"It 2" - A primeira grande desilusão da rentrée

Esta quinta-feira regressa a saga It. O segundo capítulo, de Andy Muschietti, é um dos acontecimentos desta rentrée mas está muito longe do fulgor do primeiro filme. Jessica Chastain e James McAvoy não chegam para dar credibilidade a este festim do palhaço Pennywise.

Pennywise é já um super-herói? A pergunta contém ironia mas pela maneira como nesta sequela o palhaço criado por Stephen King é "formatado" as coisas ficam mais difusas. Neste segundo capítulo da saga sobre adolescentes aterrorizados por um palhaço em Derry, pequena cidade do Maine nos anos 1980, o passado e o presente tocam-se. E o presente são os dias de hoje, 27 anos depois dos acontecimentos trágicos do primeiro capítulo.

Pennywise e os seus balões vermelhos continuam a matar crianças e, também inexplicavelmente um rapaz gay interpretado pelo cineasta canadiano Xavier Dolan. Tudo isso faz com que o grupo de amigos da bicicleta regresse à cidade que os viu crescer. Um pacto obriga agora os adultos a voltar para confrontar os seus medos, mesmo que todos tenham perdido os laços na confusão das vidas profissionais e pessoais. E, claro, depois do sucesso do primeiro filme, o orçamento da sequela permite que o elenco tenha estrelas como Jessica Chastain, Bill Hader ou James McAvoy para dar vida aos adultos perturbados. Isso e mais efeitos visuais, bem como uma inusitada duração de quase 3 horas, que, na verdade, apenas desacelera o ritmo e tira o clímax de muitas cenas.

O que no primeiro filme era um desfile de nostalgia eighties composto com uma frescura que o cinema de terror mainstream americano não tem mais, no segundo a regra é empolar um princípio de fórmula e rotina. Uma desilusão que fica maior com um argumento que procura caracterizar psicologicamente em demasia todas as personagens, com a triste exceção do próprio palhaço. Desta vez, o argentino Andy Muschietti esquece-se de causar estremecimento com a máxima "menos é mais" e os sustos são todos embrulhados num papel de oferta demasiado ruidoso e sem a elegância anterior. Aliás, os jump scares, os chamados sustos de nos fazer saltar da cadeira, não surgem e a tendência é o espetador sentir-se seguro na teia deste Pennywise.

Numa altura em que o cinema de terror americano de grande estúdio parece estar alavancado pela estética da Warner Bros, nomeadamente através da criação do universo Annabelle e The Conjuring, custa ver e sentir a industrialização desta adaptação de Stephen King, demasiado convencida da sua seriedade e com um folclore visual sempre a pisar o excesso e o fogo de artifício.

Como se não bastasse, há coisas que não ligam: o engarrafamento de temas - que vai da homofobia à denúncia da violência doméstica - com o aproveitamento das referências de cultura pop, onde se estica ao limite a aproximação visual a uma série como Stranger Things.

Se a fábula é essencialmente sobre como sobrevivermos ao nosso passado e à vergonha da nossa adolescência, o epílogo aqui é encenado em modo desgovernado, como se a trapalhada narrativa fosse apenas um mal necessário. Na verdade, é coisa de falta de refinamento ou de cinema de terror armado ao filme de super-heróis. Custa muito não aderir a esta sequela mas o que melhor Muchietti consegue é avulso, como a sequência do ataque da senhora idosa a Jessica Chastain. It- Chapter Two é paranormal normalizado...

Classificação: ** (com interesse)

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