Jim Carrey aos 60. O homem (sempre) na Lua

Já foi um conquistador de bilheteiras, pela comédia física, revelou-se um brilhante intérprete de drama, sucumbiu à depressão, regenerou-se pela pintura, escreveu um livro a meias, e ainda este ano volta ao grande ecrã como Dr. Robotnik. Quem é o Jim Carrey sexagenário?

Não há mais verdade lá fora do que há no mundo que criei para ti. As mesmas mentiras, o mesmo engano. Mas no meu mundo, tu não tens nada a temer." Estas palavras de Christof/Ed Harris, no final de The Truman Show - A Vida em Direto (1998), que procuram demover Truman/Jim Carrey de atravessar a porta que dá acesso ao mundo real, são uma boa metáfora da existência do próprio Carrey.

Um ator que encontrou no cinema o porto seguro para fazer rir os outros com os seus trejeitos (malgrado o drama por trás deles), mas que de quando em vez, como a personagem do filme de Peter Weir, atravessa o limiar para apanhar ar fresco e tentar apreender a realidade sem recorrer ao Prozac. Não se admirem por isso se em entrevistas ele disser - como já aconteceu - que "Jim Carrey não existe". Calma, não é um doido varrido quem fala. É apenas alguém que ganhou uma nova perspetiva sobre si próprio, de modo a gerir dentro de si o homem do passado, do presente e do futuro. Vimo-lo na última eleição presidencial americana a fazer a caricatura de Joe Biden para o Saturday Night Live, com a genica amenizada e óculos de aviador, mas temos sentido falta de mais "Carrey show". E, no entanto, apesar de meio ausente, ele não tem estado propriamente parado.

Aos 60 anos (o aniversário assinala-se a 17 de janeiro), James Eugene Carrey, o canadiano que se fez estrela da comédia na década de 1990, dividindo o mundo entre aqueles que adoram o seu humor físico à Jerry Lewis e os que não suportam essa faceta apalermada, já tem um livro de "ficção autobiográfica", escrito a quatro mãos com Dana Vachon, e encontrou na pintura uma espécie de terapia criativa. Foram estas duas atividades que o ocuparam durante os quatro anos do seu afastamento do grande ecrã, na sequência da morte da ex-namorada em 2015. Anos em que se deixou ficar no mundo real, para avaliar à distância o grande "Truman Show" da sua carreira e combater a tendência para a depressão.

Lançado em 2020, Memoirs and Misinformation pode então ser visto como a forma que Carrey encontrou de se dar a conhecer, sem cair no aborrecimento do relato cru típico das autobiografias. O protagonista da história chama-se Jim Carrey, pois claro, é um ator milionário que já passou do seu auge e começa a mergulhar no medo da solidão, da morte e do esquecimento. Alguém que recebe poucas propostas para filmes, que tem conversas sinceras com o melhor amigo Nic Cage, que pensa ter resolvido o vazio do coração com uma amante chamada Renée Zellweger, que vislumbra a sua reabilitação cinematográfica com o argumentista Charlie Kaufman, mas que acaba por perceber que todas e quaisquer expectativas são feitas de vapor. Para o Carrey de carne e osso, a verdade emerge desta fantasia, como esclareceu numa entrevista ao The New York Times: "Jim Carrey neste livro é realmente um representante - ele é um avatar de qualquer pessoa na minha posição. Do artista, da celebridade, da estrela. Este mundo e todos os seus excessos e gula e egocentrismo e vaidade. Algumas coisas são muito reais. O leitor só não saberá quais são. Mas mesmo as qualidades ficcionais do livro revelam uma verdade."

O nascimento de um comediante

E a verdade de Carrey é a da criança que tomou o gosto pelas imitações fazendo caretas diante do espelho do quarto. Do adolescente de origens humildes que deixou a escola para ajudar a sustentar a família, estreando-se aos 15 anos como comediante num clube em Toronto. Foi percorrendo bares de stand-up comedy do Canadá, até garantir dinheiro e um teto digno aos pais e irmãos, e em 1981 já se tinha mudado para Los Angeles, onde pequenos números de abertura dos espetáculos de lendas da comédia como Buddy Hackett e Rodney Dangerfield lhe angariaram admiradores e uma rede de contactos. Essas noites de palco puseram à vista a sua enérgica capacidade de improvisação, um talento de mímica que tanto podia apanhar a pose de um galã de Hollywood como a do Sapo Cocas. Não admira que, uma vez atingida a maioridade, já estivesse na televisão e com um pezinho no cinema.

