Lulu Santos: "No Brasil, as pessoas compreendem a música pelo coração ou pelo traseiro"

Atua esta quinta-feira no Coliseu de Lisboa após espetáculo ontem no do Porto. Lulu Santos tem uma carreira deste 1980, acabou de lançar um novo álbum, Pra Sempre, e está há 8 temporadas à frente do reality show The Voice Brasil.

Não é a primeira vez que Lulu Santos vem a Portugal, mas desta vez é para subir aos palcos dos Coliseu do Porto e de Lisboa com a banda e divulgar o seu mais recente trabalho - Pra Sempr e. Acha que o público principal será composto pela colónia brasileira mas espera por portugueses também. Em 2004 esteve em Lisboa, onde atuou no Pavilhão Atlântico, no Festival Galp Energia Ao Vivo, ao lado de bandas como os UB40 ou de Carlinhos Brown, entre outros.

Há duas semanas encheu um dos palcos do Rock in Rio no Rio de Janeiro com cem mil pessoas: "Mas já toquei para públicos muito superiores, como em vários fins do ano na praia de Copacabana - um milhão de pessoas -, na Avenida Paulista para três milhões e no Brazilian Day em Nova Iorque, onde grande parte da 6ª Avenida estava preenchida por brasileiros."

Nos últimos oito anos, além de continuar a carreira, é o apresentador/júri do The Voice Brasil: "Estou ali porque sou cantor e compositor e não por outro motivo." Um projeto que o interessou mal soube dele: "Quando estreou, assisti à primeira emissão nos EUA e disse logo: Isso aí eu faria. Dois anos depois veio o convite e já estamos na oitava temporada." Um reality show onde não faltam polémicas protagonizadas por Lulu Santos e com o público a brigar com o cantor: "Não é só comigo, também com certos cantores porque é um programa que vai eliminando cantores e as claques não gostam. Já me acostumei a essas críticas""

Lulu Santos falou com o DN a antecipar os espetáculos de hoje e amanhã em Portugal.

Vai repetir no Porto e em Lisboa o alinhamento da digressão Pra Sempre?

Não tem porquê ser outro, vamos comportar-nos exatamente como se estivéssemos fazendo o show aqui no Brasil. Como foi no Rock in Rio há duas semanas!

O que mudou na música brasileira e no Brasil desde que iniciou a carreira em 1980?

Nossa quanto tempo! Mudou tanta coisa. Prefiro falar sobre música [evitar a política], uma área que ficou muito ampla e diversa e que se expandiu muito. Nessa época não se falava tanto da música sertaneja, tão pouco dessa linha mais urbana e pop que é o funk carioca, que tomou uma dimensão popular e tem grandes figuras. Ou seja, mudou quase tudo.

Os cantores mais antigos saíram do mapa?

Todos continuam existindo, eu até toquei agora no Rock in Rio pela primeira vez uma canção do Zé Ramalho, que é um desses cantores dos que surgiram na década de 1970. Não há um esquecimento, mas as reviravoltas no pop são sucessivas e foi-se de onda em onda até chegar ao momento atual.

Está à espera de ter muitos brasileiros que fugiram de Bolsonaro nos coliseus?

Espero que haja muitos brasileiros, inclusive os que não gostam de Bolsonaro. Não sei quantos espetadores fazem parte dessa diáspora, em que alguns podem ter-se sentido mal com o regime atual e outros podem ter-se sentido mal com o regime anterior também. A polarização é muito grande, no entanto espero que todos apareçam pois não faço distinção.

Neste novo disco, Pra Sempre, dez temas são de sua autoria. Porque não assinou a 11º?

Porque não... Deu-me vontade de cantar essa porque o disco é todo dedicado ao relacionamento com o meu marido e conta as estações da nossa paixão. Cada uma das canções escritas no espaço de oito meses reflete um momento do nosso relacionamento, desde a descoberta até ao desandar da paixão e a confirmação da estabilidade. A exceção é The Look of Love, uma música super-regravada de Burt Bacharach, de que fiz uma versão minha, de um jeito robótico, porque é uma história de amor também. O disco pode ser lido como um romance porque as canções são os capítulos.

