros horizontes. "No pós-Trovante e a solo, essa voz e o seu talento criativo procuram outros alicerces, outros estímulos, em primeiro lugar em Cuba e mais tarde alargando-se a outras partes da América Latina. O Luís foi alguém que esteve permanentemente inquieto em busca de motivos para continuar a fazer canções".Importante no percurso criativo de Luís Represas foi João Gil, "um par criativo absolutamente notável", diz Galopim, "nos Trovante, é certo, mas mais adiante. Depois de um processo de reconciliação voltaram a gravar até um disco juntos". .Luís Represas deixa 50 anos de canções entre os Trovante e em nome próprio.Funeral de Luís Represas realiza-se na sexta-feira