Na década de 1980, com a eclosão da chamada Quinta Geração, liderada por autores como Zhang Yimou e Chen Kaige, o cinema da China inaugurou uma frondosa e multifacetada frente de reflexão sobre momentos emblemáticos da história do seu país. Já no século XX, os respetivos herdeiros empenharam-se numa revisão crítica do período maoista e das suas heranças político-sociais, numa palavra, culturais - o filme Plataforma (2000), de Jia Zhang-ke, sobre um grupo de atores a trabalhar em plena Revolução Cultural, pode servir de símbolo “fundador” de tal tendência. Agora, com a estreia de Living the Land - O Vento é Imparável, de Huo Meng (nascido em Taikang, na província de Henan, em 1984), deparamos com um novo capítulo desse processo em que as memórias da população anónima ecoam como metáfora política.Distinguido no Festival de Berlim com um Urso de Prata (melhor realização), Living the Land é sobre esse “viver a terra”, ou “viver com a terra”, sublinhado pelo seu título internacional. Obviamente não por acaso, a terra, ou melhor, os elementos paisagísticos adquirem uma fundamental função descritiva e simbólica, aliás admiravelmente tratados pela direção fotográfica de Guo Daming - estamos em 1991 e há toda uma população rural que resiste em ambiente de grande austeridade e árduos trabalhos, com muitos dos seus habitantes a procurar alternativas de vida nas cidades.Curiosamente, Huo Meng faz-nos entrar nesse universo através do olhar de Chuang (Shan Wang), um menino de dez anos que, por assim dizer, “ficou para trás”: ele é o terceiro filho de um casal que, com os dois primeiros descendentes, partiu para a cidade. Para lá das outras crianças, Chuang convive sobretudo com idosos cujas atividades quotidianas têm tanto de nostalgia de um paraíso perdido (que, em boa verdade, nunca existiu) como de dor e sofrimento decorrentes das tarefas do dia a dia - o que, por amarga ironia, contrasta com a serena beleza dos campos de trigo.O filme evita transformar Chuang num “símbolo” separado dos outros. De facto, não há personagem central. Vamos descobrindo a dinâmica de um coletivo cujo espírito solidário não exclui episódios cruéis como o casamento a que é forçada Xiuying (Zhang Chuwen), de 21 anos, tia de Chuang. Tudo isto é tanto mais contundente, e também emocionalmente envolvente, quanto Huo Meng elabora uma teia ficcional de personagens que conserva a respiração paradoxal de um documentário. Dito de outro modo: também aqui o realismo surge como um método a ser revalorizado. .'Valor Sentimental'. A magia do cinema está nos rostos.'Frankie e os Monstros'. Frankenstein regressa em desenhos animados