Não é todos os dias que surgem nos cinemas portugueses obras inéditas longínquas, quer no tempo quer na geografia. O Menino da Ama, de Tomotaka Tasaka, Mulheres de Ginza, de Kôzaburô Yoshimura, e Cada Um na Sua Cova, de Tomu Uchida, são os três títulos japoneses que chegam nesta quinta-feira às salas do City Alvalade, em Lisboa, e do Teatro Campo Alegre, no Porto. Obras do mesmo ano, 1955, do mesmo estúdio, Nikkatsu (aquele que produziu os Roman Porno apresentados pela Leopardo filmes no ano passado), e que não estrearam fora do país de origem. "Retratos do Japão moderno", como se lê no cartaz, que traduzem um prazer de "arqueologia cinematográfica". É assim que Miguel Patrício, licenciado em Filosofia e estudioso do cinema e cultura japonesas, a que tem dedicado trabalho intelectual, se refere à conceção deste ciclo chamado Mestres Japoneses Desconhecidos. Uma iniciativa The Stone and The Plot (a responsável pela edição portuguesa do livro Ozu, de Donald Richie), que proporciona aos espectadores, e aos fãs do cinema japonês em particular, algo muito mais palpável do que, nas palavras de Patrício, "amar fotogramas e sinopses"..O programador quis dar o passo seguinte no circuito comercial da distribuição, aquele que vai para além das reposições, recuperando títulos, autores e cinematografias menos vistas. Apesar de serem do mesmo ano e estúdio, os filmes escolhidos são de uma diversidade espantosa. O espectador pode assistir às sessões pela ordem que quiser, mas "é bom começar pelo filme mais aconchegante, o que questiona menos, sem deixar de ser um grandíssimo filme." Falamos de O Menino da Ama, sobre uma jovem que vem do campo para Tóquio, com o objetivo de saldar uma dívida de gratidão, oferecendo-se para trabalhar como criada numa casa com ensaiados hábitos burgueses. O menino mais novo da família acaba por afeiçoar-se a ela, e para além de lhe confiar um segredo, deleita-se com a imagem projetada da sua terra natal. Estamos perante uma delicada composição doméstica, feita de detalhes narrativos que dão lugar a uma montanha emocional. Um shomin-geki ("filme de gente comum"), sim, mas com uma ambição maior. "Em O Menino da Ama, o campo tem quase uma dimensão mística, associada ao fascínio pela figura da criança, que por si só carrega uma história antropológica muito complexa. No Japão antigo as crianças até aos 7 anos eram consideradas divindades, e isso implicava coisas muito estranhas como poderem ser mortas pela aldeia - porque também eram vistas como humanos incompletos, e nessa condição, seriam espíritos a regressar ao seu mundo natural... Há um momento do filme que faz lembrar esta ideia ancestral, no terceiro ato, quando o menino vai à procura da ama e, ao vê-lo atravessar a neve em esforço, somos levados a acreditar que algo de trágico vai acontecer.".Esta camada de leitura que Miguel Patrício nos dá permite ver no não oficial primeiro título do ciclo aquilo que uma animação de Miyazaki, O Meu Vizinho Totoro, também mostra. A saber: "O casamento entre o mundo da infância e o mundo fantástico conotado com um certo folclore. Quer dizer, o mundo da infância corresponde ao mundo arcaico, ao campo, onde existem aquelas tradições que se veem no Menino da Ama - no caso, o Namahage, que são homens mascarados de demónios, a bater de porta em porta para assustar as criancinhas.".A dicotomia campo/cidade, tema ligado à modernização do pós-guerra japonês, atravessa ainda Mulheres de Ginza, filme em que se assume a perspetiva de uma tímida jovem provinciana, aprendiz de gueixa. Tudo assenta numa espécie de coreografia feminina a partir de uma casa de gueixas, na qual cada uma das personagens se debate com as suas maleitas interiores - não necessariamente amorosas -, envolvidas pela sonoridade do jazz, referências à literatura ocidental e regadas a álcool. Vem à memória A Rua da Vergonha (1956), de Kenji Mizoguchi, mas esse é do ano anterior e ambos fazem parte de uma linhagem, como explica Patrício: "São os chamados filmes do mizu shōbai, cujo termo japonês significa "o comércio da água", um termo que, curiosamente tendo algo de poético, se aplica a toda e qualquer indústria noturna de entretenimento, desde bares a casas de gueixas. É verdade que Mizoguchi levou este estilo ao apogeu, mas, por outro lado, a representação da mulher no cinema japonês sempre foi uma prática corrente. Aliás, há mesmo uma marca narrativa e estilística que se traduz em homens fracos e mulheres fortes. No caso do mizu shōbai, mulheres que sofrem... Em Mulheres de Ginza existe esse estereótipo narrativo, mas são mulheres que têm liberdade no seu sofrimento. Um pouco como aquela ideia que se aplica muito ao cinema de Mikio Naruse: "as heroínas saem derrotadas, mas esclarecidas.".Seja como for, notamos que o sofrimento não afugenta aqui o humor. "É um filme falsamente leve, que inquieta pelos seus próprios elementos humorísticos", o que combina com o ADN do lugar: "O bairro de Ginza ainda hoje é um dos distritos mais caros, um distrito de luxo e efervescência, onde os traços da recuperação económica do pós-guerra se misturam com os lugares mais sombrios da sociedade." Que é como quem diz, o drama e a comédia andam de mãos dadas pelas ruas e esquinas de Ginza..Já Cada Um na Sua Cova inquieta de uma forma mais aguda. "Um filme que, no fundo, diz que o Japão é uma colónia americana, usando as mesmas questões dos shomin-geki para virar tudo de pantanas. Ou seja, pega na família para a criticar enquanto instância coletiva. Há aqui uma visão muito negra sobre as relações humanas, mas, claro, também circunscritas àquele tempo", sublinha Miguel Patrício. Neste olhar que atua como um bisturi sobre o ambiente de uma casa onde uma madrasta viúva desaprendeu o teatro doméstico com os filhos do falecido marido - um rapaz acamado e uma jovem mulher solteira - há de facto uma solidão impactante. "Acabar o ciclo com Cada Um na Sua Cova é deixar o espectador desassossegado, com perguntas, talvez pedindo por mais filmes.".dnot@dn.pt