Este novo livro de poesia, Invenção da Europa, publicado pela Nova Mymosa, em que o grande tema é, claro, a Europa, lembra-nos a certa altura que “Ásia, África, Europa, nomes femininos, geografias complexas, sujeitas à atualização”. O que é a Europa?A Europa é tantas Europas que já houve quem sugerisse uma continuidade de Lisboa a Vladivostok. A minha síntese de “geografia sujeita a atualização” tem que ver em primeiro lugar com a história, que neste Invenção da Europa é mastigada e inclui o Reino Unido, e também a Rússia. É uma poesia do conceito de Europa, um contrapor das ideias de cansaço e vetustez que associamos à Europa com a sugestão de invenção, a possibilidade do novo apesar do peso, da cauda do antigo. É uma Europa continente, emancipada da extensão da Ásia vizinha. E onde termina? Não é claro. Se lhe procurarmos os limites, a Europa esbarrará com uma multidão de geografias que reclamam o estatuto de fronteira da Europa. Há todo um espetáculo de Eurovisão feito dos limites ambíguos da Europa. No meu quarto romance, o Quando Éramos Peixes, situo um casal engenheiro-arquiteta a edificar uma ponte entre a Europa e a Ásia. Essa ponte nunca chega a ser terminada, numa espécie de semi-maldição, como se o abraço entre Europa e Ásia fosse a geografia mais difícil, mais indefinida.Este Invenção da Europa não é poesia possível de fazer por alguém que não estuda ciências sociais, pois não?Há pessoas que me perguntam: “como é que tu fazes um livro de poesia chamado Invenção da Europa? Na verdade, será uma trilogia poética, virá uma Explicação do Brasil e uma América: Uma Teoria, sobre outras duas geografias para mim fundamentais, difíceis e fundamentais.No seu História do Século XX, prémio INCM/Vasco Graça Moura, publicado há uma década, há um momento inicial em que anuncia “morre o Presidente e morre Vitória”, fala de um novo presidente e de ursos. Consigo identificar o assassinato de McKinley e a ascensão de Teddy Roosevelt a presidente. E, claro, a Rainha Vitória. Este 1901, de certa forma, é aquele ano em que a Grã-Bretanha, no fundo a Europa, passa o testemunho aos Estados Unidos enquanto líder do mundo?Essa passagem de testemunho é ainda mais clara no seguimento da Primeira Guerra Mundial. Mas, sim, há no fim da Era Vitoriana uma mudança simbólica, chega ao fim o grande protagonismo europeu e anunciam-se uns Estados Unidos cada vez mais investidos no mundo global. Os Estados Unidos começam a mergulhar no mundo e envolvem-se, para o bem e para o mal, com aventuras e desventuras fora de fronteiras.Ao mesmo tempo que há a morte de uma soberana octogenária, os Estados Unidos elegem o seu mais jovem presidente, até então. É simbolicamente a afirmação da juventude da América versus a velhice da Europa?Sim, e essa juventude e essa velhice não nos abandonaram mais, até hoje. A imagem pública da Rainha Vitória, de recato, compostura, talvez reflexão, contrasta com Roosevelt, homem dos grandes espaços, caçador, que nos deu o Teddy Bear. Há aqui um princípio de América no mundo que vem embrulhada numa mensagem e num apelo popular, até pop, uma mensagem direta, desempoeirada.Pegando nesta relação umbilical entre a Europa e a América, um dos poemas lembra como “à América oferecemos o primeiro nome de um europeu”. Américo Vespúcio. Esta Europa e América, agora na ordem do dia às avessas, estão condenadas a ser aliadas?Sim, é quase anedótico, mas interessante, a América é o único continente que recebeu o nome de uma figura histórica concreta. E logo um homem europeu! A relação é hoje em dia desconfortável, mas o etos dos Estados Unidos e o da Europa têm tronco e raízes comuns, se não ramos. A Europa alimenta uma espécie de complexo de Édipo ao contrário, em que é o pai que tem vontade de matar o filho, pai e filho entre aspas, naturalmente. A América representa uma juventude irrequieta e irresponsável que atropela o status, o prestígio, a pose aristocrática do pai, da “terrinha”. Essa juventude, e esse poder da América, a Europa tem muita dificuldade em controlá-lo. É apelativo e confortável alimentar o discurso de que a América não sabe pensar, de que não sabe comer à mesa, de que a América é isenta de sofisticação. O atual presidente dos Estados Unidos alimenta na perfeição essa velha miopia europeia, e muitos europeus vão atrás disso, o desprezo pela América é uma forma de consumo de luxo. Há imensos mal-entendidos nessa visão peregrina de que a América é uma espécie de experiência limite de boçalidade, que o melhor que tem