Visitei um dia um templo zoroastrista. E começo a ler o seu livro e reconheço a tríade “ bons pensamentos, boas palavras, boas ações”. Estas palavras de Zaratustra são princípios éticos aplicáveis a qualquer pessoa?É um princípio universal. Se analisar aquilo que os grandes mestres espirituais deixaram, encontra isso. Em palavras diferentes, mas encontra. Em Jesus, em Buda, em Confúcio, em Lao Tse. É uma mensagem absolutamente essencial. É o ser humano perceber que tem capacidade para controlar o seu pensamento, para controlar as suas palavras e controlar os seus atos. Assumindo a responsabilidade daquilo que pensa, daquilo que diz e daquilo que faz.Quando fala de Lao Tse, Buda, Confúcio e Jesus, sendo eles de épocas e de culturas diferentes, sente que há elementos em comum?A mensagem dos mestres é similar. O que é diferente é o que os ditos seguidores foram juntando. Infelizmente, juntaram fábulas, regras, dogmas. Mas se se focar nas mensagens dos mestres, elas são límpidas e puras. A mensagem de Jesus não é muito diferente da de Buda, nem da de Lao Tse, nem da de Confúcio. O que tenho pena é que os ditos seguidores tivessem deturpado a mensagem. E aconteceu com todos. Deturpando até ao negócio. Eu cresci em Portugal, fui educado catolicamente, e imaginava que havia algum negócio na religião católica, e no cristianismo em geral. Quando visitei o Oriente fiquei absolutamente desapontado. Vendiam também figurinhas, não com a imagem de Jesus, ou de santos, mas de Buda. E as caixas de esmolas também existem no budismo, e noutras religiões orientais. Podem ter um tamanho maior, mas o princípio é o mesmo. Não tem nada a ver com a mensagem dos mestres. Buda é retratado com imagens douradas. O que isso tem a ver com um príncipe que se despoja e que na sua simplicidade transmite os princípios que entende básicos? Jesus seria o mais simples dos simples. E hoje é adorado em altares de talha dourada, em templos principescos. Ele foi poucas vezes ao templo e para dizer aos vendilhões que não podia ser assim.Quando fala do todo universal, da Terra como um mundo escola, há aqui a defesa de uma ética de preservação do planeta, de uma relação saudável com a natureza?Infelizmente, o ser humano tornou-se o maior predador à superfície da Terra. Predador das espécies animais e vegetais de uma forma terrível. Quando nós ponderamos bem os grandes valores universais, percebemos, nas partículas, uma mesma energia universal. São partículas de uma energia universal semelhante a todos os seres humanos, iguais em essência, mas também semelhante aos animais com que nos relacionamos, iguais em essência. E à medida que vamos percebendo que somos iguais em essência, percebemos um respeito pelo outro em todas as suas formas, não só nas formas humanas, mas também nos animais e nos vegetais, ou até nos minerais. Ou como dizem os mestres, amando o outro como gostamos de ser amados.Refere com admiração figuras do século XX: Einstein, Gandhi, Martin Luther King, Mandela, Madre Teresa. O que as une?A capacidade de respeitar e de amar. Gandhi, na sua simplicidade, assumiu-se num exemplo, mesmo para a cultura dominante naquela época. Não era inglês. Era indiano. Mas tornou-se um exemplo que os ingleses deviam seguir. Mandela esteve 20 e tal anos encarcerado sem culpa formada, mas lembro-me perfeitamente da imagem à saída da prisão. Um olhar tranquilo, como se saísse de uma esplanada onde esteve a tomar café. É preciso ser muito forte. É preciso ter a capacidade de respeitar e de amar. Mandela manteve-se amigo de alguns dos carcereiros. Qualquer um destes seres são exemplos que acho fantásticos. Nenhum deles era perfeito. Mas são grandes exemplos em quem nós devemos colocar a nossa atenção. Veja Madre Teresa. A senhora era pequenina, feinha, nasceu pobre, teve poucos estudos. Decidiu ir viver num sítio ainda mais pobre, onde havia gente mais infeliz, mais desafortunada, para se dedicar a todos. O que é que esta mulher tinha para oferecer? Tinha o respeito pelo outro e o amor ao outro.Algo presente no livro, mesmo quando as ideias são mais contra aquilo que é o senso comum, é a preocupação de buscar a ciência, e de sublinhar a pesquisa que os cientistas fazem sobre fenómenos considerados muitas vezes pseudocientíficos. Essa preocupação tem a ver com a sua formação como médico, com alguém que liderou uma farmacêutica e preside a uma fundação que promove a ciência?Eu sou um homem de ciência. Cresci a querer fazer investigação. Ainda fui seis anos professor assistente na Universidade do Porto e estava vocacionado para fazer investigação científica. E quando deixei a minha carreira para me dedicar à empresa da família, sempre me mantive interessado pela ciência e foquei a atividade da empresa no desenvolvimento científico, isto num país onde raramente se aposta no desenvolvimento científico. Portanto, fiz isso e vejo que as coisas até estão bem e conseguimos coisas bonitas ao serviço da saúde humana. Agora, para ser franco, o meu interesse começou quando eu era jovem.O