Os Trovante terminaram em 1992, mas ainda no passado mês de março encheram duas das maiores salas de espetáculos do país, em Lisboa e no Porto, em quatro apresentações que marcaram os 50 anos desde a criação da banda. Concertos esgotados que revelam o impacto do grupo criado por Luís Represas, João Gil, Manuel Faria, Artur Costa e João Nuno Represas – a que se juntariam Fernando Júdice, José Salgueiro e José Martins –, na memória coletiva nacional, com canções como Perdidamente, 125 Azul, Balada das Sete Saias, Saudade ou Timor. Luís Represas, que prosseguiu uma carreira a solo quando os Trovante acabaram, morreu hoje, 22 de julho, aos 69 anos, vítima de doença prolongada, mas continuou a subir ao palco quase até ao fim da vida.“O Luís gostou imenso de revisitar o Trovante, ele falou-me disso. Não nos podemos esquecer que o Trovante é o seu ADN. O Luís nasceu dali e fez o seu caminho. E ele fez questão de dizer isso, porque tinha memória”, diz, ao DN, Flávio Serpa, da agência A-MA, que trabalhou com Represas ao longo de 30 anos. O artista tinha agendados para abril de 2027 concertos nos Coliseus de Lisboa e Porto para comemorar meio século da sua carreira a solo. .Para Luís Represas, o palco era um espaço sagrado, um verdadeiro “altar”, como afirmou em 2024 no podcast Posto Emissor. Flávio Serpa confirma a dedicação do músico à sua arte. “O Luís esteve ativo até ao último concerto que deu em Sintra, no dia 15 de maio. Ele foi muito corajoso, sempre foi, mesmo quando tinha um outro problema menos grave, ele nunca deixou de subir ao palco. Eu nunca cancelei um espetáculo do Luís. Poderíamos ter chuva, mas fazíamos sempre o espetáculo. O Luís cantava, tocava à chuva, fazia tudo brilhantemente. Ele foi um lutador, um corajoso e adorava estar em palco. Foi corajoso até ao final”, diz Flávio Serpa, para quem a palavra que melhor o define é “coerência”. “E no meio da música e até na própria vida, uma das qualidades mais difíceis de manter é a coerência, e o Luís sempre a manteve. Coerência aqui também se traduz em equilíbrio. Equilíbrio nas relações, equilíbrio na forma como vê o mundo, equilíbrio na forma como se relaciona com as pessoas. E, normalmente, quando uma pessoa é coerente, existem os dois lados. Há uns que compreendem isso e outros que compreendem menos”.Para Nuno Galopim, o músico “foi alguém que esteve permanentemente inquieto em busca de motivos para continuar a fazer canções”. Começou com os Trovante dois anos após o 25 de Abril, numa altura em que o país estava ainda em convulsão política e social, pouco depois de surgirem no cenário musical bandas de rock emergente portuguesas, como os GNR, UHF, Heróis do Mar ou Táxi, mas com uma diferença. “Os Trovante conseguem criar uma ideia de modernidade para a canção popular portuguesa, não na música elétrica, mas nos espaços da canção de raiz popular, chegando igualmente a uma nova geração de ouvintes. Eles alargam aquilo que o boom do rock português estava a fazer, trazem uma ideia de modernidade a um público jovem consumidor de música, mas com outras raízes e outras formas musicais”.O crítico musical e também diretor adjunto da Antena 2 diz que “não se pode ignorar a sua assinatura vocal, que é única e distintiva, e que moldou as suas canções”, dentro e fora dos Trovante. . Com o fim do grupo, o músico procurou outros horizontes, nomeadamente do outro lado do Atlântico. “No pós-Trovante e a solo, essa voz e o seu talento criativo procuram outros alicerces, outros estímulos, em primeiro lugar em Cuba e, mais tarde, alargando-se a outras partes da América Latina. O Luís foi alguém que esteve permanentemente inquieto em busca de motivos para continuar a fazer canções”, considera Nuno Galopim.O último álbum que o artista gravou foi Miragem, em 