a fazer é terminar. Não há ainda substituto para a América, não é ainda possível uma outra melhor América, e muito desta América entronca absolutamente com a alma da Europa, se não já com o coração.Há, neste Invenção da Europa referências subtis à geografia e à história. Por exemplo, a queda do Muro de Berlim, a ideia poética de que as pessoas fizeram cair o Muro de Berlim para comer bananas. Falamos da Europa que ficava a leste da Cortina de Ferro, onde comer bananas era um luxo. A reunificação da Alemanha e da Europa faz-se sob o signo do capitalismo, não apenas da democracia. Aconteceu ali o concretizar de uma utopia, um fim da História, como apontou Francis Fukuyama?Existiu esse momento de otimismo excessivo, certamente em relação ao capitalismo. Gosto de incluir as respirações gémeas do capitalismo e da democracia na minha literatura, é algo natural, que faço com gosto, com atenção. Também a presença da grande e da pequena história, a unificação da Alemanha ao lado do apetite pelo imediato, pelo que faltava, essa luta surda entre os grandes sistemas e as riquezas comezinhas. Presente, por exemplo, na “tese” recente de que as mulheres da Alemanha comunista gozavam de mais prazer do que as mulheres da Alemanha capitalista. É tão literário que dói. Ou seja, tudo funcionava muito mal mas, imaginem, suspeitamos de que as mulheres tinham mais prazer. É um combate feroz, o marco com valor estável ou o prazer feminino. A poesia beneficia de trazer à tona esses combates invisíveis, caricatos mas significativos, entre a grande e a pequena política..Esse fascínio pelo capitalismo que seduziu os habitantes de Berlim Oriental, alude a um outro tema atual, que é a Europa como ponto de atração para gentes de outras partes. Uma Europa Eldorado. Como é que a Europa lida com esta capacidade de atrair?Uma das âncoras desta Europa é que todos os países à sua volta, praticamente todos, têm a ambição de se lhe juntar. As pessoas e os países. A combinação razoável de democracia e capitalismo que a Europa representa, são um íman para indivíduos, povos, nações. Como se a Europa tivesse uma natureza profunda, digna, e de futuro, que está muito para além das vicissitudes atuais. Esses países nos limites da Europa devolvem-lhe ao espelho uma confiança de que a Europa se deve apropriar. Anseia-se pela Europa pela prosperidade e pela segurança social, mas também pelo seu modo de vida. Mesmo os novos europeus que são oriundos de culturas conservadoras e tradicionalistas sabem que os seus filhos e os seus netos serão diferentes por crescerem como europeus na Europa. Muitas famílias imigrantes escolhem isso também, um modo de vida mais aberto, mais cosmopolita, onde a fala e as relações são mais livres, onde as mulheres têm mais direitos. É uma escolha subtil, sussurrada, mas é uma escolha.Num dos seus romances, A Mãe e o Crocodilo, na Companhia das Letras, aborda literariamente a relação entre a Europa e a América. Há ali duas personagens muito interessantes, John Weissmuller, o campeão de natação que se tornou o Tarzan do cinema, nascido em Timișoara, na atual Roménia. Weissmuller é um americano que ainda é da Europa, contrastando, por exemplo, com outra figura no romance, o John Wayne cowboy de Hollywood que, como diz, é já um ex-europeu. A América tem isto, americanos ainda europeus e americanos ex-europeus?Sim, muito. Embora nós, europeus quase só lá vejamos ex-europeus. Nos meus romances é evidente essa visão irónica, profunda, da Europa e dos Estados Unidos como irmãos desavindos, como se um dos irmãos, o irmão América, tivesse sido dado para adoção e nos reaparecesse em vestes de novo rico, mas mal vestido. Don Delillo dizia que a Europa é a edição em capa dura e a América é a edição de bolso. Muito do que marcou a América, esse malfadado veio ex-europeu, tem ainda uma ligação umbilical ao que somos como Europa, e até ao que desejamos ser, espaço de liberdade e de prosperidade.José Gardeazabal é um nome já conhecido na literatura portuguesa, mas seria possível sem a experiência de vida do José Tavares, professor de Economia Política? Estes temas, a política, a história, a geografia e a economia, tão presentes na poesia e nos romances, alimentam-se da sua experiência de vida?A questão de quem sou e do que escrevo, tanto a geografia do onde vivi como o estudo das matemáticas e das ciências sociais, a ligação entre a lógica e o humano, a história e a economia, estão inelutavelmente refletidas, digeridas, nos romances, principalmente, mas