Da Eslovénia chega-nos a produção que representou o país na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional de 2025, sem ter chegado às nomeações. O título, Little Trouble Girls, é o plural de uma canção dos Sonic Youth, escutada no genérico final (Little Trouble Girl surgiu no alinhamento de Washing Machine, álbum lançado em 1995). Quem são, então, estas “raparigas problemáticas” que a canção anuncia e o filme transforma em protagonistas de uma agitada odisseia sexual, ora dramática, ora rocambolesca?As peripécias do filme realizado por Urska Djukic (nascida em Ljubljana, em 1986) podem resumir-se através do diálogo que se estabelece entre duas jovens que integram o grupo coral da sua escola: Lucija (Jara Sofija Ostan) e Ana Maria (Mina Svajger). A primeira lida, ou não sabe como lidar, com um despertar sexual que a faz oscilar entre medo e fascínio; a segunda, claramente mais experiente ou mais informada, observa a colega com um misto de humor e desejo de proteção. Tudo isto, enfim, acontece durante um retiro, para ensaios do coro, nos espaços de um convento de freiras...Como muitos outras “fábulas” sexuais destes nossos tempos, vigilantes e obsessivamente normativos, a complexidade do desejo feminino constrói-se a partir de uma negação central. Dito de outro modo: os homens (que trabalham nas obras que estão a decorrer no convento) não existem como verdadeiras personagens, sendo totalmente objetificados como incidentes “decorativos”. A exceção é o maestro do coro que se distingue por uma obstinada neutralidade, pairando acima das tensões que vai observando.Não que isto impeça a afirmação das singularidades das duas personagens centrais, defendidas pela subtileza das respetivas intérpretes. Seja como for, não deixa de ser desconcertante que Little Trouble Girls comece por valorizar o calor do seu realismo, literalmente à flor da pele, para desembocar na facilidade esquemática dos minutos finais — na prática, qualquer impressão realista acaba por ser decomposta num “simbolismo” que, em boa verdade, em termos narrativos, é estranho à sensualidade dos momentos mais elaborados em que Lucija tenta “racionalizar” o desejo que a invade.Neste balanço de contrastes nem sempre bem resolvidos, registe-se a ironia que resulta do facto de os cânticos de Bach e as canções do folclore esloveno desembocarem na poesia amarga dos Sonic Youth — a pulsão erótica está, afinal, na música..'Aos nossos Amigos'. À procura das imagens de uma geração