O cineasta dos bairros periféricos parisienses volta à carga com este Os Indesejáveis, crónica de uma revolta da população de um bairro de habitação social escorraçado pela autarquia através de repressão estatal. Ladj Ly de novo a filmar o barril de pólvora francês que é agora também tema e preocupação em Portugal. Eis as palavras de um cineasta cultor de um cinema irado mas que nesta entrevista optou por um tom comedido. Trabalhou com a mesma equipa depois de Os Miseráveis. Foi como que uma continuidade? Sim, trabalhei com os amigos - é aquele sentimento de nunca deixar de estarmos juntos. Depois de Os Miseráveis foi muito bom continuar a trabalhar juntos. Há 20 anos que trabalhamos juntos. Trata-se de uma continuidade..O que é que quis transmitir com Batiment 5/ Os Indesejáveis? Com Os Miseráveis a ideia era começar uma trilogia. Queria ter três volumes para contar a história daquele bairro que é a minha história. Fazer somente um filme era muito complicado se quisesse meter lá tudo dentro. A ideia deste era falar sobre habitação e o terceiro ser sobre os anos 1990 e um tema que ainda não desenvolvi. Mas depois do sucesso de Os Miseráveis tivemos aquela pressão de como será recebido o filme seguinte e toda a expectativa inerente. Acabei por dizer não a muitas propostas..Assume que o ativismo social faz parte da sua proposta cinematográfica? Espero que este filme seja uma arma política. Acho que Os Miseráveis fez mexer a sociedade aqui em França. O filme foi falado e mostrou ao mundo as dificuldades com as quais as pessoas vivem nestes bairros de periferia. Os políticos não querem saber destes temas e fazem promessas que não cumprem. A verdade é que Os Miseráveis mexeu com alguma coisa e hoje há mais diversidade no cinema francês, cada vez surgem mais filmes de bairros. Este novo filme fala da crise da habitação, tema que vai ser recorrente nos próximos anos. É um tema a explodir que não toca apenas as pessoas dos bairros, toca em todos, mesmo fora de França - é o tema do momento no mundo inteiro. Todas as grandes cidades estão a lidar com isto. Quis falar deste tema universal, havia que ser abordado….Ladj Ly, anomalia ou novo sistema do cinema francês?.Sente que há algo de missão no seu cinema? Sente agora algum peso de responsabilidade social? Quando era criança nunca pensei em ser cineasta, nem sabia o que era o cinema. Comecei no cinema porque tinha alguns amigos que faziam filmes, foi um acaso. Mas a partir do momento em que me vi com uma câmara percebi que poderia fazer um montão de coisas! Senti que essa câmara podia passar mensagens e dar-me voz. Todavia, é claro que o meu sucesso mudou muita coisa. A partir de Os Miseráveis desenvolvi muitos projetos e tornei-me escutado e é óbvio que sinto a responsabilidade - ao fim e ao cabo estou a filmar o meu bairro: não posso produzir algo à toa. Hoje não posso desiludir, aquelas pessoas contam comigo, conhecem-me bem. O meu propósito é fazer combate, denunciar….Sente que Cannes e Veneza ao recusar este filme talvez tenham receado o impacto do petardo político? Infelizmente as coisas são como são! Isto dos festivais ou se é escolhido ou não, embora confesse que tenha ficado surpreendido. São as regras do jogo, creio que irei voltar!.Mas com a ascensão da extrema direita fazer este tipo de cinema tão “engajado” é cada vez mais difícil? Sim, sinto que é cada vez mais difícil de vermos cinema político. É mais fácil arranjar o OK para filmar uma comédia ou um filme de grande orçamento de entretenimento. Torna-se muito complicado fazer cinema de autor, mesmo em França, com toda a nossa tradição de obras independentes. Tenho a convicção que esses filmes politizados estão em vias de extinção. Isso das plataformas ainda complica mais tudo. Mas não vou desistir..Não receia que todos esses “filmes de bairro” de que há pouco falava, feitos após o seu sucesso de Os Miseráveis acabem por entrar na fórmula? Que caiam no cliché da representação dos “indesejáveis”? Sim, é a vida. Infelizmente vieram filmes a mais, abriu-se uma porta, provavelmente criei um monstro. Ainda assim não é por isso que agora temos de abandonar essa via por muitos filmes-cliché que apareçam. .Em Paris