nesta poesia também, nesta Invenção da Europa. Vejo a minha literatura como um animal de duas pernas, a perna do pensamento e a perna da ironia. A ironia é a perna que coxeia, muitas vezes é a que ilumina mais, a mais perspicaz, a mais capaz. A ironia é um dos filões maiores da literatura, e uns bons óculos para digerir a história. Sim, a literatura alimenta-se bem da minha experiência de vida. E transforma-a. O primeiro facto literário, talvez, o ter vivido a minha primeira infância em Luanda, de forma que a língua portuguesa para mim é pátria não agarrada à geografia, nem à nacionalidade. É uma língua que me habita, não que me identifica. E há essa experiência da América, entre outras geografias, em que eu sempre me senti mais e muito europeu. Este Invenção da Europa não seria possível sem essa experiência dos exteriores à Europa. Transporto uma experiência da América que também é crítica, mas que rejeita a visão superficial de uma Europa que observa a América de longe, através de uma espécie de telescópio, se não microscópio ao contrário, que quer afastar em vez de compreender. A América cresceu e, arrisco, amadureceu, também em oposição mental a uma Europa das elites e das hierarquias, e essa oposição tem méritos.Basta ter preferido ter um presidente do que ter um rei.Exatamente, e George Washington recusou várias vezes ser rei, porque muito lho pediram. Foi um salto político no escuro, uma inovação. A Europa olha a América com lunetas já antigas, lunetas do tipo “quem são estes? Estes são filhos de quem? Eu sou certamente europeu, mas rejeito essa visão elitista quando desinformada e fácil, feita à medida de um certo conforto burguês. Nos meus romances, é quase inevitável brincar com essa oposição Europa-América. É um prazer, uma inclinação, mas também uma obrigação, uma honestidade que está na ordem do dia. No meu próximo romance, Mulher no Espaço, a sair em fevereiro, as sombras entrecruzadas de uma Europa e de uma América são uma das paisagens de fundoNo romance Origami encontro uma referência curiosa à América, que é um continente descoberto por vários povos. Inclusive, os indígenas são descendentes de quem veio de fora, mas os vikings podem ter descoberto, os portugueses também, oficialmente foram os espanhóis, neste caso via um italiano, Colombo. Porque é que toda a gente reivindica a descoberta da América?O facto geográfico que mais mudou a história do mundo foi a descoberta da América. Foi uma surpresa impressionante: a caminho das riquezas da Índia, ao encontro do comércio com uma civilização milenar, aparece um continente do nada, como por engano, que nos oferece toda esta proximidade e distância, esperança e desencanto, comércio e canções, capitalismo e ativismo, um grande caldeirão que dura até hoje. A América materializou-se numa oportunidade completamente nova, inesperada e muito robusta. Claro que muito desse entusiasmo passou por cima da presença dos nativos americanos, embora quando pequenos, a brincar aos índios e cowboys, muitos escolhemos ser índios. Não esqueçamos isso, essa estranheza também nos contou histórias, apresentou-nos uma América como um lugar especial de conflito e violência, mas também de liberdade.Agora, há um desafio novo. Se tivesse de escrever uma história do século XXI, provavelmente ia aperceber-se de que era um século chinês. Ou não? A minha pergunta tem aqui um trocadilho. O mundo que vem aí será cínico com S e também com C?Ao contrário do que antecipávamos há não mais de 20 anos, pode ser um mundo fundamentalmente sínico, com S. Será um mundo diferente, diferente do período de grande força dos Estados Unidos, mas continuará a ser um mundo comercial, tão ou mais capitalista e tão ou mais materialista. O contrário do que enfrentámos na Guerra Fria, onde um império capitalista e comercial estava diante de um Bloco de Leste que era proto-capitalista, fazia umas trocas. Os chineses só manterão influência se continuarem a ser motores de comércio. Mundo cínico com C? Também. Foi um choque para a Europa, apanhada em contrapé, porque pensava já estar a viver a felicidade do pós-tudo, numa outra dimensão, e agora o impulso que vem dos Estados Unidos e da China é um puxão como que para trás, para o material, o imediato, o duro. A Europa acusou muito a América disso mesmo, de ser comercial, materialista, imediatista. De repente, lemos na estrela que vamos ter de beber um pouco da mesma poção. É um choque..Entrevista: "Com a crise na Europa mesmo quem tem dinheiro não o quer gastar"