Vai tocar também os sucessos mais antigos?

Evidentemente. São duas horas de show, tenho a consciência de que vou tocar largamente para a colónia brasileira, e essa quer ouvir tais músicas. Nunca fiz os meus shows de outra forma, são longos e incluem praticamente tudo o que as pessoas identificam comigo, lhes dá prazer na repetição e esperam ouvir. É como sexo, repetitivo mas na maioria das vezes é bom. E mesmo quando é ruím é bom também. Para os portugueses que nos quiserem dar o prazer de assistir, será quase tudo novidade.

Se não tocar os sucessos ninguém lhe perdoa?

Se formos ver um show do Paul McCartney e ele não cantar Yesterday vai ser uma grande deceção para o público que foi assistir, por isso eu vou tocar aquilo com que as pessoas querem e com que se identificam. No Brasil, as pessoas compreendem a música pelo coração ou pelo traseiro - ou é para sentir ou para dançar. Eventualmente, pelas duas coisas, mas é importante que as pessoas vivenciem o momento em que aquela música foi importante para elas na sua história pessoal. As pessoas dizem-me isso muito commumente, "ah não sabe como esta música foi tão importante para mim". A música é memória e a trilha sonora das vidas, tanto as de há 30 anos como as atuais. Provavelmente tem alguém que está se apaixonando com a canção Pra Sempre deste novo disco e que só tem seis meses de idade.

Hoje é-lhe mais fácil compor ou precisa de respeitar os ritmos que os jovens ouvem mais hoje em dia?

Eu tenho sobretudo de me respeitar, bem como à minha necessidade de expressão, por outro lado tenho interesse em todos esses ritmos. A música pop é um pouco o meu futebol, mas tudo me interessa: as sequências eletrónicas, a influência da música negra norte-americana e tudo o que acontece no mundo inteiro. No Brasil, nós temos uma forma muito própria de música de dança, o tal funk, que é um género com o qual eu venho brincando há 15 anos. Já gravei funk, já interagi com esses artistas e, até durante dois anos e meio, tive o principal DJ de punk carioca tocando na minha banda. A modernidade interessa-me claramente e não tenho de compor tutelado porque sou impelido a fazer essas coisas por ter interesse nelas.

A única dependência que tem é da guitarra?

Dependencia... É verdade que sou um guitarrista, então o instrumento está sempre ali mas nem sempre de uma forma frontal. A guitarra é tanto uma possibilidade de ser incluída nesse léxico do pop-rock mas também na exclusão dela na música mais eletrónica. No disco Pra Sempre, eu venho brincando com formas de colocar a guitarra como se fosse um sample em vez de tocada. Como se fosse um trecho pré-gravado e tocando de forma sequencial como se faz hoje em dia. Mas no espetáculo não tem como escapar, a grande parte da obra é feita em cima da sonoridade da guitarra elétrica, portanto não estará fora. Mas já me arrisco a fazer algumas canções sem instrumentos.

Se tivesse de escolher uma única música do seu repertório qual seria?

Estou apaixonado por Radar, que é a canção com mais projeção neste lançamento e que a editora está a levar para as rádios. É uma canção bonita e de que gosto.

Espetáculos nos coliseus

Na digressão europeia, Lulu Santos será acompanhado por Sérgio Melo (bateria), Jorge Ailton (baixo), Hiroshi Mizutani (teclado), Tavinho Menezes (guitarra) e Robson Sá (vocal).

Porto

Hoje, quarta-feira

Coliseu Porto Ageas, 21.00

Bilhetes: De 30 a 45 euros

LISBOA

17 de outubro, às 21:30

Coliseu dos Recreios

Bilhetes: De 30 a 55 euros

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