A segunda oportunidade amorosa está implícita no título Volveréis. Em português, Voltareis. Mas no princípio é o estranho contentamento de uma separação que define um casal: iluminados por uma boutade do pai dela, que diz que os casais devem celebrar quando se separam, e não quando se juntam, Álex (Vito Sanz) e Ale (Itsaso Arana) fazem figura de maluquinhos perante os amigos que reagem atónitos ao convite para uma festa. “Estamos bem”, repetem eles, talvez incorporando um ideal de cinema, pouco exequível na vida real. Segundo filme do espanhol Jonás Trueba a chegar aos nossos cinemas, depois de Têm de Vir Vê-la (2022), e na sequência da retrospetiva da sua obra, que teve lugar em novembro no LEFFEST, Voltareis vem estabelecer o laço definitivo com um dos cineastas mais especiais deste milénio. Um criador discreto (mesmo sendo filho de outro cineasta bem conhecido do público português, Fernando Trueba) e uma mente pulsante e culta que vem construindo um cinema “de amigos” composto por um microcosmo de atores, referências, ideias e repetições, Jonás inspirou-se desta vez num livro de um filósofo americano muito querido dos cinéfilos – Buscas da Felicidade, de Stanley Cavell – para trazer o género da comédia de recasamento aos nossos dias, e à Madrid do seu coração. Um gesto criativo que contém uma lindíssima homenagem ao pai enquanto navega a riqueza das palavras de Cavell, aqui tão límpidas na alegria dos diálogos como na filosofia concreta da “igualdade de consciência” entre um homem e uma mulher. Sentados à conversa com o DN, no Cinema São Jorge, em Lisboa, aquando do LEFFEST, Jonás Trueba e a sua atriz companheira, Itsaso Arana, percorreram os estágios emocionais deste filme cheio de vida aos pedaços. .Uma das expressões-chave no material de divulgação de Voltareis é “comédia de recasamento”. E ainda antes de vê-lo, lembrei-me de outro filme do Jonás, La Virgen de Agosto [2019], onde se cita este livro de Stanley Cavell que tenho nas mãos: Buscas da Felicidade – A Comédia de Recasamento em Hollywood. Foi uma ideia que ficou a pairar? Jonás Trueba: Sim, de algum modo. Em La Virgen de Agosto fala-se deste Cavell mais no sentido da “busca da identidade”. A personagem do filme [interpretada por Itsaso Arana] anda à procura de si mesma. E em Voltareis fica mais específica esta ideia da busca da felicidade – nos filmes. Trata-se de um autor e de uma proposta de cinema que continuam a interessar-me bastante, e juntou-se a isso a vontade de fazer um filme a partir de uma frase solta: “deve-se festejar as separações”. Quando sugeri à Itsaso e ao Vito [Sanz] que escrevessem o argumento, apercebi-me rapidamente que estávamos em vias de fazer uma comédia de recasamento. Porém, no início não era evidente... Depois dei-me conta de que estava ali a essência desse género. Um género, de certa forma, inventado por Cavell através da eleição de um conjunto de clássicos de Hollywood. Itsaso Arana: E assim como Cavell faz esta reflexão a posteriori, acho que a irmandade entre La Virgen de Agosto e Voltareis também é a posteriori. O Jonás pensa os filmes de uma forma muito intuitiva. E, de certo modo, acredito que o cinema funciona como premonição: há sempre sementes do futuro em cada filme, uniões secretas. Aquela frase sobre as separações é verídica ou foi inventada para propósitos de ficção? JT: Não, é uma frase verdadeira! Foi algo que o meu pai [Fernando Trueba] me disse quando eu era muito jovem, e que, talvez instintivamente, guardei na cabeça durante muitos anos. Aliás, comentei-a várias vezes com amigos e amigas, e as respetivas namoradas e namorados, em ocasiões de separação, sugerindo-lhes que fizessem uma festa... Mas a verdade é que, na maioria das vezes, era muito óbvio que os casais não estavam preparados para essa celebração – a tristeza sobrepunha-se a tal ideia um pouco utópica. E precisamente por ser um pouco utópica, aproxima-se mais do cinema. Os filmes são matéria orgânica, vão-se fazendo a partir dos pequenos saberes que acumulamos da vida. Regressando ao seu pai: sentiu que era necessário ter o “proprietário” da ideia presente no filme? Se fosse um ator a interpretá-lo retiraria verdade à origem da frase? JT: Para mim, tinha que ser ele. Até porque isto se prende com um velho desejo meu de trabalhar com ele, de filmá-lo. E Voltareis proporcionou-o naturalmente, desde logo, porque entronca num género de filmes clássicos que me fazem muito pensar no meu pai. Em pequeno, vi várias destas comédias antigas de Hollywood graças a ele e à sua cinefilia. Outro pormenor: nessas comédias, há quase sempre a personagem do pai da esposa ou da noiva... Então, tudo se conjugou. Nem sequer colocámos a hipótese de ter outro ator. IA: De todo. Há aqui uma homenagem à herança de cinema que o pai lhe transmitiu. A herança de um amor ao cinema em geral, e as estas obras clássicas em particular. Nesse sentido, há muitas camadas na presença do Fernando – que, convém