Valérie Massadian: "Sou uma cineasta jovem aos 47 anos"

Valérie Massadian, fotógrafa, cineasta, artista livre. Depois de Nana, estreado há seis anos, está aí nos cinemas com Milla, história de amor trágica de uma adolescente. Numa passagem por Portugal, a realizadora falou ao DN.

Começou a fazer cinema aos 42 anos. Deduzo que essa descoberta na sua vida artística tenha sido um bálsamo de reinvenção pessoal. Será que o cinema é para si uma fonte de juventude?

Sim, por completo. Sou uma cineasta jovem aos 47 anos. É preciso perceber que comecei a trabalhar aos 16 anos, isto do cinema foi realmente uma reinvenção! Vivi antes muitas outras vidas... O cinema sempre foi uma coisa inacessível, ao contrário da fotografia, em que posso tirar da mala a máquina e começar a disparar. Um tipo há pouco perguntou-me se estava orgulhosa do filme... Isso não sei, estou sim orgulhosa de aos 42 anos ter tido coragem de fazer cinema. Senti que tinha chegado a minha vez, o meu filho já estava crescido. A minha única pressão é tentar arranjar algum dinheiro para continuar a trabalhar e pagar a renda, nada mais.

Nesta apresentação de Milla no aniversário do cinema Ideal falou-se da sua relação com Portugal. Não é por acaso que o filme tem como produtores o coletivo Terratreme...

Mas é uma relação que passa pelo amor, como todas as relações. A minha relação começou com uma história de amor, uma história que terminou. Porém, a minha relação com Portugal manteve-se. Honestamente, foram seis anos em que vinha e voltava frequentemente devido a essa relação. E não vivia em Lisboa, mas sim em Sintra, local a que depois disso não voltei - dizem-me que ainda está pior do que Lisboa com toda essa invasão do turismo. A sério, tudo o que gosto em Lisboa está a desaparecer. Isso entristece-me muito. Antes havia aquela sensação de comunidade na cidade, muito parecida àquela que se encontra nas aldeias. O que está aqui a acontecer acontece também em todo o lado, mas em Lisboa é mais violento.

Luc Chessel, o protagonista masculino do filme, é famoso em França como crítico de cinema do Libération. Por muito que seja difícil a questão da distanciação, não fica curiosa pelo seu olhar cinéfilo sobre o filme?

Devo dizer que ele é um dos raros críticos em França que tem o meu respeito. O que ele escreve é mesmo interessante. Fiquei danada quando percebi que o único tipo que poderia escrever algo que eu gostasse de ler sobre o meu filme nunca o iria poder fazer. Mas a verdade é que passados uns meses ele acabou mesmo por escrever, enfim, ganhou distância. E o texto é mesmo muito belo. O Luc é espertíssimo, tem uma cabeça que funciona muito bem. Ele conseguiu encontrar a distância certa para ver o filme de fora, coisa que ainda não consigo.

Em Milla sentimos uma ideia de onirismo muito própria. Nos seus sonhos existem planos de cinema?

Sim, tremendamente! Tenho a certeza, eu lembro-me sempre dos meus sonhos. Isso tem a ver com facto de ser descendente de arménios. Quando era miúda, mal acordava ia contar os sonhos aos meus avós... Fui criada segundo um sistema em que a fronteira entre o real e o onírico é muito fina, se é que existe...

E como gere esse seu método de filmar sem argumento? Como se gere essa coisa tão sagrada que é o instinto dos atores?

Trato os atores como crianças. Digo isto de forma nada condescendente - respeito mais as crianças, os animais e os idosos do que qualquer adulto. Dirijo os atores criando jogos.

Mas não os engana?

Não, de todo! Os jogos passam por situações que lhes dou, como, por exemplo, "façam café". Peço-lhes também para interagirem com objetos. Nos meus filmes tenho sempre muitos objetos e para mim são mesmo objetos, não são adereços. É sempre um processo que não sei aonde vai chegar, apenas sei as emoções que quero filmar.

E, depois, com tudo isso, como passa a intimidade?

Essa foi a parte mais complicada! Tivemos de a construir. A Séverine, a atriz, tinha alguns problemas com o seu corpo e, além do mais, o Luc é muito diferente dela. São o oposto um do outro e era isso que eu queria.

E soube sempre quando as coisas resultavam?

Sempre.

Quando está a filmar, já alguma fez sentiu o seu olhar de fotógrafa a sobrepor-se?

Não, não penso nisso. Separo as coisas, cinema e fotografia são duas coisas completamente diferentes. Mesmo dentro da fotografia considero que o retrato e a fotografia de rua são dois processos diferentes. Fazer um retrato é bem mais próximo do que filmar alguém. Confesso que nunca penso no enquadramento, é tudo instintivo. Fotografar ou filmar é a mesma coisa.

Não consegue detetar quando vê um filme que tenha sido realizado por um realizador que veio da fotografia?

Não... Antes de mais, a maioria dos realizadores não faz um enquadramento, pede ao diretor de fotografia. O que consigo é perceber se um diretor de fotografia é bom ou não. Aborrece-me quando vejo planos muito enquadrados, perfeitos, pois sinto que depois estão mortos. Irritam-me aqueles planos que são demasiado pensados e determinados... Tudo o que é demasiado pensado morre. Para mim, a questão não passa pela perfeição ou imperfeição, mas sim deixar a luz chegar e perturbar algo.

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