Padre Pio foi um padre canonizado em Itália por supostamente curar aleijados e fazer milagres. Neste revistar de Abel Ferrara o importante não são os atos milagrosos do santo padre. Os milagres ficam à porta, mesmo quando vemos Cristo a tocar-lhe com a sua mão ensanguentada. Para o realizador italo-americano o importante é a via sacra do próprio padre, alguém confrontado com a dúvida e as luzes da treva..Depois do falhanço clamoroso que era Sibéria (2019), um embaraço que terá sido o ponto mais baixo da filmografia de Ferrara, e Zero and Ones (inédito entre nós), Padre Pio é um pedido de desculpas formal, o regresso ao seu cinema sofisticadamente provocador e capaz, uma vez mais, de estabelecer um discurso com uma ideia filosofal de integrar as grandes questões da fé e da religião como material de reflexão cinematográfica. Um Ferrara que continua radical na forma: este não é um biopic da ordem: mandam-se às urtigas procedimentos narrativos e lógicas estabelecidas de storytelling, ao ponto da própria figura do padre não ser o centro das atenções..Encontramos Pio (interpretado com raiva por Shia LeBeouf) a juntar-se a um mosteiro numa pequena aldeia da Itália pós 1.ª Guerra Mundial. É lá que cada vez sente na pele o tormento das dúvidas e das tentações negras, ao mesmo tempo que se acompanha os movimentos dos aldeões nas vésperas de eleições supostamente livres: de um lado os socialistas cheios de ideias e sonhos, do outro, os fascistas a organizarem-se para não deixar o seu poder à solta. Política e religião numa Itália à beira de algo verdadeiramente trágico..A errância estrutural do filme é assumidamente artesanal - os tempos de cada sequência são desiguais, os sotaques ingleses dos atores italianos são propositadamente beras e o dispositivo aleatório das orações em latim é um tour de force dos mais pesados que se possam imaginar. Nesse sentido, é obra para poder alimentar uma profunda reflexão sobre os caminhos mais pesados da vocação católica e é aí que custa entender porque não foi lançado nos cinemas numa altura próxima da Jornada Mundial da Juventude e apenas seja agora remetido ao sistema VOD das operadoras....O anti-biopic radical e selvagem de uma figura como Padre Pio é também e, acima de tudo, um poderoso megafone antifascista, mesmo que imperfeito e teimoso nos excessos. Mas é aí que o filme lembra a rebeldia do cineasta nas suas obras mais extremistas, em especial nas questões da culpa cristã, assunto que Bad Lieutenant- Polícia sem Lei já encenava tão magistralmente..Padre Pio funciona ainda como uma homília dos sentidos. Tem imagens (às vezes, a buscar uma certa transcendência) e momentos que nos obrigam a uma abstração concreta, para lá do contexto temporal. Sempre com a câmara de Ferrara à procura da liberdade dos seus atores (e por lá passa uma magnífica Asia Argento), com maior ou menor tremideira..dnot@dn.pt