dizer, também é uma pessoa com bastante humor, e isso ajudou ao espírito e atmosfera do filme. JT: Sim, há qualquer coisa de justiça poética. E como é que se lida com a herança de um género tão peculiar? JT: Estávamos conscientes de que não poderíamos pretender imitar estas comédias incríveis e sofisticadas, ainda que, por acaso, tenhamos voltado a vê-las juntos, eu, o Vito e a Itsaso... .Não há imitação, claro, mas há diálogos que conseguem captar a energia desses clássicos. IA: Sim! JT: Pois, como dizia, durante uma semana (e foi muito bonito), em cada noite, projetámos os sete filmes que constam no livro do Cavell... IA: Antes de escrevermos o guião. JT: Eu queria que eles os tivessem bem frescos na memória, embora também conscientes de que iríamos trabalhar à nossa maneira e no nosso contexto: Madrid, 2024, etc. Não é só uma questão nostálgica, é algo que diz respeito ao presente, à nossa idade, conflitos, dúvidas e crises existenciais. IA: O maior desafio era encontrar um tom que, recorrendo a esta herança, a digerisse de forma a que pudéssemos sentir que fazíamos parte dela... humildemente. Lá está, trata-se de inspiração, utopia e, porque não, divertimento! Acho que é o filme mais “cinematográfico” que fizemos juntos. Jonás, no seu cinema há sempre vestígios da própria rodagem. É como que uma marca estilística. E neste há, inclusive, um “filme dentro do filme” a ser realizado pela personagem da Itsaso. É importante para si mostrar a estrutura do ato de criação? JT: Não falamos muito disso entre nós, mas é uma forma de transparência, de honestidade. É mostrar o trabalho tentando encontrar o ponto de equilíbrio para não fazer um filme “intelectual”, e sim artesanal. Esta diferença é crucial para mim, porque não gosto da palavra “metaficção”. Enquanto espectador, gosto de sentir o filme a fazer-se. A mesma coisa quando leio um livro: gosto de sentir o momento da escrita. IA: No fundo, o facto de, dentro do filme, se estar a criar outro filme também ajuda a retratar um casal em que são ambos criadores [ela realizadora, ele ator]. De resto, temos algo a dizer sobre isso. Às vezes habitamos uma espécie de confusão entre o cinema e a vida. No caso do par de Voltareis, há esta complexidade específica do trabalhar juntos, que faz com que, por vezes, lhes falte o ar; é mais difícil regenerar o ambiente. A própria Itsaso, entretanto, tornou-se realizadora. A sua primeira longa-metragem, Las Chicas Están Bien, foi exibida há pouco aqui em Lisboa, na sessão de encerramento do Olhares do Mediterrâneo – Women’s Film Festival... IA: É verdade. Quando estávamos a começar Voltareis, eu tinha acabado de rodar o meu filme, e o Jonás e o Vito assistiram a todo o processo criativo. Acho que isso também inspirou a minha personagem e contribuiu para que escolhêssemos a fase da montagem (raramente retratada em cinema) como o momento propício a uma espécie de melodrama... (risos) Isto porque sou muito impaciente e eles perceberam que aquela tinha sido a etapa mais complicada para mim. JT: Depois da experiência vivida, foi a altura certa para ela encarnar esta personagem da realizadora. Por falar em experiência, considera que este pode ser o seu filme mais “sábio”, inclusive no sentido de conjugar perfeitamente leveza e melancolia? JT: Talvez. Diria que é a vida. Essa melancolia está em nós. E se nos meus primeiros filmes olhávamos para ela com ironia – tinha então muito presente uma frase de Milan Kundera que fala do paradoxo da nostalgia nos jovens –, agora sinto-me numa encruzilhada estranha. Não me sinto nem velho nem jovem. IA: É como disse: há melancolia, mas também leveza, humor. A espaços, rimos da nossa própria melancolia. Penso que isso deixa margem ao espectador para se conectar com a tristeza da separação, mas a partir de um lugar mais amigável. Algures no final, usa-se a expressão “amor-repetição”. É outra maneira de dizer “cinema-repetição”? JT: Sem dúvida! Geralmente associa-se a repetição à rotina, como algo mau, entediante, mas eu não acho a repetição monótona. Para mim, repetição é emoção. É casa, é amor. E porque não repetir? Volto uma última vez a Cavell para vos perguntar se concordam com a perspetiva dele de que os filmes nos fazem melhores pessoas. IA: Acredito que sim, porque abrem janelas para o mundo. Pessoalmente, os filmes fizeram-me gostar mais da minha própria vida, enquanto forma de me manter curiosa e unida aos outros. Ou seja, rodar ou ver filmes recorda-me sempre que há outros seres humanos a quem acontecem coisas semelhantes... ou estranhas. JT: Para mim, é cada vez mais fundamental o cinema que nos dá vitalidade. Há muitos filmes de denúncia, filmes “necessários”, “importantes”, tudo bem – mas aquilo que contêm também se encontra nos jornais. A mim interessa-me os filmes que dão vontade de viver. E já não há assim tantos... O certo é que todos eles nos fazem melhores, sim. São uma forma de conversação e de estar no mundo.