Continuando na rota dos factos, 1994 é o ano da sorte grande de Jim Carrey, com o sucesso de Ace Ventura, Doidos à Solta e A Máscara a dar largas à sua arte do trejeito e a aumentar-lhe o salário para os 10 milhões de dólares por filme. A Máscara, em particular, foi todo um território de experimentação para um ator "elástico" - recorde-se que o realizador Chuck Russell tirou o máximo proveito do delírio expressivo de Carrey e só precisou de um toque do CGI da época para explorar o imaginário dos cartoonistas Tex Avery e Chuck Jones. Isto na performance inesgotável de uma personagem, Stanley Ipkiss, um tímido funcionário de banco, que descobre uma máscara com superpoderes: sempre que a coloca no rosto, o seu inconsciente toma conta do corpo e não há nada nem ninguém que pare o homem da cabeçorra verde e fato amarelo.

Esta imagem de marca pegou, e teve as suas variações (o Riddler de Batman Para Sempre, o advogado de O Mentiroso Compulsivo) até surgir no horizonte um outro Jim Carrey. "Um tipo", palavras suas, "que um dia olhou para cima e começou a ver toda a maquinaria e luzes a cair do céu." The Truman Show (1998) é o filme que desmonta a perceção geral de que Carrey era "só" uma estrela comediante. O papel do homem que dá por si dentro de um reality show - a única realidade que conhece - abriu-lhe as portas para uma nova dimensão de si próprio, essa que costuma designar-se por sensibilidade dramática. E a interpretação genial, certamente a mais complexa de Carrey, veio logo a seguir com Homem na Lua (1999), de Milos Forman, onde o vemos retratar Andy Kaufman (1949-1984) na mais plena consciência das suas subtilezas humanas, para além da excentricidade e provocação do entertainer. Foi brilhante. Talvez porque Jim Carrey é ele próprio um eterno homem na lua, a tentar equilibrar os pés na terra.

O despertar da mente

A profunda compreensão do drama está, aliás, na base de toda a sua comédia, por mais aparvalhada que seja. Ou sobretudo nessa. Não esqueçamos que foi a infância pobre que lhe trouxe a raiva e as ganas de fazer caretas ao espelho, criar múltiplas máscaras com os músculos do rosto ("tudo o que sempre quis, desde criança, foi libertar as pessoas da preocupação"). Por isso são tão belas as suas personagens dramáticas, entrando para essa galeria o homem que decide apagar as recordações da ex-namorada (Kate Winslet) em O Despertar da Mente (2004), de Michel Gondry.

Durante algum tempo Carrey não voltou a acertar com os papéis adequados à sua capacidade de representar a dor, mas foi pondo a máscara do riso para seguir caminho. Em 2020, quando regressou do seu período de reclusão espiritual, entre a escrita de Memoirs and Misinformation e as pinturas terapêuticas (muitas delas caricaturas de Trump), optou por manter o encargo de "libertar as pessoas da preocupação". Só isso justifica o seu Dr. Robotnik em Sonic - O Filme, um objeto que não tem muito por onde pegar a não ser a cena deliciosa em que Carrey dança ao som de Where Evil Grows dos The Poppy Family. E a sequela chega às salas já este ano.

Mas afinal, quem é o Jim Carrey sexagenário? A resposta lê-se numa entrevista da Men's Health, ainda a propósito do seu livro: "Sou um corpo e uma mente que têm de se defender e cuidar e tentar fazer um bom show de si mesmo no mundo." Palavras de um lunático? Sim, no melhor sentido do ser lunático. Ele é aquele que, agora ciente do seu "Truman show" e desembaraçado do ego, não se perde dentro das máscaras.

Voltando à referência inicial deste texto, como diz Christof/Ed Harris: "Embora o mundo que ele habita seja, em alguns aspetos, falsificado, não há nada de falso no próprio Truman. Sem guiões, sem cartões de sinalização. Nem sempre é Shakespeare, mas é genuíno. É uma vida." Uma vida, sim, com humor destravado, depressão controlada, uma nova visão holística, e muita vontade de chegar ao público. Ainda há poucos dias surgiu como o convidado especial de um novo álbum do artista The Weeknd, no qual dá voz a um apresentador de rádio FM, numa frequência imaginária...

dnot@dn.pt

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