interesse pelo espiritual?Pelo espiritual, mas, perspetivando as coisas, sob o ponto de vista científico. Eu, com 12 anos, pedi à minha mãe para me deixar não ir à missa. Eu tinha sido educado catolicamente. A minha mãe e a minha avó eram católicas, mas os meus avôs, os dois, eram agnósticos. O meu pai não era nada praticante. A minha mãe disse está bem, durante uns tempos não vais. E eu dei comigo aos meus 13, 14, 15, 16 anos a ler bastante, na área das religiões, da filosofia, da espiritualidade. E vivia um dilema. Quando chegava aos mistérios, aos milagres, aos dogmas, para mim eram intragáveis. Mas, ao mesmo tempo, quando via a ciência a renegar tudo isso, a dizer que não existia, eu perguntava não existe como? Existe, está descrito desde a antiguidade, sob os nomes mais diversos. Na minha vizinhança, nos meus amigos, ia presenciando. Há coisas que existem. E que a ciência não aceitava. Eu achava que o que importava era o caminho do meio. Era aceitar-se os fenómenos que estão descritos e procurar estudá-los sob o rigor do método científico. Essa foi uma das razões por que eu fui para Medicina. Era importante que a humanidade se esclarecesse sob o ponto de vista espiritual. Esclarecendo os mistérios e os milagres. O meu objetivo quando vou para Medicina é poder fazer investigação nessas áreas, e ainda estive seis anos a estudar e ensinar na área da Psicofisiologia, na área das neurociências. Mas com a ideia de passar para a Parapsicologia. Surgiu-me uma oportunidade de fazer o doutoramento em Cambridge na área da Psicofisiologia. Mas o professor que me ia receber em Cambridge também tinha uma costela para a Parapsicologia. E numa conversa, disse-me: você vem para aqui e fica três anos a trabalhar na Psicofisiologia, mas não abre a boca sobre a Parapsicologia, porque senão eles chumbam-no. Faz o seu doutoramento e depois, se quiser, nós abrimos aqui uma linha de investigação na área da Parapsicologia. Dou-lhe cobertura.Os tais tabus que existem mesmo na ciência.Isto foi há quase 50 anos. E hoje já há uma abertura maior. Mas isto para lhe dizer de facto que a minha preocupação desde essa altura era a via da ciência. O meu pai faleceu aos 50 anos, e eu tinha 21. Ainda fiz o curso, ainda entrei na universidade e era para aí que eu estava orientado. Mas a empresa, entre 74 e 78, caiu um bocado e estava no vermelho, um vermelho ligeiro. E eu comecei a pensar que se fosse fazer o doutoramento, que era o sonho de um jovem, ir para o Reino Unido ou para os Estados Unidos, se calhar a empresa ia soçobrar .Teve de ser pragmático.Sim, tive de ser pragmático. Tinha enorme admiração pela obra do meu avô, o fundador da Bial. Tinha uma enorme admiração pela obra do meu pai, o continuador, e sentia que se fosse para Inglaterra se calhar a empresa ia soçobrar. E pensei, bem, se o meu objetivo era dar um contributo para a investigação científica nesta área, e se agora a vida me está a empurrar para a empresa da família, ok, vou para a empresa. Mas quando tiver uns tostõezitos que possa pôr de lado, vou apoiar os investigadores que estão a fazer aquilo que eu desejava fazer. Pensando assim, bem, eu sozinho, se calhar, não podia fazer muita coisa. Se puder apoiar uma dúzia de investigadores, se calhar vão além do que eu iria sozinho. . Isto é ao longo da sua vida, ou quando cria a Fundação Bial?Isto é, aos meus 27 anos, quando compro a maioria do capital e empenho-me até à ponta dos cabelos para me dedicar à empresa. Não esqueço a minha paixão, o meu objetivo de dar um contributo para o esclarecimento das áreas das neurociências e das áreas da espiritualidade. E as coisas foram acontecendo. Quando eu tinha 32 anos, criámos o Prémio Bial. E aos meus 42 anos criámos a Fundação Bial. Convidámos o Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas para se agregar à Fundação Bial e constituir uma entidade independente que pudesse gerir prémios e bolsas de investigação. É uma instituição que apoiou 1900 investigadores. De 31 países. A vida é uma coisa linda. Eu almejava apoiar uma dúzia. A vida proporcionou que tivéssemos apoiado 1900, metade na área das neurociências e outra metade na área da Parapsicologia.No livro fala de investigações na área da Parapsicologia, e no caso da reencarnação há o estudo com crianças que descrevem vidas passadas. Apoiou estas investigações? Sim, muito. A Fundação Bial, de dois em dois anos, organiza um simpósio no Porto que se chama Aquém e Além do Cérebro e convida os seus bolseiros a vir apresentar os trabalhos. E convida também um conjunto de investigadores de topo, quer nas neurociências, quer na Parapsicologia, a vir ao Porto, e, por acaso, agora, de 8 a 11 de abril, vão discutir um tema que é Experiências de Fim de Vida. E vamos ter no Porto Jim Tucker, o diretor, durante 20 ou 25 anos, do departamento de Psiquiatria da Universidade da Virgínia, que é o departamento que melhor tem estudado as supostas vidas passadas. Reformou-se e vem ao Porto apresentar trabalhos absolutamente notáveis. No final dos