2024, e o primeiro disco a solo intitulou-se Represas (1993). Foi gravado em Cuba e dele saíram êxitos como Feiticeira (com Pablo Milanés), Fora de Tempo e Neva sobre a Marginal.Rui Veloso escreveu uma música para esse álbum, recorda o músico ao DN. “A Vez Mais Próxima do Fim, eu fiz a música e ele a letra. É uma música que eu, se calhar, ainda vou gravar, tenho estado a pensar nisso. Não tem a ver com o que se passou agora. Há uns anos que eu penso, vou gravar essa música, à minha maneira”.Rui Veloso lembra também que gravou a canção Má Fortuna (do álbum Auto da Pimenta) em dueto com Luís Represas, em 2012, para o álbum Rui Veloso & Amigos. .Mas Rui Veloso recordará Luís Represas, acima de tudo, como um amigo com quem convivia frequentemente. “Quase que nem falávamos de música. Falávamos de outras coisas. Ele era um amigo muito querido de há muitos anos, de há mais de 40 anos. E isso para mim é o que está à frente de tudo”. “Era uma das pessoas boas que eu conheci na vida. Um homem bom. Era um tipo sempre bem disposto, sempre positivo”, acrescenta.Mas o músico não deixa de sublinhar que “era uma voz absolutamente inconfundível, única. Era daquelas pessoas que dão uma nota e sabemos que é ele. Portanto, tinha essa característica que muito poucos têm”.Luís Represas nasceu no dia 24 de novembro de 1956, em Lisboa, e queria ser médico. Numa entrevista à Antena 1, admitiu que a matemática e o 25 de Abril fizeram com que não fosse esse o caminho que acabaria por trilhar. “A música caiu no meu colo”, afirmou em 2024 no podcast Posto Emissor. Era pai de quatro filhos, dois dos quais com Margarida Pinto Correa, com quem foi casado. Manteve-se dono do Xafarix, um bar histórico de Lisboa criado nos anos 1980 e ponto de encontro de músicos, até à sua morte. . Muitos foram os êxitos de Luís Represas que ficaram no ouvido dos portugueses, mas houve uma canção que mexeu com a sociedade. “Escolher uma canção é difícil e isso não se deve fazer nunca. Mas, pelo peso que teve, político e social, de mobilização da atenção de um povo, Timor, no final da década de 1980, acaba por ser uma canção que entra na nossa memória coletiva, é uma canção dos Trovante, e quis-nos dizer qualquer coisa, alertou-nos, mobilizou-nos, e entrou claramente nas nossas vidas e não mais nos abandonou”, diz Nuno Galopim.O governo de Timor-Leste não esqueceu o contributo do artista para a sua luta. Em comunicado, lembrou que “Luís Represas deu voz aos que não podiam contar ao mundo as atrocidades de que eram vítimas durante o período da ocupação indonésia. Esta canção tornou-se então símbolo da luta pela liberdade e pela autodeterminação do povo timorense, contra a injustiça que lhe era infligida”, salienta o Governo timorense, considerando Represas um “amigo de longa data”.O músico, que em 2005 foi distinguido pelo Estado Português com a Ordem de Mérito - grau de Comendador, foi lembrado pelo Governo e pelo Presidente da República, António José Seguro, que disse que perdeu um amigo. “Há vidas que terminam. Há músicas que pertencem à eternidade. As músicas do Luís Represas são dessas. Porque há artistas que deixam discos. Outros deixam memória. Os maiores deixam um país a cantar. O Luís Represas será sempre um dos nossos maiores. E Portugal, em dor, canta as suas canções". Para o Presidente da República, “partiu o homem, ficou a voz”.O velório do músico realiza-se esta quinta-feira, na Basílica da Estrela, em Lisboa, e será público entre as 16h00 e as 22h30. O funeral realiza-se na sexta-feira, depois de uma cerimónia religiosa às 15h00, naquela basílica, e é reservado à família. .Morreu Luís Represas, aos 69 anos, uma das vozes mais marcantes da música portuguesa.Luís Represas deixa 50 anos de canções entre os Trovante e em nome próprio