anos 60, resolveram constituir uma equipa de médicos e psicólogos para estudar as crianças que contavam supostas vidas passadas. O professor Stevenson, o fundador deste departamento, resolveu dedicar-se só a estudar as crianças porque, de facto, é nas crianças entre dois e três anos e os seis, sete, oito anos que isto mais acontece. Dizia que a criança é muito mais fidedigna. Anunciaram ao mundo que estavam a estudar esses casos e pediram para quando médicos ou psicólogos encontrassem crianças com essas características, os chamassem para estudar. Desde aquela altura, deslocam-se por todo o mundo. Chegam junto à criança e registam tudo o que diz. Evitam fazer perguntas. E depois vão procurar junto dos familiares, dos amigos, se há alguma situação que possa explicar a história que a criança conta. Vamos imaginar uma criança que vive na Índia e que diz que viveu em França. Vão ver se algum dos familiares ou amigos de família esteve emigrado em França. Ou se há na televisão uma telenovela passada em França. E se há algo que pode explicar, com alguma criatividade, a história que a criança está a contar, desistem do assunto. Mas e se nada explica a história, o que a criança conta? Quando eu era fulano. Quando eu vivia em tal cidade, no tal país. Quando eu tinha a profissão de não-sei-do-quê. Tudo situações relativas a uma vida anterior. É claro que os pais normalmente começam a dizer cala-te lá e elas calam-se. Mas outras não, continuam. E então é que as levam ao pediatra ou ao psicólogo. E aí é que as crianças são estudadas quando chamam os investigadores da Virgínia. Desde os finais da década de 60, estudaram quase três mil casos. E em 68% dos casos, encontraram pessoas que existiram há 50,100, 200 anos com as características que a criança evoca. Através da certidão de nascimento, da certidão de óbito e dos documentos mais diversos e através do testemunho de familiares daquelas pessoas. Não é um parece que. Existiu realmente uma pessoa com aquele nome e as características que a criança evoca. Os professores Stevenson e Tucker não dizem que está demonstrada a teoria da reencarnação. Agora, o que está demonstrado é que há crianças que evocam vidas passadas que existiram. E este é um indício de que a consciência é algo que se separa do corpo. Este é um indício de que a consciência poderá continuar para além da morte física. Cientificamente, isso não está demonstrado. Mas, aparentemente, a melhor explicação é a continuidade da consciência além da morte física. E a hipótese de vir à terra vezes sucessivas é a melhor explicação para esta situação. É preciso dar continuidade à investigação de uma forma séria. Até porque não é só por esta via que há indícios da existência de uma consciência autónoma relativamente ao corpo físico. É por outras vias, pelas chamadas experiências de quase-morte, pela utilização de algumas características de mediunidade em contacto, dizem os médiuns, com os seres já falecidos e pela terapia regressiva em que o paciente é projetado para trás e vê o que vivenciou em supostas vidas passadas.Quando dá uma palestra sobre o espiritual, como é que as pessoas reagem?Há de tudo. Há pessoas que devem achar que aquele passou-se um bocado, não faz sentido aquilo que diz. E há outras que respeitam e admiram eu assumir a súmula de uma posição espiritualista. Não sou religioso, não sinto necessidade de práticas religiosas. Aquilo que defendo é que a ciência devia investir mais neste estudo. Admitir a existência de vida além da morte física é o que faz 90% da humanidade. As religiões praticamente todas. A maioria da humanidade admite a teoria da reencarnação. Tenho vendida uma centena de milhares de livros, dos diversos livros. E acho que não é propriamente pelas minhas qualidades de escrita. Não é que eu escreva mal, não. Acho que as pessoas têm curiosidade. E a abertura começa nas universidades. Na série da RTP Para Além do Cérebro, foram entrevistados 52 cientistas de universidades europeias e americanas. Os primeiros investigadores, a nível universitário, foram nos anos 30. Depois, a Universidade de Duke criou um departamento de parapsicologia. E, a partir daí, outras universidades. O número de doutoramentos em Parapsicologia hoje é enorme. Algumas centenas. A sociedade foi evoluindo.Fala também da meditação no livro. É algo que pode fazer bem às pessoas, independentemente das crenças?É muito útil procurar durante alguns minutos desvincular-se desse turbilhão de coisas que há à nossa volta. Do mundo conturbado em que vivemos. Durante alguns minutos a pessoa separar-se disso. Relaxar. Meditar. Encontrar-se consigo própria. Há diversas técnicas de meditação. Às vezes perguntam qual é a melhor? Cada um descubra a que gosta mais. Eu gosto de me encontrar pela via do silêncio. .Abdulrazak Gurnah: “O encontro entre Europa e África Oriental está bem documentado, mas o que se sabe foi escrito por europeus”.Manuel Alegre: “As reparações históricas são uma coisa absurda, porque a História não se rebobina, não anda para trás”